Análise Manga: O Verão em Que Hikaru Morreu 5
O Verão em que Hikaru Morreu 5 mantém o mistério, aprofunda as personagens e confirma porque é uma das melhores séries da Presença Comics.
Depois da intensidade do volume anterior, seria fácil esperar que O Verão em que Hikaru Morreu Volume 5 continuasse a apostar numa sucessão de momentos chocantes. Em vez disso, Mokumokuren toma uma decisão muito mais interessante. A narrativa abranda o ritmo para explorar as consequências dos acontecimentos recentes, desenvolver as suas personagens e, acima de tudo, expandir um mistério que parece crescer a cada capítulo. É uma escolha que pode surpreender quem procura ação constante, mas acaba por resultar porque reforça aquilo que sempre distinguiu esta obra, a forma como combina terror psicológico, drama humano e um ambiente profundamente inquietante.
Continua também a ser uma das grandes obras publicadas pela Presença Comics. A edição mantém a excelente qualidade a que a editora já habituou os leitores e esta série continua a destacar-se como um dos lançamentos mais consistentes do catálogo. Poucos mangas conseguem equilibrar géneros tão distintos sem perder identidade, e O Verão em que Hikaru Morreu continua a fazê-lo com uma naturalidade impressionante.
Grande parte deste quinto volume vive da investigação. As personagens continuam a procurar respostas sobre a história da aldeia, das famílias que parecem carregar um peso ancestral e das lendas que moldaram toda aquela região. O interessante é que, em vez de oferecer soluções fáceis, Mokumokuren prefere abrir novas portas. Cada descoberta torna o universo mais complexo, mais antigo e muito mais fascinante. O mistério deixa de parecer um problema localizado e ganha uma dimensão muito mais ampla, algo que desperta ainda mais curiosidade para os próximos volumes.
Ao mesmo tempo, a evolução de Yoshiki e de “Hikaru” continua a ser o verdadeiro coração da narrativa. A relação entre ambos torna-se cada vez mais complicada, não apenas pelas circunstâncias sobrenaturais que os rodeiam, mas também pelo peso emocional que carregam. Existe uma proximidade crescente, um desconforto constante e uma sinceridade que torna impossível ignorar aquilo que está a acontecer entre os dois.
É precisamente aqui que surge um dos aspetos mais interessantes da obra. O subtexto BL está cada vez mais evidente, mesmo permanecendo parcialmente escondido sob a camada de horror sobrenatural. Não é utilizado como simples elemento de choque nem como romance convencional. Pelo contrário, serve para reforçar a vulnerabilidade das personagens e dar ainda mais força ao conflito emocional que vivem. Essa mistura entre terror cósmico, identidade, culpa e sentimentos reprimidos continua a ser uma das características mais originais da série e uma das razões pelas quais se destaca tanto dentro do panorama atual do manga.
Apesar de funcionar sobretudo como volume de transição, isso não significa que lhe falte tensão. Muito pelo contrário. Existe sempre a sensação de que algo terrível está prestes a acontecer, mesmo durante os momentos aparentemente tranquilos. Mokumokuren domina muito bem o ritmo da narrativa, alternando páginas silenciosas com expressões carregadas de emoção e pequenas revelações que deixam o leitor constantemente desconfortável.
O trabalho artístico continua absolutamente exemplar. Os cenários da aldeia mantêm aquela atmosfera opressiva que parece esconder segredos em cada esquina, enquanto as expressões das personagens comunicam muito mais do que os próprios diálogos. Quando o terror surge, continua a ser perturbador, orgânico e memorável, mas é precisamente nos momentos mais calmos que o desenho revela toda a sua qualidade narrativa.
Nem tudo é perfeito. Quem esperava respostas concretas poderá sentir alguma frustração, já que o volume prefere levantar novas questões em vez de resolver as anteriores. O ritmo mais lento também poderá dividir opiniões, sobretudo entre leitores que vinham embalados pelo impacto do quarto volume. Ainda assim, estas opções parecem deliberadas e fazem sentido dentro da construção global da história.
Vale ainda destacar um dos extras mais divertidos desta edição. A secção de perguntas e respostas entre autora e leitores volta a oferecer curiosidades interessantes sobre o universo da obra e sobre o processo criativo. Já as pequenas histórias em formato 4-koma são simplesmente maravilhosas, oferecendo momentos de humor inesperados que funcionam como um excelente contraste perante uma narrativa tão pesada e emocional.
O Verão em que Hikaru Morreu 5 pode não ser o volume mais explosivo da série, mas confirma a maturidade da escrita de Mokumokuren. É um livro que aposta na construção do mundo, na evolução das personagens e na tensão psicológica, preparando cuidadosamente aquilo que parece ser uma nova fase da história. No final, fica a sensação de que o verdadeiro horror ainda está para chegar, e isso é talvez o maior elogio que se pode fazer a uma série que continua a surpreender volume após volume.
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.





