Cinema: Crítica – Backrooms: O Labirinto
Kane Parsons escreve e realiza Backrooms: O Labirinto, adaptando para cinema o popular creepypasta e a série de internet, num filme de terror a não perder.
A internet é um lugar estranho. Em maio de 2019, uma imagem de uma sala de escritórios vazia, com as paredes amarelas, foi publicada no 4chan, um fórum público. Teorias sobre o que poderá ter acontecido naquele lugar começaram a surgir, tendo a imagem sido a semente para a criação do creepypasta — uma espécie de mito urbano moderno, focado na internet. Quando Kane Parsons, na altura um mero criador de conteúdos animados baseados no anime Attack on Titan, lançou em janeiro de 2022 o vídeo “The Backrooms (Found Footage)”, este acabou por abrir as portas para um universo ainda maior, tendo acabado por fazer mais duas dezenas de episódios a expandir The Backrooms, publicados online ao longo dos últimos anos. No meio disto tudo, a produtora A24 abordou Parsons para escrever e realizar, para o grande ecrã, o universo que tornou vivo, chegando agora à estreia de Backrooms: O Labirinto.
Clark (Chiwetel Ejiofor) é um arquitecto e dono de uma loja de mobília falhada, no meio dos Estados Unidos, que um dia descobre que uma das paredes da sua loja vai dar a um local secreto. Do outro lado, a sua psicóloga Mary Kline (Renate Reinsve), preocupada com Clark, acaba por se aventurar dentro desta dimensão doutro mundo, em busca do seu paciente.
Depois da estreia desastrosa de Slender Man em 2018, este serviu como exemplo de como os estúdios de Hollywood não sabiam como adaptar as novas histórias comunitárias de terror da internet, com o documentário Beware the Slenderman a demonstrar como é que esse fenómeno aconteceu de uma forma mais informativa e assustadora, considerando a presença da figura na vida real. Desde então, parece que mais ninguém se ousou sequer tentar de novo, ou talvez outras histórias fossem mais difíceis de tornar cinematográficas, como o caso da SCP Foundation, que, sendo uma base aberta comunitária e aceitando o ideal de multiverso, não tem uma narrativa fixa capaz de atrair espectadores. Mas a A24 viu algo em Parsons e no seu talento durante a criação da série, ao qual poderá apelar não só a quem é fã do universo, como também a novos públicos, que depois do filme poderão passar horas na toca do coelho virtual a ver e ler sobre Backrooms.
Tendo em conta a natureza e o enquadramento de Backrooms como terror analógico — terror baseado em tecnologias mais antigas, frequentemente passadas entre os anos 80 e 90 —, Parsons agarrou em tudo aquilo que fez para a Internet e adaptou de uma forma incansável a sua paixão criativa. Naturalmente, o orçamento reportado de cerca de 10 milhões de dólares deve ter ajudado, e este passar de criar os vídeos em software para os gravar num local físico com mais de 2700 m2, recriados de forma fiel, torna toda a experiência real num verdadeiro filme de terror.
O balanço entre o found-footage e o cinema tradicional estabelece uma dinâmica visual muito própria, definindo desde o primeiro momento quando é que o terror está à espreita, com o espectador a não saber ao certo o que esperar, mas a ficar aterrorizado com a tensão criada. Por outro lado, introduzir um conjunto de personagens fixas num universo que apenas existe como conceito antológico aborda a ideia de outra forma, personificando a experiência destas pessoas neste local e adicionando mais uma camada a tudo o que foi feito até hoje; inclusive, a obra ser uma extensão do universo de Parsons.
É complicado decifrar as intenções de Backrooms no cinema, sobretudo tendo em conta o material-base. Os fãs certamente irão encontrar motivos para ver e rever o filme, à procura de pistas e detalhes que satisfaçam a sua vontade de detective, enquanto o filme poderá ser demasiado surreal e ambíguo para o espectador que procure um filme de terror mais linear. Aqui o medo existe, e todos os momentos que passamos no Backrooms são verdadeiramente desconfortáveis e assustadores, permanecendo na memória muito depois de os créditos passarem.
Estamos perante um filme que não apenas é um ponto de viragem no que toca à adaptação de creepypasta para cinema — que não tem sofrido a mesma abordagem que os videojogos, felizmente — como também ao reconhecimento daqueles que cedo contribuíram para a sua popularização junto das comunidades de nicho. Parsons está agora ao lado de outros criadores da internet que transitaram para o grande ecrã, como Danny e Michael Philippou (Fala Comigo, Volta Para Mim), Chris Stuckmann (Shelby Oaks) e Markiplier (Iron Lung); onde lentamente vamos percebendo onde reside a próxima geração do terror.
Assim, Backrooms: O Labirinto é talvez um dos filmes de terror mais impressionantes do ano, deixando uma marca em quem o vê e atiçando a curiosidade em explorar, para além do cinema, um dos universos virtuais mais aliciantes. A sua determinação em manter-se fiel ao material-base para criar algo novo é perfeita para todo o tipo de públicos, mas a verdadeira curiosidade será como estes reagem ao produto final.
Nota final: 9/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.





