Cinema: Crítica – A Odisseia
Estreia no cinema o novo filme de Christopher Nolan, com A Odisseia a adaptar o mito, na derradeira experiência audiovisual como nunca vimos até hoje.
Foi em 1954 que estreou Ulisses, considerada a primeira adaptação em longa-metragem da Odisseia e, hoje, uma das obras essenciais do cinema da sua era. As adaptações que se seguiram foram apresentando perspectivas distintas, incluindo Tróia, projeto ao qual Christopher Nolan esteve inicialmente associado como realizador, embora essa responsabilidade tenha acabado por ficar a cargo do veterano Wolfgang Petersen. Ainda assim, o mundo ficou intrigado com aquilo que Nolan poderia fazer com este conto mítico e histórico; e, ao longo dos anos, com as suas produções e com a afirmação do realizador como um dos cineastas mais importantes da nossa geração, a sua derradeira adaptação chega ao IMAX com A Odisseia.
Seguimos a vida de Ulisses (Matt Damon), que, depois de liderar um grupo de homens na Guerra de Tróia, procura regressar a Ítaca. Ao mesmo tempo, o seu filho Telémaco (Tom Holland) parte em busca do pai, enquanto a sua mãe, Penélope (Anne Hathaway), espera pacientemente pelo regresso do marido e rei.
Depois de Tenet, Nolan parece entregar-se às histórias que moldaram a sociedade como a conhecemos, em vez de prosseguir pela criação de um universo inspirado pela junção de vários elementos. Talvez tenha começado a ganhar esse gosto em 2017, com Dunkirk; o cineasta parece agora movido pelo desejo de recontar a história do mundo através da sua visão, algo muito bem-vindo. Se, em Oppenheimer, a ideia de concentrar tudo em torno da figura que criou a bomba atómica nos ofereceu algo impressionante, a adaptação de um dos poemas mais importantes e épicos de sempre eleva a fasquia para um nível de expectativa que esgotou salas de cinema por todo o mundo ainda a um ano da estreia, batendo recordes que ficarão para sempre.
Ao longo de quase três horas, Nolan aborda um vasto conjunto de personagens que contribuem para este épico, cada uma com a sua agenda e as suas intenções, fazendo com que toda a jornada se revele essencial. Há vários momentos que criam um impacto próprio, num filme com pequenas narrativas que funcionam como peças de um puzzle maior e mais significativo. Entre a vida e a morte, a culpa e a coragem, ninguém escapa ileso a este conto, e ninguém é verdadeiramente irrelevante, com todos a cumprirem o seu papel na história. No impacto psicológico da guerra, encontra-se uma busca pela identidade e uma reflexão sobre o que define verdadeiramente a liderança, num estudo repleto de nuance, que vai muito além de uma simples aventura.
A grandiosidade não está reservada apenas às personagens, nem ao elenco de luxo com que Nolan nos presenteia, mas também ao facto de este filme ter sido integralmente filmado com câmaras IMAX, sendo o primeiro do seu género. Ver uma obra cuidadosamente planeada para esse efeito traduz-se numa experiência audiovisual sem igual, que combina o verdadeiro melhor de dois mundos e se afirma como o formato premium definitivo para o grande ecrã. De facto, ao longo do último ano que antecedeu a estreia, fomos vendo amostras que ajudaram a definir a dimensão da obra, restando apenas imaginar de que forma Nolan apresentaria o resultado final. Esse resultado corresponde exatamente à expectativa e vai um pouco mais além, na medida certa. É, de igual modo, um ensaio sobre a forma como nenhum conceito e nenhuma sequência são maiores do que o próprio cineasta, que vai aos cantos mais obscuros da história para nos proporcionar uma experiência rica e memorável.
O elenco divide-se entre aqueles que já trabalharam com Nolan e outros que passam por esta experiência pela primeira vez, com ambos os grupos a adaptarem-se ao ambiente mítico-histórico proposto. Entre Tom Holland, Matt Damon e Anne Hathaway nos papéis principais, bem como Zendaya, Jon Bernthal, Lupita Nyong’o e Robert Pattinson, todos entregam interpretações ao nível das melhores das suas carreiras nesta obra.
Como se não bastasse, toda a obra é acompanhada por uma brilhante banda sonora, composta por Ludwig Göransson, colaborador habitual de Nolan, que se impõe com a mesma grandeza e importância da sua contraparte visual, numa fusão digna de um sonho absoluto. O compositor criou também um tema original para o filme, “When I’m Home”, em conjunto com Travis Scott – que também participa na película – e James Blake, quebrando, de certo modo, as barreiras daquilo que é, ou não, expectável.
Assim, A Odisseia é tudo aquilo, e mais um pouco, que poderíamos desejar de um dos filmes mais esperados do ano, com Nolan a provar novamente que não há absolutamente ninguém como ele no panorama atual, e provavelmente nunca haverá alguém semelhante ao longo da nossa vida. Apesar de os seus dois últimos filmes serem inspirados pela história do mundo e construídos em torno dela, é fácil começar a sentir saudades dos seus projetos de cariz mais científico, aguardando com ansiedade aquilo que virá a seguir.
Nota Final: 9/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.





