Cinema: Análise – Manifesto (2018)

Cate Blanchett interpreta 12 personagens diferentes em Manifesto, declarando que toda a arte atual é falsa. Será já uma séria candidata a um óscar?

Manifesto (2018), Cate Blanchett interpreta 12 personagens diferentes.

Manifesto (2018), Cate Blanchett interpreta 12 personagens diferentes.

Manifesto é um filme interpretado por Cate Blanchett, não existindo propriamente uma narrativa, mas sim um conjunto de monólogos ditos por 12 personagens diferentes que se apresentam em cenários e temáticas opositoras a vários géneros artísticos. Estas personagens nunca se cruzam ao longo do filme e não têm qualquer ligação entre si para além da sua vontade enorme em criticar uma determinada arte.

O filme torna-se de certa forma uma enorme biblioteca de manifestos artísticos, indo desde o Dogma 95 (um movimento cinematográfico em que tudo deve ser filmado de forma crua, nomeadamente com som ambiente, luz natural, câmaras sem tripé, sem filtros, etc) a manifestos populares como o dadaísmo, o futurismo, o experimentalismo, avant-garde ou discursos de autores como Jean-Luc Godard “It’s not where you take things from, it’s where you take them to” ou Werner Herzog “Facts create norms, but truth creates illlumination”. Enfim, é claramente visível a enorme investigação que houve por trás deste filme, estes exemplos são uma mera partícula do que é trazido ao espetador nesta obra cinematográfica.

 

Cate Blanchett declara que toda a arte atual é falsa.

Cate Blanchett declara que toda a arte atual é falsa.


É de facto um filme difícil de trazer à população em massa devido à constante atenção que necessita do espetador, perdendo-se por vezes no meio desta gigante coleção de monólogos. No entanto, possui também uma enorme importância  visualmente, os cenários destas 12 personagens são completamente diferentes, aliado a uma fotografia lindíssima. Indo desde uma encenadora famosa numa sala de espetáculos, uma cientista ao encontro de algo nunca antes visto, uma professora a ensinar alunos sobre temas altamente intelectuais para a sua idade, um sem-abrigo numa cidade abandonada, entre outros, sendo importante salientar que são todos interpretados por Cate Blanchett. A atriz mostra novamente a sua enorme flexibilidade de representação, tanto nas diferentes personagens que executa como nos monólogos intelectuais que consegue trazer num único plano-sequência. Uma técnica constantemente utilizada ao longo do filme, forçando o espetador a olhar diretamente para a atriz e ouvir as suas palavras.

Uma representação do discurso avant-garde "Chopin to the electric chair."

Uma representação de um discurso avant-garde “Chopin to the electric chair.”


Manifesto apesar de não ter uma narrativa, irá inevitavelmente tornar-se num filme importantíssimo em termos artísticos. Espetadores interessados em estudos artísticos irão encontrar uma coleção de monólogos que valem a pena pesquisar mais aprofundamente após o visionamento do filme, tornando-se numa obra cinematográfica que vai crescendo no espetador. A sua constante crítica à originalidade artística estimula um paradoxo infinito no espetador, sendo um filme que só existe devido à criação de outrem, criando algo inovador através disso.

  • Manifesto estreia dia 5 de abril nos cinemas.

Classificação: 4/5

Tiago Ferreira

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Tiago Ferreira

Estudante de Cinema e Teatro, Crítico de Cinema, Fotógrafo novato e Cosplayer.

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