Análise| Serious Sam: Shatterverse – Caos, tiros e nostalgia numa nova dimensão
Serious Sam: Shatterverse é uma nova abordagem roguelite ao clássico FPS, mas nem sempre consegue transformar a fórmula num tiro certeiro.
Jogo: Serious Sam: Shatterverse
Disponível para: PC, PlayStation 5, Xbox Series
Versão testada: PlayStation 5
Desenvolvedora: Behaviour Interactive
Editora: Devolver Digital
Há algo de estranhamente apropriado em pegar numa série com 25 anos como Serious Sam e atirá-la para um multiverso. Serious Sam: Shatterverse faz precisamente isso, colocando diferentes versões de Sam, desde o Retro Sam ao Alien Sam e ao Cartoony Sam, numa viagem por dimensões repletas de inimigos conhecidos. Desenvolvido pela Behaviour Interactive e publicado pela Devolver Digital, este spin off troca a estrutura tradicional por uma experiência roguelite cooperativa para até cinco jogadores.
A premissa funciona, sobretudo porque Serious Sam sempre foi uma série mais interessada em disparar contra tudo o que se mexe do que em contar histórias complexas. Cada partida é composta por nove níveis escolhidos aleatoriamente, com um combate contra um boss a cada três fases. Os cenários têm uma estrutura bastante simples, com arenas retro, pequenos desvios para encontrar moedas ou vida, alguns desafios de plataformas e altares onde é necessário sacrificar inimigos.
O coração da experiência continua a ser o boomer shooter. Corre, salta, faz dash e dispara. Muito. As armas têm munições infinitas depois de recolhidas, o que transforma cada confronto numa sucessão de rajadas contra hordas de Headless Kamikazes, Sirian Werebulls e outros velhos conhecidos. Também existem execuções corpo a corpo para recuperar vida, numa mecânica claramente inspirada nos Glory Kills de Doom, embora aqui os inimigos continuem a atacar enquanto Sam executa o movimento.
É quando começamos a aprofundar as runs que Shatterverse mostra algum potencial. A experiência permite desbloquear melhorias temporárias, enquanto a progressão permanente abre novas armas, personagens e vantagens. Mais tarde surgem combinações de dano elemental, acessórios, melhorias de críticos, regeneração de vida e habilidades especiais, aproximando o jogo de um ARPG. As anomalias do multiverso acrescentam modificadores às fases, incluindo perspetiva na terceira pessoa, penalizações de velocidade ou inimigos capazes de roubar ouro.
O problema é chegar lá. As primeiras cinco ou seis horas são demasiado repetitivas e pouco inspiradas, com um arsenal limitado e melhorias que raramente alteram de forma significativa a maneira de jogar. A necessidade de acumular catalisadores para desbloquear conteúdo torna a progressão bastante grindy, e começar praticamente preso ao Retro Sam, com uma pistola, caçadeira e Tommy Gun, não ajuda.
A mudança para Unreal Engine 5 também altera o feeling da série. Os movimentos, a física e a pontaria não têm a mesma resposta dos jogos desenvolvidos no Serious Engine. A dispersão dos projéteis dificulta os disparos precisos a longa distância e, em certos momentos, parece que estamos a lutar mais contra o sistema de mira do que contra os inimigos.
Em grupo, a experiência ganha outra vida. A cooperação permite combinar ultimates, classes e habilidades, enquanto o sistema de reanimação torna os confrontos mais intensos. É fácil imaginar Shatterverse como aquele jogo descomprometido para uma sexta feira à noite entre amigos, uma espécie de Gauntlet Legends transformado em FPS.
Ainda assim, há problemas técnicos que não podem ser ignorados. Existem situações em que personagens ficam presas depois de caírem, enquanto outros bugs fazem jogadores atravessar a geometria dos mapas. Pior, falta-lhe parte daquele caos absurdo e delicioso que sempre definiu Serious Sam. As hordas nem sempre têm a mesma composição ou ritmo cuidadosamente desenhado dos capítulos principais, e os segredos e Easter eggs também parecem ter ficado pelo caminho.
Serious Sam: Shatterverse é interessante, sobretudo quando a progressão começa finalmente a permitir builds mais elaboradas e quando há amigos para transformar o caos numa festa. Mas também demonstra como uma fórmula roguelite pode entrar em conflito com um FPS construído à volta de ritmo, espetáculo e pura insanidade. É mais divertido do que muitas reinvenções recentes de shooters clássicos, mas está longe de ser um novo Serious Sam.
Nota: 5/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.





