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Crítica | Pinocchio: Unstrung: uma marioneta, sangue e uma ideia que dá luta

Rhys Frake-Waterfield transforma Pinóquio num slasher sangrento e absurdo, com efeitos práticos de destaque e algumas decisões difíceis de defender.

Pinocchio: Unstrung

Tenho de começar por ser claro: o Twisted Childhood Universe, ou Poohniverse, como também é conhecido, criado por Rhys Frake-Waterfield, é uma das minhas franquias favoritas dos últimos tempos. A ideia de pegar em personagens infantis que entraram no domínio público e transformá-las em assassinos de filmes de terror é tão absurda como divertida. Nem sempre resulta, é verdade, mas existe aqui uma vontade de fazer B horror sem vergonha que continua a conquistar-me.

Com Pinocchio: Unstrung, Frake-Waterfield pega na conhecida história de Pinóquio e atira-a directamente para um slasher gótico, sangrento e assumidamente exagerado. A história começa com uma introdução em estilo teatro de sombras, onde conhecemos Geppetto, interpretado por Richard Brake, reinventado como um excêntrico inventor britânico e cientista louco. Depois de uma tragédia familiar, cria Pinóquio para servir de companhia ao neto James, mas aquilo que começa como uma amizade improvável depressa se transforma numa carnificina.

Pinocchio: Unstrung

O grande trunfo do filme está precisamente na marioneta. Pinóquio tem um aspecto rude, lascado e artesanal, muito mais próximo de uma criatura saída de um conto gótico do que da imagem imaculada da Disney. Os efeitos práticos são, sem dúvida, os melhores que o universo de Frake-Waterfield já apresentou. Há uma aposta forte em animatrónica e marionetas físicas, e isso dá ao boneco uma presença que o CGI dificilmente conseguiria reproduzir.

E depois temos o gore. Muito gore. Entre pele arrancada da cara, violência dentária, cérebros esmagados e uma memorável carnificina num local bastante propicio para tal, Pinocchio: Unstrung sabe exactamente o que quer oferecer ao fã de exploitation. O problema é que, em vários momentos, o efeito prático parece demasiado artificial para provocar verdadeiro desconforto. É divertido, nojento e gráfico, mas raramente assustador.

Onde o filme perde mais pontos é no argumento. A narrativa é pouco consistente, a exposição torna-se pesada e algumas decisões parecem existir apenas para empurrar o próximo massacre. A influência de produções como Child’s Play e M3GAN é evidente, sobretudo na ideia de uma criatura infantil que interpreta literalmente as ordens de quem quer proteger. A introdução de uma versão amaldiçoada de Jiminy Cricket, com voz de Robert Englund, acrescenta uma camada interessante, mas nunca é explorada com a profundidade necessária.

Também é difícil ignorar o tom. O humor negro pode funcionar muito bem neste tipo de cinema, mas algumas piadas e momentos de violência parecem mais interessados em provocar do que em construir uma boa cena. A forma como certas personagens femininas são tratadas, incluindo uma cena de nudez particularmente gratuita, torna algumas escolhas difíceis de defender e dá ao filme um lado desagradavelmente gratuito.

Pinocchio: Unstrung

Ainda assim, Pinocchio: Unstrung é um objecto estranho que merece crédito. Não é o melhor argumento do Poohniverse, mas é o mais interessante do ponto de vista artesanal. Quando a madeira range, o sangue salpica e a marioneta começa a sorrir, percebe-se exactamente porque esta franquia continua a ter espaço para brincar com o absurdo.

Nota: 7/10

António Moura

Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.

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