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Análise jogos: The Wandering Village

Constrói uma colónia em cima de uma criatura gigante nómada e desenvolve uma relação de simbiose num city builder de simulação original e deslumbrante. The Wandering Village sai em acesso antecipado a 14 de setembro.

O mundo está a sucumbir a uma misteriosa vaga de toxinas que corrompe e mata tudo aquilo em que toca. As cidades estão a desaparecer, as aldeias não resistem, e está em curso um êxodo global. A esperança parece completamente perdida, até que um grupo de refugiados se depara com uma criatura mitológica do passado: um Onbu.

Em The Wandering Village, assumimos o controlo de um grupo de aldeões que decide criar a sua colónia em cima de um Onbu para tentar sobreviver num mundo infestado por toxinas. Para tal, têm de cuidar tanto das suas necessidades como das da criatura ancestral.

The Wandering Village começa por se apresentar como um típico city builder: há que construir casas, recolher recursos, cultivar alimentos e estabelecer uma economia. Mas a verdadeira novidade da mecânica do jogo assenta precisamente na sua peça central: o Onbu. Esta criatura nómada vai percorrendo o mundo e cabe-nos ajudá-lo a cuidar de si e das suas necessidades, sendo que temos de criar uma economia não só sustentável, mas também simbiótica, já que o Onbu, por si só, não nos consegue fornecer todos os recursos de que precisamos, e dependemos das suas migrações para encontrar novos materiais e recolhê-los através de expedições ao mundo exterior.

The Wandering Village será lançado em acesso antecipado a 14 de setembro pela Stray Fawn Studio, uma simpática empresa indie suíça.

Andar com a casa às costas nunca fez tanto sentido!

Há uns tempos cruzei-me com uma demo de The Wandering Village e fiquei imediatamente intrigado com a ideia que propõe: hmmm… Um city builder em que construímos uma cidade em cima de uma criatura gigante? Confesso que comecei por ficar muito cético, até porque a ideia não é propriamente original (Airborne Kingdom), e nem experimentei a demo. E isso teria sido um erro enorme, não fosse a superssimpática equipa do The Stray Fawn Studio ter enviado uma chave do jogo para o Central Comics analisar.

Comecemos pelo início. Começamos o jogo como qualquer outro city builder: temos de construir habitações, estradas e outros edifícios de produção e pesquisa, temos de recolher recursos e, basicamente, evitar que os nossos aldeões morram à fome. Mas depressa chegamos à conclusão de que não existem muitos recursos à nossa volta. Eis que entra em cena a estrela do jogo o Onbu começa a caminhar e a levar-nos para locais onde podemos montar expedições, após construirmos o edifício correto, para recolhermos os recursos de que precisamos e acolher outros nómadas espalhados pelo mapa, sendo esta a mecânica para aumentarmos a nossa população. Pelo caminho, vamos enfrentando um conjunto de decisões morais e estratégicas que afetam o nosso desempenho. Quem jogou Frostpunk, conhece a ideia. Entretanto, temos de ir adaptando a nossa colónia aos vários biomas por onde vamos passando para conseguirmos sobreviver.

Até aqui, nada de propriamente novo ou especial, mas há que dizer, tudo executado excecionalmente! Já lá vamos…

A novidade assenta no facto de que temos de cuidar tanto do Onbu como da nossa colónia. Um não existe sem a outra, e vice-versa. A palavra de ordem é: simbiose. À medida que o Onbu vai percorrendo o mapa, vai atravessando áreas contaminadas e a sua comida vai escasseando, ou seja, temos de curá-lo e alimentá-lo. Embora comecemos por não ter qualquer tipo de controlo no caminho que o Onbu toma, ganhamos cada vez mais capacidade para influenciar as decisões da adorável criatura e assim ter mais mão no nosso destino.

Mas há mais em The Wandering Village. O jogo é deslumbrante! A arte é excecional e irrepreensível. Com elementos 2D sobre um mapa 3D, sprites desenhados e animados à mão com mestria, uma palete de cores e uma saturação perfeitas, o jogo é extremamente agradável aos olhos a própria Stray Fawn refere que o jogo é inspirado numa obra de arte, o que faz sentido. A música e os sons, embora ainda algo limitados, são também muito bonitos.

Se estão a pensar “pois, mas tanta arte manda-me o PC abaixo”, desenganem-se! O jogo está incrivelmente bem otimizado e polido. Dentro do jogo, existem 3 tipos de visão/mapa: a colónia, o Onbu e o mapa do mundo. Podemos alternar entre as 3 ao clicar num botão da UI ou em scroll, com o botão do meio do rato, e a passagem entre as três é completamente fluida, sem quebras nem frame drops. Excelente! Além disso, durante o tempo que passei com o jogo, não encontrei um único bug nem um! Isto merece ser referido já que não é nada normal, especialmente em jogos lançados em acesso antecipado.

Mas, como não poderia deixar de ser, nem tudo são rosas em The Wondering Village, se bem que apenas tenho um ou dois espinhos a apontar, e mesmo estes resumem-se a uns pequenos detalhes e a uma questão de tempo. A beleza tem um preço se queremos ter uns abdominais ultradefinidos, não podemos comer piza e mandar abaixo uma litrosa todos os dias. Da mesma forma, se queremos ter o efeito deslumbrante conseguido pela sobreposição de sprites 2D desenhados à mão em mapa 3D, não podemos ter rotação do mapa, o que nos retira algum controlo. Mas é uma questão de hábito e, na realidade, trata-se mais de um pormenor do que outra coisa qualquer. Em segundo lugar, e para não variar, em jogos lançados em acesso antecipado, este também sofre da típica maldição: falta de conteúdo. Não me interpretem mal! Tudo o existe no jogo é excecional, mas o jogo poderia (e vai) ter muito mais. A árvore de pesquisa é limitada, o lore podia estar mais completo, os dilemas morais podiam ser mais diversos e ter maior impacto, entre outros aspetos. Enfim, depois de algumas horas, deixam de haver grandes novidades em The Wandering Village. Embora seja apenas uma questão de tempo até chegar mais conteúdo, o que me parece garantido devido à atividade dos criadores em vários fóruns, este é um aspeto que, para mim, pesa muito num jogo. Neste caso, estou a fazer esta análise com que existe agora, não com o que poderá existir no futuro, o que me leva ao meu último reparo: penso que o preço de lançamento poderia ser mais simpático. 20 e poucos euros parece-me um pouco acima do que seria justo para o conteúdo existente, e acho que 12 € a 17 € seria bem mais adequado. Adivinham-se promoções logo à partida? Não sei, logo veremos e não falta muito, já que a data de lançamento foi definida para 14 de setembro.

The Wandering Village tem uma estética fenomenal e um conceito válido que traz alguma novidade aos videojogos. A otimização do jogo está irrepreensível do melhor que vi nos últimos tempos e sinal de que a Stray Fawn Studio sabe o que está a fazer. Além destes pontos de destaque, o jogo em si é sólido e sem dúvida que vai ter muito boa tração junto de fãs do género e do estilo.

No lado menos bom, adivinharam: falta de conteúdo. Não acredito que passe muito tempo até este pequeno parágrafo se tornar desajustado, já que a equipa é muito ativa, mas é o que é. Anexado a este reparo, vem também o do preço, que deixará de fazer sentido a partir do momento em que o jogo passar a oferecer muitas dezenas (ou centenas) de horas de entretenimento.

 

Classificação: 7/10

Por agora, vou afastar-me de The Wandering Village tal como se de um bom vinho se tratasse: tem de amadurecer, mas não deixa de ser bom! Este é um título que vou, com certeza, revisitar num futuro próximo. Mal posso esperar para regressar para as cavalitas do meu Onbu e viver aventuras extraordinárias com a gentil criatura… só tenho de esperar mais um bocadinho.

Seja como for, recomendo vivamente The Wandering Village não só aos fãs de city/colony builders, como aos fãs de arte em videojogos. Este é um título a ter na biblioteca.

Para terminar, fica a dica indispensável: tratem bem o bichinho que o bichinho vai tratar-vos bem!

Gameplay The Wandering Village:

Trailer The Wandering Village:

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