Dylan Dog – Morte em 16 por 9: Grande edição ou oportunidade perdida? | Análise
Dylan Dog, detetive do pesadelo, regressa nesta nova aventura marcante, ideal para os seus fãs e todos aqueles que se interessam pelo poder do sobrenatural em histórias de BD.

Em lugar das habituais dimensões do álbuns já publicados e traduzidos para português pela coleção Aleph, da editora A Seita, este novo álbum de capa dura surge nas dimensões 204x268x22 e com 208 páginas. O propósito é que sirva para um novo enquadramento de planificação rígida de três tiras por página, sendo cada tira ocupada por uma única correspondendo ao modelo panorâmico das telas do cinema ou dos ecrãs modernos de televisão, o formato 16 por 9. De igual forma assim se chegou ao título da história: Morte em 16 por 9.

Melhor do que uma história que se relaciona com forças sobrenaturais é quando a narrativa se orienta por uma boa dose de mistério, de acordo com as melhores histórias de detetives. Mas que mistério é este? Ficamos presos de imediato ao início da história quando acompanhamos uma sequência gráfica quase sem diálogos, digna de intrigar qualquer leitor: Duas parelhas vão para a casa de uma delas para continuar a noite após um encontro num concerto. Tratar-se-ia de uma noite de sexo e diversão comuns se, durante o envolvimento os convidados não fossem brutalmente mortos por uma entidade sobrenatural associada a um quadro que está pendurado no quarto. O sangue das vítimas parece activar ou dar vida àquilo que está representado na pintura.
Dessa forma reconhecemos esta história não apenas como suspensa no mistério, mas que se enquadra dentro de um claro horror erótico, relacionado com uma obra de arte intrigante que serve de chave a tudo o que assistimos. O fetichismo e os princípios de uma sexualidade transgressiva orientam o principio de algo que suplanta o que entenderíamos por um thriller policial, embora, tratando-se do universo de Dylan Dog, podemos sempre contar com algo que explora as nossas emoções e a fragilidade da condição humana.

O mistério inicial prende-se com o desaparecimento de um homem, Mark, namorado de Mina Stewart, que havia sido responsável pelo restauro da misteriosa pintura que vemos no primeiro evento. Mina suspeita dos proprietários da casa, Joe e Lucille Bargel, pelo que pede a Dylan para investigar o caso. O detetive do pesadelo entra em cena quando Mina expõe a obsessão do namorado desaparecido pelo quadro que não parece pertencer a este mundo. A via de investigação levará a que Dylan se cruze com a enigmática Lucille, a influente mecenas de arte que aparente conhecer todas as respostas e oculta um elevado número de segredos.
A narrativa desenvolve-se no campo da arte e do erotismo quando a atração arrebatadora de Lucille, sexualmente provocadora, conduz Dylan à descoberta de uma verdade para a qual não preparado para aceitar, além de lhe propor uma escolha difícil de natureza moral. O horror erótico ganha contornos ainda mais inquietantes traduzidos por uma experiência surreal, suspensa numa fantasia cósmica e potencialmente onírica. A dimensão ocultista e mitológica da história absorve-nos com a exposição dos intuitos de uma entidade alienígena idêntica a Lilith que revela a Dylan os conceitos de uma realidade sombria que parece beber parte da tradição lovecraftiana.

Através de uma jornada que cruza a arte com a dor e o prazer, bem como o poder oculto presente nas faculdades psíquicas das emoções humanas, Dylan sentir-se-á suspenso através de uma via paradoxal onde a morte e a monstruosidade se encontram sempre presentes. Os vislumbres de conceitos surreais e cosmicistas funcionam como um abrir de portas para um autêntico pesadelo, conduzindo Dylan Dog a um desafio em que não só irá contemplar o seu próprio abismo, mas do qual parecerá a qualquer difícil de sair, o que poderá selar o seu destino.
Dylan Dog: Morte em 16 por 9 corresponde a dois números regulares da série Dylan Dog publicados em 2023 pela Sergio Bonelli Editore: Dylan Dog #444: Morte in sedici noni e Dylan Dog #445: Xenon! contando com o argumento de Roberto Recchioni (n.1974) e os desenhos de Corrado Roi (n.1958). Roberto Recchioni não só escreveu uma história que resume muito o que procuram os fãs do terror dentro de uma conceção mítica e cósmica, como o erotismo sobressaí como fórmula de relação entre o desejo, a arte e a morte, traduzindo uma essência quase mórbida e transformadora alimentadas pelo fruto proibido da transgressão. Corrado Roi notabiliza a narrativa através de um desenho extremamente detalhado e expressivo, não só a nível de personagens e elementos dos cenários, como interpreta com rigor as atmosferas escuras de ambientes carregados, ainda mais explícitos através do ênfase que dá às grandes massas de negro através das páginas a preto e branco.
O álbum Dylan Dog: Morte em 16 por 9 publicado por A Seita recorda os 40 anos de Dylan Dog, cuja BD surgiu pela primeira vez em 1986. Conta com a coordenação de José Hartvig de Freitas e João Miguel Lameiras, também responsável pela sua tradução para português. A legendagem é de Andreia Lopes, o grafismo de Hugo Jesus e a revisão de Arnaldo Pedro.


Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural
