Central Comics

Notícias, críticas e novidades de banda desenhada, cinema, séries, animação, videojogos e cultura geek desde 2001.

Crítica | A Hipótese do Amor: Uma fórmula romântica que ainda funciona

A Hipótese do Amor leva o fenómeno de Ali Hazelwood para o Prime Video numa rom com divertida e mais esperta do que parece.

A Hipótese do Amor

A comédia romântica anda a atravessar uma espécie de segunda juventude, depois de anos a ser tratada como um género menor. A Hipótese do Amor chega precisamente no momento certo e percebe uma coisa essencial: não é preciso reinventar a roda para fazer uma boa rom com. É preciso personagens com química, diálogos que funcionem e coragem para abraçar a fórmula. Baseado no bestseller de Ali Hazelwood, o filme de Claire Scanlon adapta uma história que começou, de forma curiosa, como fanfiction de Star Wars centrada em Rey e Kylo Ren. E o detalhe mais divertido é que Tom Bateman, aqui no papel inspirado em Kylo Ren, é casado com Daisy Ridley, a actriz que interpretou Rey. 

Na história, Olive Smith, interpretada por Lili Reinhart, é uma estudante de doutoramento em Stanford determinada a desenvolver investigação para a deteção precoce do cancro do pâncreas, motivada pela perda da mãe. O problema é que precisa de financiamento para continuar o trabalho. Numa tentativa impulsiva de convencer a melhor amiga Anh de que já ultrapassou o interesse pelo mesmo rapaz, Olive beija o primeiro homem que encontra no laboratório. O homem em questão é Adam Carlsen, um professor conhecido pela atitude pouco simpática e pela forma quase intimidatória como trata os alunos. Naturalmente, a partir daqui, tudo corre exactamente como uma experiência científica altamente controlada.

O plano de namoro falso funciona porque ambos têm algo a ganhar. Olive precisa de afastar suspeitas, enquanto Adam quer que o departamento acredite que está finalmente a assentar e lhe conceda financiamento para o seu próprio laboratório. A partir daí, A Hipótese do Amor trabalha com um dos motores mais antigos da comédia romântica, o casal que começa por representar uma relação até perceber que já não está a representar coisa nenhuma.

E funciona sobretudo graças a Lili Reinhart e Tom Bateman. Reinhart encontra o equilíbrio certo entre vulnerabilidade, inteligência e humor, tornando Olive suficientemente adorável sem a transformar numa personagem insuportavelmente perfeita. Bateman começa como uma espécie de Dr. Evil académico e vai retirando, camada após camada, a armadura de Adam. O sotaque americano nem sempre convence, mas a presença compensa. Quando os dois estão juntos, a película ganha ritmo. A química é genuína, tanto nos momentos românticos como nas trocas mais cómicas, e isso é o verdadeiro combustível de uma boa rom com.

O elenco secundário também merece destaque. Rachel Marsh transforma Anh numa presença com personalidade própria, enquanto Jaboukie Young White consegue escapar ao estereótipo do melhor amigo gay e dar a Malcolm alguns dos momentos mais engraçados e emotivos do filme. É uma decisão inteligente manter estas personagens relevantes mesmo quando o romance ocupa o centro da narrativa.

Há ainda um prazer adicional para quem conhece a origem da história. Scanlon e os argumentistas Sarah Rothschild e Ali Hazelwood deixam pequenas piscadelas ao universo de Star Wars, incluindo o uso frequente de roupa preta em Adam e enquadramentos acompanhados por música ameaçadora, quase como se um Sith estivesse prestes a entrar em cena. É um toque divertido sem transformar a referência numa piada interminável. 

A adaptação é particularmente eficaz quando transforma os pensamentos internos do livro em diálogo natural, preservando momentos importantes e até a dimensão da demissexualidade de Olive, uma representação pouco comum neste género. O principal problema surge no terceiro acto, quando o conflito com Tom Benton acelera demasiado a narrativa e obriga o filme a resolver várias questões num espaço curto. Algumas tramas secundárias também ficam pelo caminho.

Ainda assim, A Hipótese do Amor percebe perfeitamente aquilo que quer ser. Não tenta ser mais sofisticado do que precisa, nem sente vergonha da fórmula. É divertida, romântica, sexy quando precisa de ser e suficientemente sincera para conquistar até quem normalmente torce o nariz ao género. Num período em que as boas comédias românticas voltaram a ter espaço, esta merece atenção.

Nota: 8/10

António Moura

Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Verified by MonsterInsights