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O segredo por trás de “Homem-Aranha: Um Novo Dia”: afinal, quem é dono dos heróis da Marvel?

A estreia de Homem-Aranha: Um Novo Dia assinala um momento particularmente simbólico na história do cinema de super-heróis. Produzido através de uma parceria entre a Sony Pictures e a Marvel Studios, o filme é o mais recente exemplo de uma colaboração que, há apenas duas décadas, seria impensável. Mais do que uma nova aventura de Peter Parker, representa o culminar de um longo percurso marcado por falências, vendas de direitos, aquisições multimilionárias e complexas negociações entre estúdios, que acabaram por moldar o Universo Cinematográfico Marvel (UCM) tal como o conhecemos hoje.

Homem Aranha: Um Novo Dia
Homem Aranha: Um Novo Dia


Para muitos espectadores, continua a ser difícil compreender porque razão personagens pertencentes ao mesmo universo editorial da Marvel foram, durante anos, exploradas por diferentes produtoras cinematográficas. A resposta remonta à década de 1990, quando a Marvel Comics enfrentava uma grave crise financeira e, para garantir a sua sobrevivência, decidiu licenciar os direitos cinematográficos de algumas das suas personagens mais populares. A empresa nunca vendeu os heróis em definitivo; cedeu apenas os direitos de adaptação para cinema, uma distinção jurídica que continua a influenciar Hollywood até aos dias de hoje.

O caso mais emblemático é o do Homem-Aranha. Em 1999, a Sony Pictures adquiriu os direitos cinematográficos de Peter Parker por um valor estimado entre sete e dez milhões de dólares, um negócio que, na altura, parecia apenas mais uma licença de exploração. Poucos imaginavam que esse acordo se transformaria num dos investimentos mais rentáveis da história do entretenimento. Três anos depois, Homem-Aranha, realizado por Sam Raimi e protagonizado por Tobey Maguire, arrecadava mais de 800 milhões de dólares nas bilheteiras mundiais, redefinindo o género dos filmes de super-heróis e abrindo caminho para uma nova era em Hollywood. Desde então, a Sony construiu três gerações cinematográficas do herói — interpretadas por Tobey Maguire, Andrew Garfield e Tom Holland — e expandiu o universo da personagem com o sucesso da saga de animação Homem-Aranha: No Universo-Aranha, transformando Peter Parker no principal ativo da divisão cinematográfica do estúdio.

“Homem-Aranha” (2002) de Sam Raimi

O Homem-Aranha, contudo, estava longe de ser um caso isolado. Durante o período de maior fragilidade financeira da Marvel, várias propriedades intelectuais foram licenciadas a diferentes estúdios. A então 20th Century Fox assegurou os direitos cinematográficos dos X-Men, do Quarteto Fantástico, de Wolverine, Deadpool, Demolidor e Elektra; a Universal Pictures ficou responsável pela distribuição dos filmes centrados no Hulk; enquanto personagens como Blade e Justiceiro passaram por produtoras como a New Line Cinema, a Artisan Entertainment e, mais tarde, a Lionsgate. Esta fragmentação tornou impossível, durante muitos anos, reunir no grande ecrã heróis que conviviam naturalmente nas bandas desenhadas, obrigando cada estúdio a desenvolver os seus próprios universos cinematográficos.

Wesley Snipes em “Blade”

O cenário começou a alterar-se com a criação da Marvel Studios e, sobretudo, após a aquisição da Marvel pela Disney, em 2009. Sob a liderança de Kevin Feige, iniciou-se um ambicioso processo de reconstrução daquele que sempre fora o grande sonho da editora: reunir novamente as suas principais personagens num universo cinematográfico comum. Enquanto Homem de Ferro, Capitão América, Thor, Doutor Estranho e os Vingadores consolidavam o UCM, a Disney foi recuperando, gradualmente, direitos anteriormente dispersos. O momento decisivo surgiu em 2019, com a aquisição da 20th Century Fox, que devolveu à Marvel propriedades tão importantes como os X-Men, Wolverine, Deadpool e o Quarteto Fantástico. Em paralelo, o fim dos acordos com a Netflix permitiu também o regresso do Demolidor, Justiceiro, Jessica Jones, Luke Cage e Iron Fist, personagens que começaram progressivamente a ser reintegradas nas produções da Marvel Studios.

Deadpool 3
“Deadpool & Wolverine”

Apesar desta reunificação, o Homem-Aranha continua a ser a grande exceção. Os direitos cinematográficos de Peter Parker permanecem na posse da Sony Pictures, ao abrigo do contrato assinado em 1999, que se estende igualmente a centenas de personagens associadas ao seu universo, entre elas Venom, Kraven, Madame Web, Black Cat, Silver Sable, Spider-Gwen ou Miles Morales. A parceria estabelecida entre a Sony Pictures e a Marvel Studios em 2015 permitiu integrar oficialmente o Homem-Aranha de Tom Holland no UCM, mas sem alterar a propriedade dos direitos: a Marvel Studios assume a direção criativa das histórias inseridas no seu universo cinematográfico, enquanto a Sony continua responsável pelo financiamento, distribuição e exploração comercial dos filmes.

“She Hulk – A Advogada”

Também o Hulk permanece numa situação particularmente singular. Embora Bruce Banner seja utilizado livremente pela Marvel Studios em produções como Os Vingadores, Thor: Ragnarok ou She-Hulk: Advogada, durante muitos anos a Universal Pictures manteve direitos preferenciais de distribuição sobre eventuais filmes a solo da personagem. Essa realidade contratual ajudou a explicar porque, ao contrário dos restantes membros dos Vingadores, Hulk nunca voltou a protagonizar um filme individual depois de O Incrível Hulk (2008). Apesar de existirem indícios de que esses direitos possam, entretanto, ter expirado, continua sem existir uma confirmação oficial sobre a situação jurídica atual.

capitão américa: Guerra Civil
“Capitão América: Guerra Civil”

É neste contexto que Homem-Aranha: Um Novo Dia assume um significado que vai muito além da narrativa do próprio filme. A longa-metragem simboliza o ponto de encontro entre personagens e universos que, durante décadas, estiveram separados por contratos de licenciamento celebrados numa época em que a Marvel lutava simplesmente pela sobrevivência. O panorama atual é profundamente diferente daquele que marcou os anos 1990 e o início do novo milénio: a maioria das grandes propriedades da editora voltou a concentrar-se sob a liderança criativa da Marvel Studios, enquanto outras continuam dependentes de acordos de cooperação entre empresas rivais.

No fundo, a história do UCM é também a história da lenta reconstrução de um universo que chegou a estar fragmentado entre vários estúdios de Hollywood. Se hoje o público pode assistir a encontros que durante anos pareciam impossíveis, isso deve-se menos à recuperação integral dos direitos e mais à capacidade da Marvel Studios e dos seus parceiros encontrarem formas de colaboração que conciliam interesses criativos e comerciais. Homem-Aranha: Um Novo Dia é, talvez, o melhor símbolo dessa nova realidade: um filme que demonstra que, mesmo quando os direitos continuam divididos, a cooperação pode aproximar o cinema da riqueza narrativa que sempre caracterizou as páginas da Marvel.

Homem Aranha; Um Novo Dia
Homem Aranha; Um Novo Dia

Para os leitors que pretendam compreender o alcance desta nova etapa do Universo Cinematográfico Marvel, Homem-Aranha: Um Novo Dia encontra-se atualmente em exibição nos cinemas portugueses. Realizado por Destin Daniel Cretton, o filme reúne Tom Holland, Zendaya e Sadie Sink no elenco e acompanha Peter Parker numa fase em que assume por completo o papel de Homem-Aranha, enquanto enfrenta a distância crescente dos amigos de longa data e uma transformação que poderá ser decisiva para travar uma ameaça invisível e sem precedentes. Leia aqui a nossa análise.

Ricardo Lopes

Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

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