O filme que nunca vimos: Capitão Haddock
Quando As Aventuras de Tintin: O Segredo do Licorne estreou em 2011, parecia o início de algo maior. Realizado por Steven Spielberg e produzido em estreita colaboração com Peter Jackson, o filme não era apenas uma adaptação de Hergé: era uma declaração de intenções. O primeiro capítulo de uma anunciada trilogia que nunca chegou a sair do papel. Mais de uma década depois, o projecto permanece a aguardar continuação — e, nesse intervalo, ganhou forma uma ideia recorrente entre fãs e analistas: e se o próximo passo não fosse Tintin, mas o Capitão Haddock?
A hipótese nunca foi oficializada, mas também nunca desapareceu. E não é difícil perceber porquê.
Steven Spielberg já explicou que a decisão crucial do filme de 2011 não foi narrativa, mas estética. O ponto de viragem deu-se quando a Weta Digital apresentou os primeiros testes de animação de Milu (Snowy). O realismo expressivo do cão digital revelou algo essencial: o universo de Hergé não pedia imagem real, pedia transcrição estilística.
“Depois de vermos os resultados dos testes da Weta com o Milu, sentimos que a animação digital e a captura de movimento estavam muito mais de acordo com o estilo das ilustrações de Hergé”, explicou Spielberg numa entrevista. “Se tivéssemos feito em imagem real, teríamos de nos afastar do desenho. A única forma de preservar esse exagero sem recorrer a próteses seria o a captura de movimento aliada à animação digital. O que criámos é um primo directo da arte de Hergé.”

Esta decisão não só salvou Tintin de uma transformação visual, como libertou personagens como o Capitão Haddock das limitações físicas do cinema tradicional.
Se Tintin é uma figura quase abstracta — jovem eterno, rosto simples, moral inabalável — Haddock é o seu oposto absoluto. Excesso, falha, fúria, vergonha, redenção. Uma personagem construída a partir de gestos, explosões verbais, quedas e contradições.
Não é coincidência que Andy Serkis tenha sido amplamente elogiado pela sua interpretação. A captura de movimento não “disfarçou” Haddock: amplificou-o. O corpo do actor tornou-se o motor da animação, permitindo um equilíbrio delicado entre realismo emocional e caricatura gráfica.
Para muitos espectadores, foi Haddock — e não Tintin — quem roubou o filme. E isso levantou uma questão inevitável: porque não contar uma história a partir do ponto de vista do capitão?

A ideia de um filme centrado no Capitão Haddock não nasce de um mero capricho. Nasce de uma evidência narrativa: Haddock é uma das personagens do universo de Tintin com maior margem para um verdadeiro arco dramático. Ao longo das histórias de Hergé, passa de capitão derrotado, alcoólico e dominado pelas próprias fraquezas a herdeiro de Marlinspike Hall e numa figura respeitada, encontrando progressivamente um novo lugar ao lado de Tintin. Num cinema cada vez mais interessado em personagens imperfeitas, Haddock oferece uma possibilidade particularmente rica: uma aventura familiar capaz de combinar humor, tragédia e uma dimensão humana pouco habitual neste género.
Steven Spielberg, realizador com uma longa tradição de protagonistas imperfeitos e heróis confrontados com as suas próprias limitações, poderia encontrar neste percurso um terreno narrativo particularmente fértil. Tintin poderia permanecer presente como contraponto moral, funcionando quase como uma consciência exterior à personagem, mas o centro emocional da história estaria em Haddock. Não seria apenas mais uma aventura, mas o retrato de um homem em processo de reconstrução.
Existe, contudo, um problema estrutural. Nas histórias de Hergé, Tintin e Haddock tornam-se progressivamente inseparáveis, e grande parte da dinâmica das aventuras nasce precisamente da relação entre ambos. Separá-los obrigaria a uma reconfiguração significativa da narrativa. Muitas das histórias funcionam porque a ação se divide entre os dois personagens, permitindo que a determinação e racionalidade de Tintin contrastem com a impulsividade, vulnerabilidade e comicidade de Haddock. Retirar esse equilíbrio poderia alterar profundamente aquilo que torna a dupla tão particular.
Uma alternativa seria recuar no tempo e explorar a juventude de Haddock, acompanhando os seus primeiros anos no mar, a relação com Chester ou o início da sua dependência do álcool. Seria uma tentação natural, mas também um caminho com riscos. O cinema contemporâneo está particularmente familiarizado com histórias de origem, e transformar Haddock numa simples explicação cronológica da personagem poderia retirar-lhe precisamente o mistério e a espontaneidade que fazem parte do seu encanto. Além disso, quando novos autores assumem personagens icónicas e criam aventuras fora do material original, existe sempre o desafio de preservar a sua identidade sem ficar prisioneiro dela.
Um filme centrado em Haddock só teria verdadeiramente razão de existir se conseguisse ultrapassar a lógica da prequela. Mais do que explicar quem foi Haddock antes de conhecer Tintin, teria de descobrir quem é Haddock quando deixa de ser apenas o companheiro de aventuras do protagonista. O desafio estaria, por isso, em transformar uma das personagens mais cómicas do universo de Hergé numa figura dramática sem lhe retirar o humor, a humanidade e a imprevisibilidade que a tornaram memorável. Em última análise, um filme de Haddock teria de ser, acima de tudo, um filme de personagem

Mas a realidade mudou entretanto. Depois de 15 anos de avanços e recuos, Tintin 2 parece finalmente estar a avançar. Peter Jackson confirmou que está a preparar a continuação de As Aventuras de Tintin: O Segredo do Licorne, realizado por Steven Spielberg em 2011, e revelou que o argumento, escrito em parceria com Fran Walsh, está concluído. Mais importante ainda, o realizador afirmou que o novo filme será a próxima longa-metragem que irá realizar, o que marcará o seu regresso à ficção cinematográfica depois de mais de uma década afastado das longas-metragens.
Durante anos, o acordo estabelecido entre Spielberg e Jackson previa precisamente essa troca de funções: Spielberg realizaria o primeiro filme e Jackson assumiria a realização da continuação, enquanto o colega passaria à produção. O plano, contudo, acabou por ficar suspenso durante 15 anos, enquanto Jackson se dedicava a outros projetos. Em maio de 2026, durante o Festival de Cannes, onde recebeu uma Palma de Ouro honorária, o cineasta já tinha confirmado que o projeto estava novamente ativo e que trabalhava no argumento com Fran Walsh.
A longa ausência de Jackson da ficção ajudou a transformar Tintin 2 num dos projetos mais aguardados e também mais demorados da sua carreira. O seu último filme de ficção foi O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos, lançado em 2014. Desde então, o realizador concentrou grande parte do seu trabalho no documentário, incluindo They Shall Not Grow Old e The Beatles: Get Back. Agora, 12 anos depois da sua última longa-metragem de ficção, Jackson prepara-se para regressar à realização com uma nova aventura de Tintin.
Ainda não foi revelado o título oficial do segundo filme, nem estão confirmados todos os detalhes da história. Durante anos, uma das possibilidades apontadas passava pela adaptação conjunta de As Sete Bolas de Cristal e O Templo do Sol, mas não foi confirmado se esse continua a ser o plano. O que já não parece estar em causa é a intenção de Jackson: depois de 15 anos de espera, Tintin 2 deverá ser finalmente o seu próximo filme como realizador.
No fim, Capitão Haddock, na visão de Steven Spielberg, permanece como o filme que nunca chegámos a ver e, talvez precisamente por isso, continua a alimentar a imaginação. É um projecto que ganhou uma espécie de estatuto fantasma, sustentado pelo carisma da personagem, pelo potencial dramático que encerra e pela sensação de que a primeira aventura cinematográfica de Tintin deixou por explorar algumas das possibilidades mais interessantes do seu universo.
Se O Segredo do Licorne demonstrou que Hergé podia ser transposto para o grande ecrã sem perder a identidade, um filme centrado em Haddock poderia ir ainda mais longe. Poderia mostrar que, dentro de uma obra profundamente associada à infância e à aventura, também existe espaço para uma personagem imperfeita, contraditória e profundamente humana. Uma história capaz de preservar o humor e o espírito de descoberta de Tintin, mas permitindo que o protagonista fosse alguém em permanente luta consigo próprio.
Talvez esse filme nunca venha a existir. Mas a própria possibilidade continua a ser fascinante porque Haddock representa tudo aquilo que uma aventura cinematográfica pode ganhar quando aceita correr riscos: excesso, fragilidade, humor, tragédia e, inevitavelmente, a possibilidade de naufrágio.
E talvez seja precisamente por isso que esta viagem continue a fazer sentido. Porque, no cinema como no mar, são muitas vezes as aventuras mais imprevisíveis que deixam a maior vontade de partir.
Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

