Crítica: “A Odisseia”, a epopeia de Nolan
Muito antes de Christopher Nolan levar a epopeia de Ulisses ao grande ecrã, A Odisseia de Homero já inspirava gerações de escritores, dramaturgos, realizadores, historiadores e cientistas. Considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, o poema épico, escrito por volta do século VIII a.C., narra o longo e atribulado regresso de Ulisses a Ítaca após a Guerra de Troia, estabelecendo um dos arquétipos narrativos mais influentes da História: a jornada do herói.

Ao longo dos séculos, a obra conheceu inúmeras revisitações, adaptações e interpretações, do teatro ao cinema, da televisão à literatura, continuando igualmente a inspirar investigações arqueológicas e documentais. Um dos exemplos é Ulysses: From Myth to Science, documentário que procura compreender até que ponto a viagem de Ulisses poderá ter sido inspirada em acontecimentos históricos e em civilizações reais que habitaram o Mediterrâneo durante a Idade do Bronze.
Entre as adaptações mais relevantes destaca-se a série A Odisseia de Homero (Odysseus, 2013), coproduzida por Portugal, França e Itália e filmada integralmente em território nacional, entre os estúdios da Penha Longa e as paisagens da Serra da Arrábida e da Península de Setúbal. Com mais de sessenta atores portugueses no elenco, entre os quais Nuno Lopes, Diogo Dória, Luís Gaspar e Luís Lucas, a produção constituiu uma das maiores coproduções internacionais alguma vez realizadas em Portugal e permanece como uma das mais ambiciosas adaptações televisivas da obra de Homero.
Agora é a vez de Christopher Nolan revisitar este clássico intemporal. Mais do que uma simples adaptação do poema de Homero, A Odisseia assume-se como uma declaração de amor ao grande cinema épico, recuperando a escala e a ambição dos grandes clássicos de Hollywood através de uma linguagem cinematográfica moderna e de uma impressionante inovação técnica.
Christopher Nolan recupera uma tradição que marcou a história da sétima arte, evocando a grandiosidade de clássicos como Os Dez Mandamentos (1956), de Cecil B. DeMille, ou Ben-Hur (1959), de William Wyler. Tal como Moisés atravessa o deserto rumo à Terra Prometida ou Judá Ben-Hur percorre um longo caminho de sofrimento, vingança e redenção, também Ulisses enfrenta uma jornada onde cada obstáculo representa um novo teste à coragem, à inteligência e à condição humana. São histórias separadas por séculos e por contextos históricos distintos, mas unidas pela mesma estrutura narrativa: a viagem do herói que regressa transformado. Nolan atualiza esse modelo sem lhe retirar a dimensão clássica, cruzando a força intemporal da literatura com uma linguagem cinematográfica profundamente moderna.
O debate que antecedeu a estreia, centrado nas escolhas de elenco e na adaptação de algumas personagens, rapidamente perde importância perante as primeiras imagens. A escala da produção, a cinematografia de Hoyte van Hoytema e a ambição visual de Christopher Nolan colocam de imediato o espectador no centro desta epopeia, fazendo esquecer quase todas as polémicas que acompanharam o desenvolvimento do projeto. É precisamente quando o filme começa que se percebe que as opções de elenco não procuravam apenas reunir nomes sonantes, mas encontrar intérpretes capazes de servir a narrativa e as diferentes dimensões das personagens de Homero.
Christopher Nolan reúne um impressionante conjunto de nomes, e consegue que A Odisseia não seja um mero desfile de estrelas. Matt Damon assume o papel de Ulisses com a combinação certa de heroísmo, vulnerabilidade e obstinação, interpretando um homem marcado por duas décadas de guerra e de decisões. Tom Holland surpreende como Telémaco, cuja evolução de jovem inseguro para herdeiro determinado constitui um dos pilares emocionais do filme, enquanto Anne Hathaway oferece uma Penélope mais complexa do que a tradicional figura da esposa paciente, revelando uma mulher obrigada a equilibrar a proteção do filho com a sobrevivência do reino. Robert Pattinson destaca-se entre os antagonistas como um Antínoo manipulador e calculista, ao passo que Samantha Morton protagoniza um dos episódios mais memoráveis na pele da feiticeira Circe. Apesar da dimensão do elenco, Nolan reserva a várias figuras de peso, como Charlize Theron (Calipso), Zendaya (Atena), Lupita Nyong’o (Helena de Troia) ou Jon Bernthal (Menelau), participações relativamente breves, mas decisivas para a progressão da narrativa.
A estrutura narrativa representa uma das maiores ousadias da carreira de Christopher Nolan desde Memento. Longe de seguir uma adaptação linear do poema de Homero, o realizador fragmenta a história e alterna constantemente entre o presente, onde Telémaco luta para preservar o trono de Ítaca, e as memórias dispersas de Ulisses, que recupera lentamente a identidade enquanto permanece na ilha de Calipso. Esta construção não linear, que recorda a manipulação temporal de Memento, A Origem, Dunkirk e, em menor escala, Oppenheimer, revela-se surpreendentemente clara e fluida, permitindo ao espectador reconstruir a viagem do herói à medida que as peças se encaixam. No fundo, Nolan regressa às ideias que sempre marcaram a sua filmografia: a memória, a passagem do tempo e a forma como ambos moldam a identidade. É também um curioso paradoxo. Se A Odisseia parece dialogar com muitos dos filmes anteriores do realizador, a verdade é que sempre foi Homero quem influenciou, direta ou indiretamente, séculos de narrativas sobre a jornada do herói. Mais do que adaptar um clássico, Nolan parece regressar à origem de muitas das histórias que o inspiraram ao longo da carreira.
Mais do que uma adaptação fiel, Nolan procura captar o espírito da obra de Homero, privilegiando o impacto emocional e visual sobre a reprodução literal do texto.
A narrativa é deliberadamente intensa e avança a um ritmo quase incessante. Os episódios sucedem-se sem grandes momentos de pausa ou contemplação, transmitindo a sensação de que cada nova prova de Ulisses é apenas mais um capítulo de uma viagem muito maior. Paradoxalmente, essa rapidez acaba por constituir uma das poucas fragilidades do filme: muitas das passagens mais fascinantes mereciam mais tempo para respirar, permitindo explorar personagens, ambientes e conflitos. É um raro caso em que quase três horas de duração parecem insuficientes.
Não deixa de impressionar a capacidade de Christopher Nolan para condensar em menos de três horas uma narrativa que, nas mãos de outro realizador, facilmente daria origem a uma minissérie ou a várias longas-metragens.
É inevitável imaginar que um cineasta como Manoel de Oliveira teria encontrado matéria para um ciclo de filmes contemplativos, dedicando um capítulo a cada etapa da viagem. Mas, Nolan segue precisamente o caminho oposto: sacrifica algum tempo de permanência em cada episódio para preservar o impulso constante da aventura e da ação, mantendo o espectador permanentemente em movimento, tal como o próprio Ulisses.
No final, A Odisseia confirma que continua a existir espaço para o grande espetáculo cinematográfico. Não é a adaptação definitiva de Homero, até porque uma obra desta natureza dificilmente admite uma versão absoluta e a necessidade de condensar uma epopeia desta escala obriga Nolan a sacrificar alguma profundidade em determinados episódios e personagens. É, porém, uma das mais ambiciosas e cinematograficamente impressionantes adaptações alguma vez realizadas, recuperando o espírito dos grandes épicos clássicos de Hollywood e reinterpretando-o através de uma linguagem visual e narrativa profundamente contemporânea. É um filme que se vê com fascínio, que se sente, mas que também convida à reflexão sobre temas tão antigos quanto atuais: o regresso a casa, o amor, a persistência perante a adversidade, o peso do destino e a força da inteligência sobre a violência. Poucos realizadores contemporâneos conseguiriam transformar um poema com quase três mil anos numa experiência cinematográfica desta dimensão. Christopher Nolan consegue-o, reafirmando-se como um dos grandes autores do cinema do século XXI.
Nota Final: 8/10
Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.





