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Cinema: Crítica – Eles Matam-te

A vingança serve-se num prato frio em Eles Matam-te, o novo filme do premiado cineasta russo Kirill Sokolov, protagonizado por Zazie Beetz.

Quando a primeira longa-metragem do cineasta russo Kirill Sokolov passou pelo MOTELX – tendo inclusive ganho o prémio MOTELX – Melhor Longa de Terror Europeia/Méliès d’Argent 2019 –, estava claro que estávamos perante um criativo capaz de arriscar e de levar ao grande ecrã uma experiência diferente, pensada para um público também já habituado a propostas arrojadas e não convencionais. Foram precisos vários anos para finalmente vermos Sokolov enveredar pelo cinema norte-americano, e essa espera culminou com a estreia de Eles Matam-te, uma obra que confirma o seu talento para equilibrar humor negro, energia visual e caos narrativo.

Seguimos a história de Asia Reaves (Zazie Beetz), uma ex-presidiária que aceita um emprego no Virgil, um dos edifícios mais exclusivos e misteriosos de Nova Iorque. Acontece que o motivo da sua presença ali é outro, menos inocente, e rapidamente nos apercebemos de que os moradores do edifício também escondem as suas próprias segundas intenções. Esta tensão permanente transforma o cenário num verdadeiro campo de batalha moral, onde a sobrevivência depende tanto da força física como da astúcia.

Sokolov alia-se ao argumentista Alex Litvak, conhecido pelo seu trabalho em Predadores e também envolvido em Masters of the Universe, que chega por cá no verão. A dupla demonstra uma certa sintonia criativa, provando que o primeiro esforço do cineasta em Hollywood foi feito com alguém confortável em explorar mundos violentos e absurdos. Eles Matam-te poderia facilmente ser confundido com uma adaptação de uma novela gráfica moderna, pela sua abordagem hiper-violenta e frequentemente inventiva, numa mistura entre estilo, substância e ritmo que mantém o espectador rendido aos acontecimentos.

Há um certo conforto na evolução da narrativa e na revelação gradual dos seus segredos, de ambos os lados do conflito. Asia, de repente, é uma mestre em armas – sejam caçadeiras ou espadas -, e praticamente cada cena centra-se nela a lutar pela sobrevivência. Do outro lado, as motivações da elite residente revelam um fundo de corrupção e desumanidade, levando ambos os lados a entrar em rota de colisão numa explosão visual e emocional que não poupa o público à brutalidade.

Entre a violência visceral e o fascínio pela estética do caos, Sokolov inspira-se em filmes de samurais clássicos e noutras obras onde a retribuição ocupa o centro da premissa. O resultado é um filme que reformula uma história conhecida, optando por estilizar o previsível com doses generosas de sangue, frases feitas, e um sentido de humor ácido. A realização aposta num ritmo frenético, com planos que alternam entre o glamour urbano e a decadência moral das personagens. A banda sonora – onde se destaca a presença das Nova Twins na playlist – reforça esta energia irreverente.

Assim, Eles Matam-te é um filme que poderá valer a pena apenas pelo seu valor de entretenimento, uma autêntica sinfonia de tiros, sangue e sobrevivência. Caçadeiras e machetes contaminam o ecrã de uma energia crua que dá corpo a uma história de vingança clássica, embrulhada num estilo fílmico esteticamente sedutor. É o mesmo filme que vive do caos que deixa para trás, morte atrás de morte, num espetáculo que transcende o gore gratuito. Afinal, quem é que não gosta de ver os inimigos a jorrarem sangue por todos os cantos, com uma protagonista determinada numa missão nobre?

Nota Final: 6/10

Ricardo Du Toit

Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.

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