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Captain EO: a superprodução esquecida que celebrou Michael Jackson

Com a aproximação da estreia de Michael, o filme biográfico dedicado a Michael Jackson e realizado por Antoine Fuqua, o mundo volta a olhar para a vida e a carreira do artista que redefiniu a cultura pop global. Mas 2026 traz uma dupla celebração. Além do aguardado retrato cinematográfico do Rei da Pop, cumprem-se 40 anos da estreia de um dos projetos mais ambiciosos e menos compreendidos da sua trajetória: Captain EO.

Michael
Michael

Lançado em setembro de 1986 nos parques da The Walt Disney Company, Captain EO não era apenas uma atração temática. Era um acontecimento. Um filme musical em 3D com efeitos especiais ao vivo, lasers, fumo e vibrações na sala, concebido para ser experienciado como espetáculo imersivo numa era em que a palavra ainda não fazia parte do vocabulário comum.
Captain EO Michael Jackson

O projeto nasceu num momento delicado para a Disney. Em 1984, o recém-nomeado CEO Michael Eisner procurava revitalizar os parques temáticos. A ideia de unir cinema, tecnologia e música parecia perfeita. E ninguém representava melhor essa convergência do que Michael Jackson, então no auge absoluto da fama após o fenómeno global de Thriller.

A ligação do cantor ao universo Disney era antiga e quase devocional. Visitava os parques com frequência, muitas vezes disfarçado. A entrada do seu rancho Neverland inspirava-se diretamente na da Disneylândia. O fascínio era mútuo. Eisner queria um projeto que atraísse adolescentes sem afastar famílias. Jackson queria explorar o cinema com a mesma ambição com que reinventara o videoclipe.

Para garantir dimensão épica, o cantor impôs uma condição: o envolvimento de um grande cineasta. O nome de Steven Spielberg chegou a ser equacionado, mas a agenda não permitiu. Entrou então George Lucas, já parceiro da Disney através de atrações inspiradas em Star Wars. Lucas trouxe consigo um velho amigo, Francis Ford Coppola, que assumiu a realização.

Captain EO Michael Jackson

O argumento evoluiu de ideias iniciais como Space Knights até ao conceito final. O título Captain EO foi inspirado em Eos, a deusa grega do amanhecer. A narrativa é simples e simbólica. EO, comandante de uma nave espacial com uma tripulação de criaturas excêntricas, enfrenta uma líder suprema num planeta industrial e sombrio. Através da música e da dança, transforma a escuridão em cor, rigidez em movimento, opressão em celebração.

A vilã foi interpretada por Anjelica Huston, coberta por uma elaborada caracterização criada por Rick Baker, o mesmo artista que revolucionara os efeitos de maquilhagem em Um Lobisomem Americano em Londres. A banda sonora original ficou a cargo de James Horner, enquanto Jackson compôs duas canções inéditas: We Are Here to Change the World e Another Part of Me.

O que deveria ser um filme de 12 minutos com orçamento de 11 milhões de dólares tornou-se uma superprodução de 17 minutos que terá custado entre 17 e 30 milhões. Na época, era apontado como o filme mais caro por minuto da história do cinema. Os efeitos especiais multiplicaram-se. A pós-produção arrastou-se. Parte das filmagens em fundo azul utilizou inclusive o mesmo equipamento de Abismo Negro. Nos bastidores, houve tensão entre criativos externos e equipas da Imagineering da Disney.

Captain EO Michael Jackson

Quando estreou no EPCOT, em 12 de setembro de 1986, a histeria mediática era inevitável. Mais de duas centenas de jornalistas marcaram presença na apresentação na Disneylândia dias depois. Celebridades desfilaram pela Main Street. Curiosamente, o próprio Michael Jackson não apareceu, alimentando rumores e mistério numa fase em que a sua imagem pública começava a tornar-se tão mediática quanto a sua música.

A crítica foi dividida. Alguns elogiaram o arrojo visual e a experiência sensorial. Outros viram no projeto um videoclipe excessivamente caro. Ainda assim, durante anos, Captain EO foi uma das principais atrações dos parques da Disney na Florida, Califórnia, Tóquio e Paris. Encerrou gradualmente entre 1994 e 1998, à medida que o entusiasmo diminuía e novas atrações surgiam.

O filme nunca teve lançamento oficial em VHS, DVD ou Blu-ray. Tornou-se uma peça quase mítica, sobrevivendo em cópias não oficiais e na memória de quem o viveu. Em 2010, após a morte de Michael Jackson, a Disney reabriu temporariamente a atração como homenagem, permitindo a uma nova geração descobrir aquele híbrido de concerto espacial e fantasia tecnológica.

Captain EO Michael Jackson

Quatro décadas depois, Captain EO permanece como um objeto singular na cultura pop. Não é apenas um rodapé na carreira de Michael Jackson. É um retrato do momento em que o maior astro da música do planeta, dois dos mais influentes realizadores de Hollywood e a maior empresa de entretenimento do mundo decidiram experimentar algo que nunca tinha sido feito daquela forma.

Enquanto Michael promete revisitar os palcos, os bastidores e as sombras da vida do artista, Captain EO recorda um tempo em que o futuro parecia caber dentro de uma sala escura com óculos 3D, lasers e a convicção ingénua de que a música podia mudar o mundo.

Michael, a 23 de abril nos cinemas.



Michael
Jaafar Jackson como Michael Jacksonem “Michael”. Photo Credit: Glen Wilson
Ricardo Lopes

Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

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