Central Comics

Banda Desenhada, Cinema, Animação, TV, Videojogos

Hobbit Tales: O Lado Mais Hobbit de The One Ring RPG

Quando escrevi anteriormente sobre The One Ring RPG e The Lord of the Rings Roleplaying, referi que um dos grandes méritos do trabalho da Free League é perceber que Tolkien nunca foi apenas sobre combates, tesouros ou heróis musculados que resolvem tudo à espadada. A viagem, a comunidade, o peso das escolhas e a constante luta contra a Sombra são tão importantes como qualquer batalha épica. Agora, com Hobbit Tales, a editora sueca leva essa filosofia até ao extremo. E quando digo extremo, refiro-me a uma aventura onde a maior urgência pode ser descobrir porque razão o senhor Bolger apareceu sem convite para o segundo pequeno-almoço.

The One Ring: Hobbit Tales

Num mercado de RPGs onde muitos jogadores procuram salvar reinos, matar dragões ou impedir apocalipses semanais, a proposta de interpretar hobbits preocupados com festivais locais, vizinhos suspeitos e desaparecimentos misteriosos de comida pode soar tão emocionante quanto assistir à relva a crescer. Mas, curiosamente, é precisamente aí que reside o seu encanto.

Este suplemento mergulha de cabeça no Condado e oferece uma descrição detalhada das suas regiões, habitantes e tradições. A atenção ao detalhe é muito bom. Há material suficiente para passar meses de campanha sem que os personagens precisem sequer de atravessar as fronteiras da sua confortável terra natal. 

A Free League percebe algo que muitos jogos licenciados ignoram: o Condado não é apenas um cenário. É uma personagem. Tolkien passou décadas a construir aquele pedaço de mundo como uma representação idealizada da vida simples, da amizade e da ligação à terra. Hobbit Tales transforma essa visão em mecânicas e aventuras.

The One Ring: Hobbit Tales

As histórias incluídas seguem uma escala muito diferente daquela a que estamos habituados. Não há exércitos de orcs às portas nem artefactos capazes de destruir civilizações. Em vez disso, encontramos problemas locais, mistérios de aldeia e pequenas crises sociais que, para um hobbit, são praticamente equivalentes ao fim do mundo. Afinal, um convite perdido para um jantar pode gerar mais drama político no Condado do que uma reunião do Conselho Branco. E são cinco as aventuras que podemos fazer.

É também aqui que o suplemento mostra a sua maior virtude. As histórias privilegiam interações sociais, investigação ligeira e desenvolvimento de personagens. O foco está menos na conquista e mais na experiência. 

The One Ring: Hobbit Tales

Naturalmente, esta abordagem não será para todos. Sei que há jogadores habituados a campanhas mais tradicionais e por isso podem considerar este estilo demasiado tranquilo ou até limitado. E compreendo essa perspetiva. Quem procura uma versão tolkieniana de Dungeons & Dragons poderá sentir falta de combates frequentes e desafios grandiosos. Mas na verdade, Hobbit Tales funciona melhor quando aceitamos as suas regras implícitas. Não estamos aqui para mudar o destino da Terra Média. Estamos aqui para viver nela. Existe uma diferença enorme entre ambas as experiências. Enquanto muitas campanhas de fantasia nos colocam no centro do universo, o Condado recorda-nos que as pequenas histórias também importam. E talvez até importem mais.

Visualmente, o suplemento mantém os elevados padrões da Free League. A arte continua magnífica e consegue transmitir aquela sensação acolhedora que associamos imediatamente ao Condado. E não é muito grande, tem apenas 104 páginas, mas acho que são perfeitamente suficientes para o que se quer.

The One Ring: Hobbit Tales

O aspeto mais interessante é que Hobbit Tales acaba por reforçar algo que já tinha destacado nos meus textos anteriores sobre The One Ring. O sistema continua a ser um dos melhores exemplos de adaptação temática alguma vez feitos para um RPG. As regras não existem apenas para simular ações; existem para reproduzir os temas centrais da obra de Tolkien. Quando a maioria dos jogos pergunta “como derrotamos este inimigo?”, The One Ring pergunta frequentemente “porque estamos a fazer esta viagem?”. Este suplemento leva essa filosofia ainda mais longe.

No final, Hobbit Tales é uma expansão muito específica. Não pretende agradar a todos os jogadores nem substituir as aventuras épicas que associamos à Terra Média, mas permiti-nos viver durante algum tempo no lugar mais acolhedor criado por Tolkien.

The One Ring: Hobbit Tales

Dário Mendes

Dário é um fã de cultura pop em geral mas de banda desenhada e cinema em particular. Orgulha-se de não se ter rendido (ainda) às redes sociais.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Verified by MonsterInsights