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Entrevista a Christophe Bec – argumentista francês de BD

O Central Comics teve o privilégio de entrevistar Christophe Bec, um dos mais reconhecidos argumentistas franceses de banda desenhada, responsável por um percurso sólido e diversificado no panorama franco-belga. Autor de obras marcantes como Pandemonium, Sanctuaire, Prométhée, Inexistence, Les Tourbières noires e, mais recentemente, da sua passagem pelo universo Thorgal, Bec construiu uma carreira pautada por narrativas intensas, atmosferas sombrias e uma forte componente psicológica.

Nesta conversa, o argumentista fala sobre as suas influências, o legado de Thorgal, os autores que o marcaram, as suas leituras atuais e os projetos que tem em desenvolvimento.

Christophe Bec
Christophe Bec

Carlos Maciel – Como foi trabalhar com Mangin para o álbum Thorgal Saga La Déesse d’ambre? E o que representa para si a série Thorgal e os seus criadores originais, Van Hamme e Rosinski?

BEC – Assim, na verdade, descobri os desenhos de Rosinski pela primeira vez na revista Tintin. Acontece que o meu irmão Guillaume, que é desenhador de banda desenhada, e eu assinávamos várias revistas, incluindo a Pif, a Spirou, a Gomme, a Circus um pouco mais tarde, e a revista Tintin. Portanto, as primeiras páginas de Thorgal que vi não foram as primeiras páginas que Rosinski desenhou.

Não foi o primeiro álbum, mas sim o quinto, Além das Sombras. E sim, lembro-me da genialidade de descobrir a arte de Rosinski. Havia alguns artistas de banda desenhada realistas muito bons na altura, no estilo Tintin, penso sobretudo em França, mas era bastante difícil, para o adolescente que eu era, compreender plenamente.

Consegui acompanhar muito mais tarde. Depois vi Lester Cockney, Jugurtha, adorei, mas o meu olhar precisava de ser muito mais treinado para os compreender. Focava-me no que era imediatamente acessível, e essa é a sua grande força: era um estilo de desenho não codificado, em última análise bastante complexo, mas fácil de assimilar. E depois, claro, os argumentos de Jean Van Hamme não são exceção; Além das Sombras é um álbum magnífico, uma verdadeira obra-prima.

Thorgal Saga 6. La Déesse d'ambre
Capa original de Thorgal Saga 6. La Déesse d’ambre (inédito em Portugal)

E houve outros depois disso, como Alinoe, que é talvez o meu álbum preferido, juntamente com Os Arqueiros, ou melhor, o ciclo de Qa, que é extraordinário. Portanto, obviamente, estes são dois grandes mestres da banda desenhada. Ora, sabemos quem são estes autores, mas talvez não sejam aqueles que mais me influenciaram diretamente. Digamos que há outros autores e artistas que tiveram um impacto ainda maior em mim.

Desenhava de vez em quando, depois passava para outro, mas Rosinski manteve-se sempre uma influência, desde a minha adolescência até hoje. Criaram uma obra extraordinária; são, sem dúvida, dois grandes mestres da banda desenhada.

CM – Do seu vasto repertório, qual é o álbum ou série de que mais gostou de fazer e que gostaria de ver publicado em Portugal?

BEC – Uma das minhas séries favoritas, e uma que surge frequentemente entre os leitores como a que mais os impressionou, é uma das minhas primeiras: Pandemonium, que escrevi para Stefano Raffaele, com quem colaborei posteriormente em muitos álbuns. Esta foi a nossa primeira série. É verdade que causou um grande impacto nos leitores e admito que é uma das minhas preferidas.

Capa original de, Pandemonium Vol. 3 Mort blanche (série fechada em 3 tomos)
Capa original de, Pandemonium Vol. 3 Mort blanche (série fechada em 3 tomos)

Depois, há álbuns a que estou particularmente ligado, como Les Tourbières noires, um álbum de que fui o único autor, claro, Inexistence, e também Thorgal, no qual trabalhei ininterruptamente durante dois anos.

CM – Que séries ou álbuns de banda desenhada está a ler atualmente e que recomenda aos seus fãs?

BEC – Atualmente, leio menos banda desenhada do que antes. Não sei bem porquê: se é por falta de tempo, falta de interesse, ou ambos. Talvez também porque se publica tanto hoje em dia que se torna complicado escolher. Admito ainda que, embora muitas obras sejam de grande qualidade, sinto-me menos atraído por romances gráficos.

Existem alguns excelentes, naturalmente, mas confesso que este grande volume de romances gráficos tende a cansar-me um pouco. É um formato bastante restritivo, não tanto artisticamente — embora isso também seja verdade — mas sobretudo porque são álbuns que os autores têm muitas vezes de produzir rapidamente, uma vez que não são muito bem pagos. São obras longas e, por isso, muitas vezes, consciente ou inconscientemente, os autores acabam por adaptar o seu estilo.

Conan le Cimmérien 13. Xuthal la Crépusculaire
Capa de “Conan le Cimmérien 13. Xuthal la Crépusculaire”, escrito por Bec e ilustrado por Stevan Subić

Não é exatamente o tipo de banda desenhada de que gosto, aquela em que a arte está exclusivamente ao serviço da história. Acho que os grandes comics são algo completamente diferente. É mais complexo do que isso; não é apenas narrativa. Por isso, não me identifico muito com essa abordagem. Há alguns autores de quem gosto, mas atualmente não acompanho nenhuma série em particular.

Há, no entanto, alguns autores que aprecio especialmente, como Corentin Rouge, Robin Recht e Mathieu Laufrey, que acompanho de perto. Também gosto muito da nova geração de autores de ficção científica, como Singelin; o álbum Frontière é magnífico.

CM – Já veio a Portugal? Conhece autores portugueses ou obras de banda desenhada portuguesa?

BEC – Sei muito pouco sobre Portugal. Passei um fim de semana prolongado no Porto, que adorei, especialmente o vinho do Porto com 40 anos. Quanto a autores, conheço muito poucos, à exceção de Jorge Coelho, que é um ilustrador fantástico. Sinceramente, não conheço muitos mais.

CM – Que novos projetos ou continuações podemos esperar e, por último, que obra clássica da banda desenhada franco-belga gostaria de recriar?

BEC – Quanto aos projetos para os próximos meses ou anos, haverá a sequela de Bob Morane, personagem criada por William Vance, que assumi com Carlos Puerta. Também estou a trabalhar para a Oxymore Publishing, que em breve lançará um western spaghetti.

Estou igualmente a desenvolver uma história sobre os últimos vikings da Gronelândia, intitulada Greenlander. O western chamar-se-á Sinisterra. Escrevi ainda uma história de piratas para Benoît Delac, uma adaptação de um antigo romance chamado Captain Blood, que também foi adaptado ao cinema na década de 1950, com Errol Flynn no papel principal. Fiz a adaptação tomando muitas liberdades criativas.

Por fim, há o lançamento de Thorgal e, na vertente artística, integrei-me num grande projeto com Serge Lehman chamado Le Flambeau.

Greenlander 1. L'aimé-des-ours
Capa original de Greenlander 1. L’aimé-des-ours com arte de Przemyslaw Klosin
Carlos Maciel

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.

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