Oscars: as curiosidades da 98ª edição
Conhecidas as nomeações para a 98.ª edição dos Prémios da Academia, os Óscares transformaram-se oficialmente num festival de excessos, marcos históricos e curiosidades capazes de fazer um académico pedir um calmante. E, este ano, há sangue — literalmente.

O grande vencedor antecipado é Pecadores, o épico vampiresco de Ryan Coogler, embebido em blues e sangue sulista, que arrecadou 16 nomeações, tornando-se oficialmente o filme mais nomeado da história dos Óscares. Adeus, Eva, Titanic e La La Land: Melodia de Amor — todos empatados nos “modestos” 14.
Para se ter uma noção do exagero: mesmo sem a nova categoria de Melhor Casting, Pecadores teria batido o recorde. Moral da história: às vezes, morder resolve.
Logo atrás surge Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson, com 13 nomeações — um drama político-revolucionário que prova que debates ideológicos também rendem estatuetas (ou, pelo menos, muitas nomeações).

Com Marty Supreme, Timothée Chalamet soma a sua terceira nomeação para Melhor Ator, tornando-se o mais jovem desde Marlon Brando a alcançar tal feito. Em apenas nove anos de carreira, o ator já participou em oito filmes nomeados para Melhor Filme. É praticamente uma assinatura anual na categoria.
Como se não bastasse, Chalamet está também nomeado como produtor, tornando-se o mais jovem de sempre a ser nomeado no mesmo ano como ator e produtor. Hollywood chama-lhe talento; os colegas chamam-lhe “injusto”.

Emma Stone continua a acumular feitos improváveis. Com Bugonia, torna-se:
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a mulher mais jovem a somar sete nomeações;
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a primeira atriz a ter cinco nomeações, todas por filmes nomeados para Melhor Filme;
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e a única mulher a conseguir nomeações simultâneas como atriz e produtora em mais de um ano.
Basicamente, Emma Stone já tem uma prateleira só para recordes — e começa a faltar espaço.

A figurinista Ruth E. Carter, nomeada por Pecadores, torna-se a mulher negra mais nomeada da história dos Óscares, em qualquer categoria. Com cinco nomeações e duas vitórias, o guarda-roupa de Hollywood deve-lhe mais do que muitos argumentistas.
E atenção ao padrão curioso: Hamnet, A Paixão de Shakespeare e Anónimo têm algo em comum — todos os filmes com William Shakespeare como personagem acabam, invariavelmente, nomeados para Melhor Guarda-Roupa. O Bardo pode não escrever moda, mas inspira tecidos caros.

A 98.ª edição dos Óscares fica marcada por um impressionante conjunto de estreias históricas, confirmando a crescente diversidade, internacionalização e renovação da Academia.
Entre os marcos mais significativos, Autumn Durald Arkapaw torna-se a primeira mulher negra nomeada para Melhor Fotografia, pelo seu trabalho em Pecadores. Já Wagner Moura faz história como o primeiro ator brasileiro nomeado para Melhor Ator, graças à sua interpretação em O Agente Secreto.
No campo musical, a canção “Golden”, do filme Guerreiras do K-Pop, entra para a história como a primeira música K-pop nomeada ao Óscar, sinal claro de que a Academia começa a ouvir outros ritmos.
Entre os percursos finalmente reconhecidos, Michael B. Jordan entra pela primeira vez no panteão da Academia com Pecadores, após uma colaboração marcante com Ryan Coogler em filmes como Fruitvale Station, Creed e Black Panther. O mesmo filme vale também a primeira nomeação a Delroy Lindo, após uma carreira de seis décadas, bem como a Wunmi Mosaku, contribuindo para o domínio de Pecadores, que bateu o recorde histórico com 16 nomeações.
Outro momento simbólico é a estreia tardia de Stellan Skarsgård, que aos 74 anos recebe a primeira nomeação da sua carreira, pelo filme Valor Sentimental, apesar de um percurso vasto e amplamente reconhecido.

A renovação é particularmente visível nas categorias de interpretação, onde 11 atores são nomeados pela primeira vez:
Rose Byrne, Jacob Elordi, Elle Fanning, Michael B. Jordan, Inga Ibsdotter Lilleaas, Delroy Lindo, Wunmi Mosaku, Wagner Moura, Renate Reinsve, Stellan Skarsgård e Teyana Taylor.
No total, 134 pessoas tornam-se nomeadas pela primeira vez nesta edição, num universo de 226 nomeados individuais. (Para comparação, em 2021 houve 157 estreantes, mais de metade dos nomeados desse ano.)
Por fim, a Academia introduz pela primeira vez a categoria de Melhor Casting, reconhecendo oficialmente uma profissão há muito essencial e até agora negligenciada no processo criativo cinematográfico.

A presença de filmes com forte representação internacional e legendada, como Valor Sentimental, O Agente Secreto,Sirāt ou Kokuho, reflete uma Academia cada vez mais global nos seus critérios de nomeação, algo reforçado também no número de nomeações em diferentes categorias.
O cinema iraniano soma dois anos consecutivos nos Óscares, curiosamente a representar outros países:
em 2025, a Alemanha com A Semente do Figo Sagrado; em 2026, a França com Um Simples Acidente.
Os realizadores Mohammad Rasoulof e Jafar Panahi já foram presos no Irão devido ao seu cinema de cariz social.
Este ano assinala ainda um recorde de representação nórdica, com talentos da Noruega, Dinamarca e Suécia espalhados por várias categorias — prova clara da crescente internacionalização dos Óscares.

Diane Warren volta a ser nomeada ao Óscar de Melhor Canção Original, desta vez com “Dear Me”, do documentário Diane Warren: Relentless. É a sua 17.ª nomeação — e nenhuma vitória competitiva.
Em 2022, a Academia atribuiu-lhe um Óscar honorário, reconhecendo uma carreira absolutamente incontornável. Um gesto elegante, mas que não apaga o facto de Warren ser hoje o exemplo máximo do fenómeno dos grandes talentos eternamente nomeados e nunca premiados — ao lado de nomes como Thomas Newman.

Amy Madigan regressa aos Óscares 40 anos depois da sua primeira nomeação por Duas Vezes numa Vida, batendo o recorde feminino de maior intervalo entre nomeações. Bruxas envelhecem bem em Hollywood.
Já Meryl Streep atravessa uma seca histórica: oito anos sem uma nomeação, algo impensável até há pouco tempo. A boa notícia? O Diabo Veste Prada 2 vem aí. A Academia agradece.
Steven Spielberg soma a sua 14.ª nomeação para Melhor Filme como produtor de Hamnet, reforçando um recorde que… ele próprio já detinha. Só venceu uma vez, mas parece gostar mais de ser convidado do que de ganhar.

Uma das coincidências mais saborosas da temporada envolve Natalie Portman, nomeada ao Óscar como produtora de Melhor Filme de Animação por Arco, e simultaneamente nomeada aos Razzies como Pior Atriz por A Fonte da Juventude. Hollywood no seu estado mais puro: glória e humilhação no mesmo currículo.
Os Óscares 2026 provam que Hollywood continua obcecada por recordes, estatísticas e momentos “nunca antes vistos”. Vampiros reinam, Shakespeare veste-se bem, o K-pop entra pela porta grande e Timothée Chalamet parece estar em todo o lado — o que, convenhamos, já começa a ser suspeito.
A cerimónia acontece a 15 de março, no Dolby Theatre. Até lá, haverá debates acesos, teorias conspirativas e, claro, apostas perdidas. Porque os Óscares são isso mesmo: cinema, vaidade… e muita diversão involuntária.
Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.


