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Análise manga: Adabana, de NON

Adabana é uma obra curta, com apenas três volumes, mas que não hesita em cavar fundo nas fraturas da condição humana. Escrita e desenhada por NON, a mangá foi publicada entre 2020 e 2021 na Grand Jump, da Shueisha, e apresenta-se como um thriller psicológico de grande impacto, que combina mistério, culpa, trauma e crítica social num cenário que, à primeira vista, poderia parecer apenas mais um crime rural japonês — mas que rapidamente se revela bem mais inquietante.

Abadana

A narrativa parte de um impacto brutal: o corpo desmembrado de uma estudante chamada Mako Igarashi é encontrado na neve de uma pequena cidade japonesa. A sua melhor amiga de escola, Mizuki Aikawa, entrega-se à polícia, confessando o crime. Até aqui, uma trama clássica de crime e investigação. Porém, Adabana não quer apenas descobrir quem fez — quer cavar por que foi feito.

Essa diferença de abordagem é fundamental, pois, em vez de seguir uma investigação policial tradicional, a série envia o leitor para uma espiral de pontos de vista diferentes e antagónicos, depoimentos que não se alinham e motivações que nunca ficam totalmente claras. É uma história que trata menos de certezas e mais de dúvida — e de como a verdade pode ser fragmentada.

O mangá constrói personagens que resistem a explicações fáceis. Mizuki e Mako não são estereótipos; são adolescentes moldadas por pressões familiares severas, expectativas sufocantes e desigualdades sociais invisíveis à primeira vista. A forma como NON conta as suas histórias de vida faz lembrar um suspense psicológico de alto calibre, onde o horror não está apenas no ato em si, mas no que o antecede — e nos vazios morais de quem observa.

Adabana

As motivações, muitas vezes, parecem contraditórias, e é aí que Adabana funciona como crítica. No mundo real, culpabilidade e inocência nunca vêm com etiquetas. É nesse espaço cinzento entre uma confissão e a sua verdade que a série realmente brilha.

Uma das decisões narrativas mais corajosas de Adabana é não reduzir tudo a um simples “quem fez?”. Em vez disso, a obra transforma-se numa reflexão sobre perceção, responsabilidade e ruína emocional. A cada página, somos lembrados de que as nossas suposições sobre as pessoas — especialmente jovens — podem ser terrivelmente falhadas.

Esse foco na reconstrução dos eventos a partir de múltiplas perspetivas é um artifício inteligente, pois mantém o leitor num estado constante de tensão, ecoando o desconforto dos próprios personagens.

Visualmente, NON opta por um estilo que equilibra traços realistas com composições limpas e expressivas. A neve, presente em muitos quadros, funciona quase como uma personagem, simbolizando um pano de fundo frio para emoções humanas intensas e perturbadoras. O uso de sombras e contrastes reforça o clima de claustrofobia psicológica, enquanto a atenção a detalhes quotidianos — escola, casas, ruas — cria uma sensação de proximidade inquietante com a vida real.

Adabana

Adabana não se contenta em ser apenas um mistério. Coloca-nos questões incómodas:

  • Como é que o trauma molda as escolhas humanas?

  • O peso das expectativas familiares e sociais torna os jovens mais vulneráveis?

  • O que acontece quando a verdade se fragmenta em múltiplas versões?

Ler Adabana é, assim, entrar num diálogo desconfortável com estas perguntas — e, muitas vezes, sair sem respostas claras. E talvez seja essa a sua maior força, pois não oferece conforto, mas persiste na memória.

Para quem procura um mangá que vá além do simples mistério e se aventure por territórios mais sombrios da alma humana, Adabana é leitura obrigatória. É sombrio, perturbador e, por vezes, desconcertante, mas também visceralmente humano. Uma obra que, como uma flor que não dá frutosadabana significa literalmente isso — floresce precisamente na sua incapacidade de ser um título fácil de digerir.

Como este mangá é curto, com apenas três tomos, penso que seria uma boa aposta para editoras como A SEITA ou SENDAI. Atualmente, pode ser encontrado pela editora espanhola Distrito Manga. Não sei se a Distrito Manga portuguesa terá também os direitos — se não, é uma pena.

Se preferires o inglês, opta pela edição da Dark Horse.

Abadana

 

Carlos Maciel

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.

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