Klaus (2019) – A aposta da Netflix na animação de Natal
Em 2019, num momento em que a Netflix testava ainda o território da animação original, Sergio Pablos, veterano de estúdios como a Disney e a Illumination, estreia-se na realização de longas-metragens com um projeto que se podia ter ficado pelo artifício técnico, mas acabou por se afirmar como um dos favoritos da quadra festiva.

Klaus arrisca onde muitos já desistiram e, em vez de efeitos visuais indistintos, aposta numa animação digital que simula o 2D clássico, com volumes e sombras cuidadosamente trabalhados, reminiscentes da era dourada dos desenhos animados, sem copiar nenhum modelo específico. As cores são contidas durante grande parte do filme, quase frias, e vão aquecendo à medida que a narrativa se abre à ideia de comunidade. Desde o modo como a vila se organiza em clãs até à forma como as rotinas se fragmentam quando os mais novos começam a receber presentes, há símbolos discretos e subtexto no verdadeiro sentido da palavra.
A estrutura pode seguir alguns caminhos conhecidos, com as peripécias que já associamos ao cinema de animação mais convencional, mas o primeiro e o último ato distinguem Klaus da média. A história trata as rivalidades transgeracionais com uma seriedade rara num produto deste circuito, expõe como as quezílias herdadas moldam o bem-estar das crianças e transmite a importância da coragem e da boa vontade na quebra desses ciclos. A inclusão da comunidade Saami, com a sua língua e cultura em cena, afasta-se da exotização, integrando-as com respeito no fluxo da história.

Jason Schwartzman confere ao protagonista o equilíbrio certo entre o irritante e o irresistível. A sua interpretação em muito satisfaz os tempos da comédia e Jesper, inicialmente mesquinho e preguiçoso, apresenta uma evolução de caráter que não descura da ambiguidade moral e o afasta do mero arco redentor. J. K. Simmons, por seu turno, assume Klaus como figura arquetípica e faz exatamente o que se espera de um ator com a sua presença vocal: contém a emoção, insinua a dor e oferece a densidade necessária para que o mito que se está a construir por detrás da personagem surja merecido. Rashida Jones e Joan Cusack complementam justamente o elenco principal, reforçando o tom humano e genuíno.
O humor é vivo, às vezes quase físico, mas não sabota o impacto das cenas que lidam com solidão, luto ou responsabilidade. Ao contrário de muitas obras de animação recentes – incluindo já as que vão sendo lançadas sob o selo da Netflix -, esta não denota as linhas de montagem de uma máquina industrial. O que funciona tem espaço para existir e o que podia soar derivativo, como alguns tropeços do enredo, acaba absorvido como parte do charme, não como falha estrutural.

O filme não é um manifesto audiovisual perfeito, destinado a varrer prémios (embora tenha conquistado o BAFTA de melhor filme de animação, uma série de Annie Awards e uma nomeação ao Oscar, num ano em que competia com gigantes, como Toy Story 4). No entanto, convoca, sem vergonha e sem cinismo, o espírito especificamente associado ao Natal e ao ato de dar. Entre tantas ofertas sazonais descartáveis, Klaus já ganhou lugar de clássico e não por falta de alternativas, mas por mérito próprio.
Classificação: 7/10

Fascinado por cinema desde cedo, começou pelas cassetes VHS de casa da avó e acabou a colecionar figuras de clássicos dos anos 80. Hoje, vê cada filme com a mesma curiosidade de então.

