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Análise BD: Eu, Fadi – O irmão raptado – Tomo 1

Numa altura em que o tema da emigração é explosivo e fraturante, principalmente quando os emigrantes proveem da Ásia ou de África, lançar uma nova série sobre um emigrante será arriscado? Talvez não, quando a série original ganhou diversos prémios ao longo dos anos. Leiam aqui a análise ao livro Eu, Fadi – O Irmão Raptado – Tomo 1 (1986 – 1994).

Quando no Ocidente e em particular na Europa Ocidental o assunto da emigração está na ordem do dia, Riad Sattouf retoma a sua saga familiar, onde espelha o choque cultural e religioso entre duas culturas bem diversas. Só que entre o primeiro Árabe do Futuro e este Eu, Fadi, passaram 10 atribulados e muito marcantes anos. Desde 2014, a Humanidade passou por muitas peripécias, como por exemplo, dois confinamentos, o Brexit, o incremento do Estado Islâmico, a polarização política do Ocidente, o agravamento das alterações climáticas, o fim do regime de Al-Assad na Síria e a evolução da Inteligência Artificial. O Mundo já não é o mesmo daquele do início da saga…

Mas apesar disso, Riad Sattouf continua a explorar o filão começado com O Árabe do Futuro, pegando agora na história do seu irmão Fadi, raptado pelo próprio pai e levado para a Síria. O autor aproveita a boleia daquele que por muitos foi considerado o melhor volume da série inicial (o 4º), para continuar esta autêntica novela que é a história da sua família. Continuamos pois com os mesmos intervenientes, agora já não numa autobiografia, mas na visão que o irmão de Sattouf, Fadi, lhe contou quando regressou a França, já adulto.

Claro que a história se desenvolve a uma velocidade muito superior, pelo menos neste primeiro volume, e naturalmente o argumento é angustiante – ou não se tratasse dum rapto. Fadi, é uma criança que se encontra num país estranho, rodeado de estranhos que falam uma língua estranha e longe da sua querida mãe. Como não sentir um aperto no coração com este enquadramento narrativo? Porém é inevitável a sensação que estamos a reler uma história, somente que numa visão diferente daquela que já lemos anteriormente. E por isso se perde parte da emoção, pois já sabemos como acaba.

Há várias variações da história original. O pai é retratado falando com sotaque, o que não acontecia na anterior série, bem como a situação de Fadi desconhecer totalmente o árabe e portanto não perceber nada do que os familiares, colegas e amigos lhe dizem, à semelhança do que acontece com o leitor. Aqui não estamos a falar dum choque de duas culturas, mas sim do crescimento duma criança que foi raptada e que perdeu tudo o que tinha.

Na série original, Fadi aparece pela primeira vez no final do terceiro volume e é raptado no final do quarto. A partir daí torna-se omnipresente na narrativa, através da dor de perda por parte da mãe, para apenas surgir no final do sexto volume. Mas nem mesmo nesta nova série surge qualquer tipo de juízo de valores entre as duas sociedades ou até mesmo sobre os sentimentos de Riad sobre o irmão. Apenas a narração duma história real, que Riad Sattouf escreve e desenha, a partir do que o seu irmão lhe conta. Curiosamente, na própria capa todos parecem contentes, não sabendo o que estava a acontecer. Apenas o pai sabe o que está a fazer, provando mais uma vez, ser o principal motor de toda esta saga. Esta nova série consta de apenas três livros, ou seja, metade dos da série original. A pergunta que se coloca é: será que Riad Sattouf também vai criar uma coleção de livros sobre a sua mãe? Ou sobre o outro irmão? Ou vai criar uma série para a televisão?

Tal como na saga original, a dinâmica de leitura é boa, criando um nível de interesse que provoca uma leitura contínua. As cores interiores são diferentes da série anterior.

Livro em capa mole com boa encadernação, com páginas em papel baço de boa qualidade e com boa impressão. Preço justo para o tipo de livro.

Tempo de leitura:

  • Eu, Fadi – O irmão raptado – Tomo 1 (1986 – 1994) – aproximadamente 1 hora e 10 minutos

Fico na dúvida se estamos a ver a exploração de um filão, ou se é apenas o autor a exorcizar todos os seus sentimentos sobre o irmão ausente, aprisionado ao longo de tantos anos num país distante. Um livro que desperta a curiosidade da leitura, para depois descobrirmos pouco mais do que já sabíamos. Apesar de diferente da série original, a qualidade mantêm-se, mas fica a interrogação sobre o está para vir. Aguardemos…

EU, FADI – O IRMÃO RAPTADO – TOMO 1 (1986 – 1994)

Riad Sattouf
Editora: Edições ASA

Livro em capa mole com 144 páginas a cores nas dimensões de 24 x 17 cm
PVP: 22,90 €

Se não está a ler ou não tem um livro na mão… By Jove, algo se passa!!!

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