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Os Filhos de Baba Yaga – Análise BD

A narrativa leva-nos à Frente Oriental da Segunda Guerra Mundial, onde onze crianças órfãs — entre o rugido dos tanques e a tirania do General Inverno — formam um bando de sobrevivência extrema.

Esta premissa brutal lembra a fábula distópica de O Senhor das Moscas, mas contextualmente enriquece-se pela guerra, pela fome e pela morbidez que brotam do cerne humano.

Graficamente, Louro encontra-se num ponto alto da carreira. A harmonia entre traço, layout e cor é frequentemente elogiada — o colorido funciona quase como personagem, intensificando o frio, a fome e o medo.

Os layouts não são apenas belos, são fluidos e contam tanto quanto os diálogos.

Os Filhos de Baba Yaga

A edição física acompanha o ambicioso projeto: capa dura, lombada em tecido, gravado a ouro, 132 páginas a cores, caderno de extras e entrevista com o autor. Há ainda uma edição limitada Wook com capa variante e ex-libris numerado — reluzente e bonito para fãs incondicionais.

Louro não se limita ao passado: o que está em jogo é atemporal. Pode dizer-se que o bando de crianças é metáfora para qualquer grupo em situação extrema — lembra cenas de conflito contemporâneas (Ucrânia, Palestina).

Louro subiu um degrauOs Filhos de Baba Yaga reafirma-o como um autor capaz de histórias densas e visualmente poderosas. É um álbum que, ao elevar o discurso da BD portuguesa, se posiciona como uma obra exportável, universal e, sobretudo, indispensável.

O autor desvenda aqui toda a sua versatilidade ao trazer algo fora da caixa dos seus trabalhos habituais mais humorísticos.

Como já referi, a história decorre na Frente de Leste da Segunda Guerra Mundial, algures entre o caos, o silêncio branco da neve e os horrores sem nome deixados para trás pelos exércitos em retirada. Mas Os Filhos de Baba Yaga não é sobre soldados, nem sobre batalhas famosas — é sobre o vácuo moral que se forma quando tudo desaba.

As onze crianças órfãs encontram-se sozinhas num bosque coberto de neve. Sem adultos, sem país, sem salvação. Cada uma delas já viu o que nenhuma criança deveria ver — e isso molda profundamente a forma como interagem. O grupo forma uma “tribo”, com regras próprias, justiça própria e punições sem misericórdia. Não há inocentes ali — apenas sobreviventes.

Ao longo da narrativa, Louro vai-nos mostrando como estas crianças vão perdendo (ou recriando) a humanidade. O foco não é apenas o horror externo — mas a forma como a mente das crianças se molda à brutalidade. É aqui que entra a sombra de Baba Yaga, não enquanto figura literal de conto eslavo, mas como arquétipo do medo, da selvajaria, da sobrevivência que engole a infância.

Os Filhos de Baba Yaga

Embora o grupo seja numeroso, Louro foca-se em algumas figuras centrais, com traços muito marcantes. Sem dar spoilers diretos, aqui ficam algumas linhas gerais:

  • O líder do grupo: uma criança que carrega consigo o fardo da autoridade — não é o mais velho, mas o mais implacável. Vemos nele a corrupção precoce do poder: um pequeno ditador moldado pela necessidade.

  • O silencioso: uma figura que fala pouco, mas observa tudo. Serve como quase-espelho do leitor — aquele que não compreende como as coisas chegaram a este ponto, mas que, mesmo assim, segue.

  • O frágil que tenta manter a moralidade: alguém que procura preservar algum código de conduta, alguma centelha de humanidade. Mas no mundo de Os Filhos de Baba Yaga, essa fraqueza pode ser fatal.

  • O fanático/ideológico: uma criança que reproduz discursos de guerra ou nacionalismo, como se fossem dogmas sagrados. A sua identidade está colada à ideologia — como forma de se agarrar a algo num mundo onde tudo ruiu.

Os Filhos de Baba Yaga

Estas crianças não têm nomes icónicos ou heróicos — têm traços, traumas e gestos curtos, muitas vezes mais reveladores do que os próprios diálogos. São personagens minimalistas mas profundamente expressivas — como se Louro quisesse que o leitor completasse os vazios com a sua própria inquietação.

A bruxa eslava Baba Yaga, que muitos de nós reconhecemos do lore de Hellboy ou do universo cinematográfico do filme John Wick, paira sobre o título como uma metáfora. Não surge diretamente como personagem (pelo menos de forma literal), mas serve como símbolo do medo atávico, da infância violada, da selva que cresce onde não há civilização.

Ela é evocada como a lenda que as crianças usam para dar forma ao terror sem nome que sentem. Em vez de fantasmas, monstros ou inimigos claros, enfrentam o horror de estarem sozinhos — e tornam-se, eles próprios, os verdadeiros filhos dessa entidade escura, selvagem e implacável.

Louro não escreve heróis nem vilões — escreve crianças tornadas monstros por necessidade. A história é dura, mas não sensacionalista. A construção das personagens faz-se por silêncios, por olhares e por escolhas cruéis.

Estas crianças não são apenas vítimas da guerra — são produtos dela. São o espelho deformado daquilo que acontece quando o mundo adulto deixa de proteger o que há de mais frágil. E nós, leitores, somos cúmplices silenciosos ao virar cada página.

A meu gosto pessoal, Os Filhos de Baba Yaga e o anterior livro, Dante, são os melhores trabalhos do autor até ao momento. Queremos mais…

Os Filhos de Baba Yaga

Carlos Maciel

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.

One thought on “Os Filhos de Baba Yaga – Análise BD

  1. Uma análise muito cuidada de quem sentiu exactamente o que o autor quis transmitir, a história que criou como um grito de alerta, aplicável a qualquer “palco de guerra”.
    Pode estar e está certamente a acontecer agora, infelizmente!…

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