Análise BD: Estes dias que desaparecem
“Estes dias que desaparecem” é um livro que me surpreendeu muitíssimo quando li e que simplesmente adorei.
Não percam a oportunidade de ler a minha análise de O Paciente, disponível no nosso site, e que foi o meu primeiro contacto com este autor fabuloso — e que eu espero que também venha a ser publicado em português — pois, inclusivamente, a Devir poderia, num próximo evento de banda desenhada em Portugal, trazer este autor francês. Este, por sua vez, está a trabalhar numa tríade de livros fabulosos de seu nome 47 Cordas, e que demonstra toda a qualidade genial deste argumentista e desenhador.
De facto, Le Boucher, a par de Bastien Vivès, Sanlaville, Mathieu Bablet, Ugo Bienvenue, Julie Maroh, Anne Simon e Chloé Cruchaudet, fazem parte de uma “nouvelle vague” de autores franceses que trazem um novo estilo, género e versatilidade para a BD, que tanto fazia falta para contrariar o classicismo Franco-Belga — que também é muito bom, mas carecia de algo inovador, que nos surpreendesse e implementasse no nosso espírito crítico capacidade refletiva.
Esta é, por si só, uma obra um pouco difícil de classificar, visto que mistura mistério com ficção científica, drama e comédia, elementos metafísicos e filosóficos, e uma profunda reflexão sobre a vida, definição de prioridades, valores e morais, e, acima de tudo, a consciência de que devemos identificar muito bem quais são as pessoas que queremos que nos rodeiem para passar o nosso tempo. Tempo esse que é o bem mais precioso que temos — a par da saúde — e que, por isso, só deve ser dado a pessoas, familiares e amigos que realmente nos façam bem, queiram cuidar de nós e trazer-nos felicidade e apoio.
Nestes nossos dias em que tudo acontece a uma velocidade estonteante e em que tudo é efémero, esta leitura vertiginosa e altamente estimulante transmite-nos uma história fabulosa que realmente nos dá muito que pensar, em como vivermos a nossa vida.
Nesta história, seguimos a vida do jovem adulto Lubin, um trapezista circense que começa a aperceber-se de que está a acordar em dias alternados, não se recordando minimamente do que fez no dia anterior. Esta premissa mirabolante desperta a curiosidade do leitor, da mesma forma que ao personagem, que se vê obrigado a montar uma câmara no quarto para perceber o que acontece consigo nos dias em que não está.
Atenção aos possíveis spoilers a partir daqui…
Lubin descobre então que uma diferente personalidade sua assume o controlo nesses outros dias. Este distúrbio de personalidade é hilariante, ao mesmo tempo que constrangedor, na medida em que são verdadeiramente opostos. Enquanto Lubin é um artista livre, sonhador, despreocupado com o seu futuro, a outra personalidade é a sua antítese: responsável, organizado e mais maduro. E se, no início, estas duas personalidades tentam chegar a um acordo para se complementarem, a dicotomia acaba em conflito por uma tentativa de ser a personalidade dominante.
Numa primeira perspetiva, podemos lembrar-nos do clássico da literatura de Robert Louis Stevenson e do seu Dr. Jekyll and Mr. Hyde, mas, ao contrário da luta entre o bem e o mal entre estes personagens, nesta história temos antes uma luta para ultrapassar a adolescência e assumir a responsabilidade própria de um adulto e da tomada de decisões relevantes para o seu futuro, pois Lubin insiste em estagnar no seu síndrome de Peter Pan e não assumir as regras da vida adulta, bem como as normas da sociedade e a importância da validação social, da organização idealizada pelas massas e a perceção coletiva do que se considera sucesso e estabilidade psicoemocional no mundo em que habitamos.
Fim dos possíveis spoilers
Le Boucher apresenta um ritmo narrativo muito surpreendente e emocionante, tornando o roteiro um verdadeiro page-turner, pois, à medida que a história avança, podemos sentir uma enorme empatia por Lubin. Os personagens secundários são muito interessantes e bem construídos, e ficam tão perplexos com os acontecimentos como nós, leitores. Desde a namorada, à mãe, amigos e familiares, as diferentes reações dos mesmos são imprevisíveis e dão ao roteiro uma crescente capacidade narrativa que não se limita aos estereótipos corriqueiros que muitas vezes vemos neste tipo de histórias.
Aqui é essencial vermos apenas a perspetiva de Lubin e assumirmos os dias em que é ele que está no comando, sem nunca ver a outra personalidade.
Somos surpreendidos com os despertares de Lubin da mesma forma que ele os perceciona, e isso é um truque genial de Le Boucher.
A história vai avançando no tempo de uma forma muito dinâmica e simples, e temos direito a um final em aberto, que pode ser agridoce, mas que fica tão bem nestas ficções.
No que diz respeito ao desenho, a influência do estilo mangá está bem presente no autor, contrastando belissimamente com o estilo europeu nos layouts.
Com um traço extremamente suave, delicado e estilizado, Le Boucher demonstra domínio no dinamismo das ações dos personagens e transfere uma irrealidade desconcertante que faz todo o sentido na obra.
Uma paleta de cores planas, muito neutras e agradáveis aos olhos, transmite notoriamente e de forma incrível uma excelente capacidade de movimento dos personagens, tendo em conta que os seus fundos não são muito detalhados e fogem do caos estético-visual para um maior foco central nos corpos dos intervenientes, com uso excelente do espaço negativo. Esta vertente visual é recorrente nos autores acima mencionados, o que faz deles a tal nova geração de ouro do Franco-Belga moderno e espetacular.
Obra recomendadíssima, essencial para a BDteca de qualquer amante da nona arte.
Ainda não tens? Encomenda na Wook!

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.





