The Drama – Bang, Bang, Viva os noivos!
The Drama, de Kristoffer Borgli, apresenta-se como uma espécie de comédia dramática atravessada por romance e sátira social, cujo maior trunfo está na forma como se aproxima do risco sempre que pode. A história acompanha Emma e Charlie, um casal de noivos que vê a relação abalada depois de uma revelação feita durante um jantar entre amigos, a poucos dias do casamento. Emma, a personagem de Zendaya, confessa que, aos quinze anos, pensou cometer um tiroteio escolar, embora nunca o tenha levado a cabo. Charlie, interpretado por Robert Pattinson, vê-se forçado a confrontar uma imagem até então desconhecida da mulher que ama.
A escolha de Borgli convoca os tiroteios escolares como um dos pesadelos criminosos mais profundamente inscritos no imaginário contemporâneo dos Estados Unidos da América. Tratando-se de uma realidade devastadora, com consequências permanentes para jovens, famílias e comunidades inteiras, é também um fenómeno que foi sendo absorvido pela paisagem cultural do país, quase como se a familiaridade com a tragédia tivesse produzido em torno dela uma estranha plasticidade simbólica.

Neste caso, a narrativa opta por uma abordagem que expõe uma realidade pouco abonatória sobre os costumes morais do presente, uma vez que não se detém no mal concretizado, mas num ponto intermédio raramente explorado pelo cinema, o momento em que alguém esteve perto de cometer uma atrocidade e recuou.
Um crime consumado, sendo alvo de repulsa, torna-se, não obstante, objeto de fascínio. O olhar coletivo, moldado por décadas de voyeurismo mediático e amplificado pela era da internet, parece mais atraído por quem atravessou o limite do que por quem ficou aquém dele. A ambiguidade de Emma obriga o espectador a lidar com uma hipótese desconfortável, a de que a violência extrema talvez não pertença apenas a figuras sem escrúpulos e irascíveis, podendo nascer, em certas circunstâncias, de fragilidades, impulsos e ressentimentos menos excecionais do que gostaríamos de admitir. Para além disso, num tempo em que o individualismo se agrava, o sentimento de pertença é simulado a partir de um ecrã e os nichos mais obscuros encontram sempre terreno para prosperar, a adolescência de Emma, que remete para os primeiros fóruns incels da internet e uma lógica de embelezamento da destruição, funciona, em simultâneo, como excentricidade individual e sintoma de uma época em que o fácil acesso à informação há muito deixou de caminhar lado a lado com a maturidade necessária para a processar.

Interessante é também o propósito do filme como reflexão perspicaz sobre aquilo que se esconde por detrás da fachada social. Charlie encarna uma masculinidade educada, moderna, cosmopolita, embora ainda marcada por resíduos de uma compostura burguesa algo bafienta. Emma, por seu turno, surge como alguém com tudo a seu favor, bela, inteligente, admirável, mas de súbito assombrada pela possibilidade de voltar a ser vista à luz da adolescente insegura e perdida que foi. Ambos estão brilhantes, o restante elenco percebe bem o tom do projeto e a progressão do enredo mantém-se fiel ao que o filme quer, sem cair em automatismos e permitindo que o desconforto se instale com naturalidade. Até um simples “shoot”, dito pela fotógrafa de casamento, passa a carregar um eco sinistro e constrangedor.
The Drama acaba, assim, por se afirmar como um misto de conflito, ambiguidade moral e observação mordaz, sem perder de vista a componente cómica. A forma como discute a violência que subjaz mesmo aos indivíduos mais sãos e a irónica permeabilidade até das relações mais íntimas confluí num resultado extremamente bem-sucedido.
Classificação: 7/10

Fascinado por cinema desde cedo, começou pelas cassetes VHS de casa da avó e acabou a colecionar figuras de clássicos dos anos 80. Hoje, vê cada filme com a mesma curiosidade de então.

