Cinema: Crítica – Michael
Continuando a onda recente de biopics no grande ecrã, eis que a estreia de Michael mostra-nos o inicio da carreia do verdadeiro Rei do Pop, como uma estrela em ascensão.
Depois do sucesso de Bohemian Rhapsody, foi reportado que o produtor Graham King assegurara os direitos para produzir um filme sobre Michael Jackson, outro gigante musical com uma história rica em eventos — tanto musicais como pessoais — e, na altura, ainda rodeado de controvérsia devido a várias acusações. Foi preciso praticamente meia década para o fazer acontecer, e Antoine Fuqua traz Michael ao grande ecrã.
A história começa nos anos 60, quando Michael (Juliano Krue Valdi) e os seus irmãos se juntaram e começaram a fazer espetáculos um pouco por todo o lado, geridos pelo pai Joseph (Colman Domingo). Este era um pai em busca da perfeição e violento quando via as suas decisões questionadas, o que, muitos anos depois, levou Michael a procurar a sua independência e a conquistar a sua liberdade criativa. Agora adulto (Jaafar Jackson, na sua grande estreia), Michael afirma-se como um artista de enorme sucesso, enquanto acompanhamos a primeira parte da sua carreira.
Seria um feito difícil condensar a história integral de Michael Jackson em apenas um filme, do mesmo modo que as biopics ultimamente se têm focado apenas numa pequena parte das carreiras dos seus artistas. Veja-se A Complete Unknown, que cobriu apenas os anos iniciais de Bob Dylan, ou o mais recente Springsteen: Deliver Me From Nowhere, que se focou principalmente na conceção do disco Nebraska, já numa altura em que o artista estava estabelecido com um de sucesso. Mas a expectativa em torno de Michael era diferente, sobretudo porque este teve efetivamente uma multitude de momentos icónicos ao longo de várias décadas, em especial no que diz respeito aos seus feitos musicais.
Enquanto a primeira metade do filme se foca na sua infância e na sua procura de independência, é já na vida adulta que a história se torna verdadeiramente interessante, desde Off The Wall, que o catapultou para um sucesso mundial, até ao eterno Thriller, onde explorou ao máximo todas as vertentes criativas e mais algumas. Aí, temos o bel-prazer de ver a recriação de situações que deram origem aos videoclipes de “Beat It” e “Thriller”, dando ao espectador uma noção mais próxima das inspirações de um artista que adorava muito mais para além da música, alimentando também uma paixão pela cultura pop.
É nestas sequências que temos a oportunidade de ver a construção de algo que continua tão presente no zeitgeist: como Michael mudou o mundo e a forma como vemos e ouvimos música. É no seu caminho como rei do pop que percebemos a dimensão do seu estrelato.
Se, por um lado, a inclusão do trágico acidente que lhe causou graves ferimentos durante a gravação de uma campanha para a Pepsi é relevante, a ausência da sua participação em “We Are The World” poderá ser explicada pelo enorme número de músicos envolvidos, cuja encenação se tornaria difícil. Ainda assim, estranha-se que esse momento não seja sequer mencionado de passagem, com a narrativa a prosseguir até terminar em 1987, em pleno lançamento e domínio de Bad.
No meio disto tudo, Jaafar Jackson lidera a obra com todo o carisma e o cuidado pelos quais o seu tio era conhecido, com todos os elementos a serem recriados de forma detalhada, desde os seus maneirismos à sua voz, bem como todo o seu guarda-roupa.
Por vezes, é fácil esquecermo-nos de que o filme é uma biopic, tal é a fidelidade nestes aspetos essenciais, que oferecem a dimensão certa à obra. Por outro lado, sente-se que a história poderá estar controlada e sanitizada em demasia, com vários momentos que poderiam ter um enquadramento controverso a serem apressados até ao seguinte, que serve de cobertura, sem oferecer nada para além daquilo que já estivesse documentado de alguma forma. Considerando a linha temporal do filme, a segunda parte — ainda que não esteja confirmada — deixa em aberto um enorme conjunto de momentos igualmente importantes da carreira de Michael, independentemente da sua controvérsia.
Assim, Michael é a biopic que mostra o começo da vida do rei do pop, em alguns dos momentos mais altos e mais baixos da sua fase inicial, recriada de forma fiel, e que agradará aos fãs do artista, bem como àqueles que apenas querem satisfazer a sua curiosidade. Mesmo que acabe por cair num ciclo repetitivo de positivismo e não ofereça nada que já não se soubesse sobre o artista, vale pelo seu valor histórico na música e pelo impacto que teve no mundo como ícone.
Resta esperar que possamos ver uma segunda parte, independentemente de toda a controvérsia que poderá trazer, e que essa etapa seja abordada como verdadeiramente merece.
Nota Final: 6/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.





