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Novos trailers: cinema português na memória, na terra e na identidade

Os trailers de Projecto Global, Terra Vil e La Vie de Maria Manuela chegaram para revelarem um cinema português atento à história, às fraturas sociais e às transformações culturais do presente. Três filmes, três escalas distintas — do político ao íntimo — que confirmam um momento de maturidade artística e diversidade temática no cinema português.

Terra Vil
Terra Vil

O novo filme de Ivo M. Ferreira apresenta-se como uma das propostas portuguesas mais ambiciosas dos últimos anos. Projecto Global, que terá estreia mundial na Big Screen Competition do Festival Internacional de Cinema de Roterdão, mergulha nos anos 1980 para revisitar um dos períodos mais tensos e menos consensuais da democracia portuguesa.

Projecto Global
Projecto Global

Ambientado numa Lisboa pós-Revolução dos Cravos, já distante da euforia de Abril, o filme retrata um país em convulsão: fábricas a fechar, conflitos laborais, radicalização política e o surgimento da FP-25, organização armada de extrema-esquerda que marcou a década com assaltos, atentados e uma vida clandestina à margem da legalidade.

Projecto Global
Projecto Global

O trailer revela um tom sombrio e contido, onde o thriller político se cruza com o drama humano. A narrativa acompanha um grupo de militantes que, ao abandonarem tudo em nome da causa, acabam por perder também a própria identidade. Em paralelo, um agente responsável por os combater enfrenta um dilema moral que espelha as ambiguidades de um país ainda em busca de equilíbrio.

Projecto Global fala do sonho de igualdade do qual somos forçados a acordar”, afirma Ivo M. Ferreira. “Oscilamos entre a euforia de querer mudar o mundo e o desespero rasteiro quando as ideias colidem com a realidade — feita de compromissos, interesses e renúncias.”

No elenco destacam-se Jani Zhao, Rodrigo Tomás, Gonçalo Waddington e José Pimentão, num filme escrito pelo próprio realizador em colaboração com Hélder Beja. A produção é assinada pela O Som e a Fúria, com coprodução da Tarantula, e distribuição da NOS Audiovisuais. Uma obra densa, política e profundamente contemporânea na forma como revisita o passado, para descobrir nas salas de cinema a partir de 23 de abril.

A primeira longa-metragem de Luís Campos, Terra Vil apresenta-se como um drama rural de forte carga emocional, ancorado na paisagem do Douro e nas fragilidades de uma comunidade marcada pela pobreza, pelo isolamento e por estruturas familiares disfuncionais.

A história centra-se em João, um rapaz de 12 anos que vive com o pai, António, um pescador instável e alcoólico. Ao lado mora Teresa com as suas filhas adolescentes, Paula e Liliana, formando uma espécie de família improvisada, sustentada pela pesca artesanal e pela venda de lampreias. Mas a seca, as alterações climáticas e a violência latente tornam esse equilíbrio cada vez mais frágil.

Terra Vil
Terra Vil

O trailer sugere um filme de grande contenção formal, onde o olhar infantil serve de filtro para temas duros como violência doméstica, misoginia, herança patriarcal e abandono emocional. A narrativa culmina num dilema moral perturbador, quando João é confrontado com um episódio de agressão e forçado a escolher entre a lealdade ao pai ou a empatia pelas vizinhas oprimidas.

Com interpretações de William Cesnek, Rúben Gomes e Lúcia Moniz, Terra Vil foi selecionado para o Prémio Ingmar Bergman, no Festival de Cinema de Gotemburgo — distinção reservada a primeiras obras com forte identidade autoral. O filme aborda ainda, de forma indireta, o trauma coletivo do acidente de Entre-os-Rios, acrescentando uma camada de memória histórica ao drama íntimo.

Terra Vil
Terra Vil

Produzido pela Matiné, em coprodução com Itália, com apoio do ICA e da RTP, Terra Vil confirma Luís Campos como uma nova voz a acompanhar de perto no cinema português contemporâneo. Estreia a 26 de fevereiro de 2026.

Encerrando este trio de estreias, La Vie de Maria Manuela, de João Marques, propõe um registo documental íntimo e prolongado, filmado ao longo de quatro anos, acompanhando a transição para a vida adulta de uma jovem artista numa pequena vila do norte de Portugal.

Conhecida online como La Vie de Marie, Maria Manuela tornou-se uma figura pública após se tornar viral nas redes sociais e pela sua participação num reality show em 2022. O filme, no entanto, afasta-se do retrato mediático para se concentrar no processo mais silencioso e complexo da afirmação identitária, da criação artística e da saúde mental num contexto rural, conservador e profundamente marcado pela religião.

La Vie de Maria Manuela
La Vie de Maria Manuela

O trailer revela um documentário sensível, construído a partir de uma relação de proximidade entre realizador e protagonista. Maria pinta, transforma os espaços que habita e tenta materializar um universo interior em permanente conflito com as expectativas externas — da família, da comunidade e do próprio olhar público.

O filme reflete sobre a ideia de Casa, tanto física como psicológica”, explica João Marques. “Ao transformar os seus espaços, Maria procura conforto perante a solidão e o caos interno.”

La Vie de Maria Manuela
La Vie de Maria Manuela

Com consultoria narrativa de Cláudia Varejão, produção da Promenade e montagem de Miguel Ângelo dos Santos, La Vie de Maria Manuela insere-se numa reflexão mais ampla sobre a Geração Z, a exposição permanente e as novas formas de construção do eu num mundo digital. A 12 de fevereiro de 2026 chega aos cinemas La Vie de Maria Manuela.

Ricardo Lopes

Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

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