HMHAS – THE TOUR LIVE IN 3D (2026)
O filme-concerto consolidou-se como um acontecimento cinematográfico singular, capaz de prolongar a experiência do espetáculo ao vivo e, ao mesmo tempo, acolher quem não conseguiu estar presente. É nesse panorama de grande apelo que surge Hit Me Hard and Soft: The Tour Live in 3D, uma produção ambiciosa de vinte milhões de dólares, com realização de Billie Eilish e James Cameron. Filmado ao longo de quatro noites em Manchester, o registo apoia-se num dispositivo técnico de dezassete câmaras estrategicamente ocultas em redor de um palco central, cuja conceção cénica dispensa bailarinos, cenários móveis ou trocas de guarda-roupa, para se concentrar no magnetismo de Billie, ampliado por um desenho de luzes, lasers e efeitos de cor que intensificam o esplendor das suas músicas.

Na sessão em que assisti ao filme, a reação da plateia replicou o entusiasmo das arenas, com pessoas de pé e a dançarem junto do ecrã, o que denota o sucesso da intenção de criar cumplicidade imediata entre o público da sala de cinema e o espetáculo projetado. O alinhamento equilibra temas recentes com marcos do repertório, entre os quais Bad Guy e Bury a Friend, evidenciando a solidez de uma linguagem pop muito própria. Um dos momentos mais fortes surge em L’Amour de Ma Vie, na versão Over Now Extended Edit, quando Billie se eleva acima do palco, envolta por uma iluminação carmesim intensa e fazendo valer o uso expressivo e intencionalmente provocador de autotune que está presente na música. Também a interpretação de Happier Than Ever se destaca pelo vigor visual, marcada por flashes violentos e por uma câmara que descreve movimentos circulares em torno de Billie e do seu irmão Finneas. Vale notar, no entanto, que a carga dramática deste momento, associada ao facto de estes concertos serem os primeiros sem a presença regular de ambos, perde fulgor, já que a participação de Finneas nunca chega a ser apresentada como uma surpresa, nem para Billie nem para o espectador, deixando o segmento aquém da intensidade que parecia prometer.

A distância entre a expectativa e o resultado entregue estende-se também à utilização do 3D. Apesar de aproximar os corpos da plateia e dar maior densidade à geografia do palco, esse recurso raramente ultrapassa o estatuto de proeza acessória, o que, num espetáculo tão assente na energia dos aspetos visuais e tecnológicos, deve ser considerado um desperdício e um desserviço aos fãs que esperavam ver essa componente melhor refletida na experiência cinematográfica. O filme ressente-se também da inclusão de cenas de bastidores intercaladas, que, apesar da espontaneidade, interrompem o ritmo orgânico do concerto e falham em aproximar-nos de forma significativa da pessoa e da compositora que, entretanto, vimos crescer desde Billie Eilish: The World’s a Little Blurry, de R.J. Cutler, em 2021. Em pouco se distinguem, aliás, do tom das várias entrevistas que circulam na internet.

A participação de James Cameron neste caso oscila, assim, entre o testemunho sincero da grandiosidade artística e criativa de Billie, que, aos 24 anos, é uma das personalidades mais reverenciadas da indústria, e a sensação de uma iniciativa publicitária a favor desse mesmo posto. O documentário capta ainda com fidelidade as reações emotivas e os depoimentos sinceros de uma plateia que encontra naquelas canções um espaço de conforto e de autoaceitação, mas não aproveita essa oportunidade narrativa para aprofundar os motivos pelos quais esta fusão de ousadia e vulnerabilidade gera uma repercussão tão vasta. Em suma, Hit Me Hard and Soft: The Tour Live in 3D confirma a inteligência de uma intérprete brilhante, plenamente consciente da sua imagem e da relação que tem com o público, embora permaneça a sensação de que o filme se deixa seduzir mais pela espetacularidade do objeto do que pela hipótese de o aprofundar.
Classificação: 7/10

Fascinado por cinema desde cedo, começou pelas cassetes VHS de casa da avó e acabou a colecionar figuras de clássicos dos anos 80. Hoje, vê cada filme com a mesma curiosidade de então.

