Curtas de Vila do Conde

Central Comics

Banda Desenhada, Cinema, Animação, TV, Videojogos

Daniel Henriques anuncia No Home Here com Todd McFarlane (Entrevista)

O artista Daniel Henriques completou recentemente dez anos de percurso profissional na indústria de comic books, em que se iniciou com assistências artísticas em 2012, na Marvel Comics, e se estreou como arte-finalista em 2015, na DC Comics.

Foi nesta editora que realizou o grosso do seu trabalho na área, em parcerias com grandes desenhadores, como Bryan Hitch (JLA e Justice League), Daniel Sampere (Green Arrow), Robson Rocha (Green Lanterns, SuperGirl, Aquaman) e Victor Bogdanovic (Batman), entre outros.

Mais recentemente, desenvolve parceria com o desenhador Philip Tan, com quem participou na última revista Shadowhawk, escrita por Jim Valentino, e em Spawn, com Todd McFarlane, depois assinando a sua primeira capa como desenhador no Gunslinger Spawn #7, em 2022.

A parceria continuou no lançamento da editora FMP/Frank Miller Present, com a minissérie Ronin Book II, escrita por Frank Miller. E agora, Daniel Henriques volta a surpreender ao anunciar uma série original, intitulada No Home Here.

Daniel, como tem sido o último ano para ti, desde que apresentaste, na NYCC ‘22, o projecto Ronin Book II, com Frank Miller e Philip Tan, através do ashcan-comic Frank Miller Presents #0?

DH – Foi um excelente ano. Tal como a grande maioria de leitores de comics, sou fã do trabalho do Frank Miller, e embora não fosse nascido quando saiu a série original, Ronin foi sempre uma banda desenhada que adorei. Ter a hipótese de fazer parte da sequela foi algo que nunca pensei que pudesse acontecer, mas aqui estamos… haha!

O processo de criação com o Frank e Philip tem sido excelente. Dada a decisão de publicar o livro a preto e branco, eu sou o último na linha de produção directa da arte, em que faço os inks (*arte-final) e zipatones (*tramas de meios-tons), sendo que a aplicação de zipatones foi algo que aprendi propositadamente para este livro. Felizmente a recepção tem sido bastante positiva.

Recentemente, foste o primeiro arte-finalista desde o veterano Klaus Janson, em 1986, a trabalhar sob os desenhos do mestre Frank Miller, primeiro finalizando as suas capas alternativas e agora os esboços para Ronin Book II #4, a sair em Setembro. Como foi a experiência e que retorno tens?

DH – A pressão é imensa hahahaha! Em primeiro lugar, ninguém vai conseguir fazer o que o Frank faz, e ninguém vai conseguir reproduzir o que o Frank e Klaus atingiam juntos. Isso foi a primeira coisa que tive de me convencer a mim próprio, para aliviar a pressão! Eu já tinha finalizado umas capas do Frank, mas esse foi um trabalho muito superficial – ele fazia a ilustração e arte-final, e eu fazia algumas assistências a nível de inks, acrescentando texturas, retocando o peso de linha, e aplicando zipatones, mas sempre hesitei em ter “mão pesada” face ao trabalho do Frank porque já vinha bastante finalizado.

O que estamos a fazer para o Ronin Book II #4 é completamente diferente. Estou a receber os layouts que o Frank fez para o número, que são bastante esboçados e sem grande finalização, e aqui não tenho outra opção senão fazer mesmo o que chamamos de finishes (*finalizações), em que estou a desenhar também boa parte das páginas, sempre a tentar manter a identidade gráfica do Frank nas linhas. Em todo o caso, o meu objectivo foi sempre também manter alguma consistência gráfica com o trabalho do Philip, para que a leitura global da minissérie não pareça um pastiche de artistas.

No colóquio que o Frank e eu fizemos juntos na SDCC’23, mostrámos as primeiras páginas do #4 e, inclusive, partilhámos o processo de como a arte foi criada, o que foi muito bem recebido.

O Frank tem sido impecável e um verdadeiro prazer com quem trabalhar. Os conhecimentos que tem e que adora partilhar, tal como o entusiasmo pela própria criação da arte, estão a tornar toda a experiência um inestimável prazer, que acho vai ser difícil de alguma vez conseguir replicar.

A tua grande novidade é o anúncio, no recente SDCC, de ires escrever uma série original, incluída no universo ficcional de Spawn, que vai ser desenhada e colorida por Jonathan Glapion. Como foi a reação ao anúncio de No Home Here?

DH – O No Home Here é um verdadeiro projecto de paixão, por muitos motivos. Em primeiro porque – quem me conhece, sabe – adoro o Spawn. Desde muito antes de sequer pensar em ter uma carreira profissional na área já coleccionava a revista, e inclusivamente entrei no mercado de comics, e mais especificamente na função de inker (*arte-finalista), com o objectivo concreto de um dia arte-finalizar um trabalho do Todd.

Conseguir ter o meu nome na revista do Spawn foi um marco na minha carreira, depois desenhar uma capa do Gunslinger Spawn foi outro grande marco, e agora o facto de poder criar uma história e novas personagens dentro do universo criado pelo Todd – e isso marcar a minha estreia como escritor – ainda me parece surreal. Em cima de isto tudo, estar a cocriar a revista com o Jonathan, que me ajudou tanto no início da minha carreira e até hoje é um dos meus melhores amigos, torna este projecto algo muito especial.

O Todd chamou-nos ao palco na SDCC para fazer o anúncio do título e a reacção da audiência foi espectacular, desde a sinopse à arte que mostrámos. O apoio e interesse que sentimos na convenção, e entretanto online, tem sido constantemente positivo. Estamos em pulgas para poder mostrar mais, porque só demos um vislumbre muito pequeno do que estamos efectivamente a produzir.

Esta revista é um marco na comunidade autoral portuguesa: para além de autores que assinaram obras a solo no mercado americano, os mais proeminentes argumentistas foram, até agora, João Lemos, que escreveu uma edição especial de Wolverine (“The Dust from Above,” 2010), e Filipe Melo, na edição especial The Untold Tales of Dog Mendonça & Pizza Boy (2012), mas és o primeiro a assinar uma série de continuação – como surgiu este desafio?

DH – Este projecto surgiu em grande parte porque eu e o Jonathan falamos todos os dias ao telemóvel enquanto estamos a trabalhar. Eu sempre tive ambições de criar conceitos originais e de escrever, e ele tinha ambições de assinar a arte completa de um comic, o desenho, arte-final e cor.

Eu tinha uma história em mente e começámos a discuti-la, e decidimos mencionar isso ao novo editor-chefe. Ele adorou a ideia, pediu-nos para prepararmos uma apresentação do projecto, com o outline da história e concepts das personagens, e eventualmente isso chegou ao Todd. Depois de uma reunião entre os quatro no início do ano, tivemos a “luz verde”, com virtualmente nenhuma interferência do Todd na ideia e no visual que tínhamos para esta história, o que foi muito gratificante.

O Todd tem sido extremamente generoso e encorajador no sentido de nos incentivar a trazer a nossa própria visão para o Universo do Spawn e em expandirmos a história por caminhos totalmente novos.

Do que trata No Home Here e quantos números terá?

DH – A sinopse que revelámos na SDCC foi a seguinte, “Sherlee Jonhson foi a última vítima do assassino de crianças Billy Kincaid. Agora presa num pesadelo interminável, está amaldiçoada a reviver infinitamente os seus últimos momentos na Terra. Toda esperança parece perdida… até que o repentino surgimento de um enigmático estranho quebra o seu ciclo de tormento.”

Embora a história seja totalmente original e com personagens novas, está ligada ao Universo do Spawn desde o seu início, desde o número #5, de 1992 (*publicado em Portugal pela Abril Controljornal em 1997 e posteriormente pela Devir, em 2001, em Spawn (vol.2) – Segredos Obscuros), em que Kincaid fez a sua vítima final antes de ser castigado pelo Spawn. Eu sempre me interroguei no que foi feito da pequena criança que aparece tão brevemente nessa BD, com um final tão trágico, e usei isso como ponto de partida para a minha história. Em breve, esperamos revelar mais do que se trata, porque tudo isto é um muito pequeno vislumbre do que estamos a criar.

O No Home Here é uma série ongoing, ou seja, enquanto tivermos apoio do público, vai continuar a ser editada. Tanto eu como o Jonathan queremos desenvolver este livro durante o máximo tempo que pudermos e já tenho histórias previstas para vários arcos. Não vamos chegar a 350 números antes do Spawn, mas se depender de nós, e a aceitação e apoio dos leitores se mantiver, vai ser um projecto muito longo.

O artista Jonathan Glapion, teu parceiro criativo na série, foi também o teu mentor na arte-final; como é a vossa relação profissional e que influência teve no desenvolver do projecto?

DH – O Jonathan foi uma das maiores forças-motoras por detrás de eu ter tido a coragem de “dar o salto” para este estilo de vida freelance e começar uma carreira artística. Com o passar do anos, tornámo-nos grandes amigos, inclusive falamos diariamente ao telemóvel, durante horas e horas, enquanto finalizamos os nossos respectivos projectos.

Durante muitos anos falámos de querer tentar algo mais, e No Home Here é a progressão natural dessa nossa relação. O facto de estarmos a criar em conjunto este projecto certamente ajudou a minimizar as nossas inseguranças pessoais sobre nos aventurarmos em tarefas criativas diferentes, tal como em nos apoiarmos um ao outro a apostar em algo em que acreditamos verdadeiramente.

E sinceramente, o facto de nos encorajarmos e nos desafiarmos artisticamente ao longo dos anos, criou uma dinâmica perfeita para querermos sempre alcançar mais. Com este projecto, temos toda a liberdade criativa e apoio editorial que podíamos desejar para realizarmos esse sonho.

Tal como Glapion, que também tem vindo a ilustrar capas para comics do Spawn e agora dá o salto para a função de artista, vais igualmente progredir do campo da finalização para o da escrita. Para ti, o que significa este passo profissional?

DH – Gostaria de continuar a expandir a minha carreira a nível de escrita e vou certamente trabalhar para isso, mas estou também bastante feliz por fazer o ink do Ronin Book II, com o Frank Miller e Philip Tan. Para já, não pretendo largar o ink enquanto estiver ocupado em projectos tão satisfatórios. Vou estar a trabalhar em ambos os campos e vou até apostar mais no meu próprio desenho, e em fazer mais capas para o Universo do Spawn, enquanto tento atingir a um ponto confortável em que sinta que posso ilustrar algumas histórias curtas que tenho em mente.

Esta série é um caso isolado ou tens mais ideias em desenvolvimento, para publicar como escritor?

DH – Como mencionei, definitivamente não é um caso isolado. Sempre quis criar e escrever, e tenho desenvolvido esse aspecto criativo em segredo. Agora que ganhei coragem para dar esse passo, não faço intenções de parar. Tenho outro projecto em desenvolvimento, também com o Jonathan, e muitos outros conceitos para explorar a solo, onde talvez colabore com outros artistas, assim como pretendo também criar pequenas histórias curtas que gostaria de escrever e ilustrar sozinho.

Criei recentemente um site https://www.danielhenriques.art, que embora ainda esteja em construção, será onde pretendo lançar algumas destas histórias curtas, assim como anunciar os outros projectos que sairão de futuro, através da newsletter.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Verified by MonsterInsights