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Crítica | AnyMart: Quando o quotidiano se transforma num verdadeiro inferno

AnyMart é uma comédia de terror surreal que transforma uma loja de conveniência japonesa num retrato sufocante do capitalismo e da perda de identidade.

Anymart

Há algo de profundamente inquietante na normalidade de AnyMart. À primeira vista, estamos perante uma pequena loja de conveniência japonesa, com corredores perfeitamente organizados, funcionários treinados para sorrir e clientes habituados a encontrar tudo no mesmo lugar. Yusuke Iwasaki pega nessa imagem confortável e vira-a do avesso, construindo uma comédia de horror desconcertante sobre um sistema onde a eficiência vale mais do que as pessoas.

AnyMart apresenta-se como a primeira longa-metragem de Iwasaki, realizador anteriormente distinguido pelo seu trabalho na publicidade televisiva, mas também como um filme bastante pessoal. A experiência pessoal do cineasta, filho de um proprietário de uma loja de conveniência, sente-se em cada detalhe. O filme conhece bem este ambiente, talvez demasiado bem, e é precisamente essa familiaridade que torna a sua sátira tão desconfortável.

No centro da narrativa está Sakai, interpretado por Shota Sometani, um subgerente emocionalmente anestesiado que vive preso à rotina da loja e à sombra do pai. A interpretação trabalha sobretudo com contenção. Sakai raramente precisa de grandes explosões emocionais porque o vazio já está estampado no rosto. É um protagonista interessante precisamente por parecer ausente, como se tivesse aprendido que sobreviver naquele espaço implica deixar de ser uma pessoa.

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O pai, proprietário da loja, reforça essa lógica. Sempre atento às câmaras de vigilância, funciona quase como uma entidade omnipresente, mais interessado em números, disciplina e lealdade familiar do que nas pessoas que trabalham para ele. A cultura empresarial é levada ao extremo, com regras recitadas como mandamentos e comportamentos individuais tratados como falhas do sistema.

É aqui que AnyMart encontra a sua melhor ideia. A loja torna-se uma espécie de ciclo do capitalismo tardio, um espaço fechado onde tudo está normalizado e onde os trabalhadores são facilmente substituíveis. Quando alguém desaparece, seja por despedimento, desistência ou até pela morte, o sistema simplesmente continua. Não há tempo para luto, porque o luto não produz lucro.

A entrada de Ogawa, uma jovem trabalhadora temporária e estudante de cabeleireiro interpretada por Erika Karata, altera esse equilíbrio. A personagem introduz energia, espontaneidade e uma possibilidade de vida fora daquele pequeno universo. Ao incentivar Sakai a pensar no sonho secreto de criar uma horta, o filme apresenta uma alternativa simples, quase ingénua, ao modelo mecânico da loja. Só que AnyMart nunca deixa essa esperança existir por muito tempo.

Imai, interpretado por Tatsuya Nagashima, representa outra dimensão desse sistema, a necessidade desesperada de reconhecimento. Vaidoso e manipulador, transforma a própria existência profissional numa competição permanente, pressionando Sakai para comprar produtos em promoção e melhorar artificialmente os resultados. O seu percurso torna-se progressivamente mais perturbador, à medida que a necessidade de validação dá lugar a comportamentos destrutivos.

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A realização de Iwasaki joga com o desconforto de forma inteligente. O ritmo começa deliberadamente lento, mergulhando o espectador em situações banais e absurdas, mas a normalidade vai-se desfazendo. O humor negro funciona como porta de entrada para o horror, e algumas situações são tão ridículas que se tornam genuinamente perturbadoras. É uma abordagem que exige alguma paciência, sobretudo na primeira metade, mas que recompensa quem aceita entrar no jogo.

Visualmente, o filme explora a artificialidade daquele espaço, com ambientes cinzentos, iluminação fria e uma composição quase clínica. A loja parece limpa, ordenada e funcional, mas nunca transmite conforto. É uma máquina. E quanto mais tempo passamos lá dentro, mais percebemos que os seus corredores funcionam como uma espécie de labirinto psicológico.

AnyMart não é um filme interessado em oferecer respostas fáceis. A sua crítica ao capitalismo, à cultura empresarial e à erosão da individualidade é evidente, mas nunca surge transformada num sermão. Iwasaki prefere exagerar, deformar e provocar. Por vezes, essa estratégia torna o filme irregular e algumas ideias parecem procurar o choque mais do que a subtileza. Ainda assim, existe uma visão autoral forte, sobretudo na forma como o absurdo nasce da própria banalidade.

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No fim, AnyMart funciona melhor como sátira corrosiva do que como filme de terror convencional. O verdadeiro monstro não está escondido nos corredores da loja, está no sistema que transforma pessoas em peças descartáveis e ensina todos a aceitar isso como normal. É estranho, desconfortável e por vezes bastante engraçado, uma combinação que nem sempre resulta, mas que aqui deixa marca.

Nota: 7,5/10

António Moura

Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.

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