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Cinema: Crítica – Free Guy: Herói Improvável

Free Guy: Herói Improvável já estrou e nele estão grandes esperanças que seja um filme que irá fazer a diferença ainda em tempos de pandemia. Mas será que o filme é bom para levar multidões aos cinemas?

Ao longo dos anos, o mundo dos videojogos tem tido uma relação complicada com o cinema. Embora existam muitas tentativas de adaptar títulos famosos para filme ou série, muito poucas obras obtiveram sucesso financeiro, muito menos o aplauso dos fãs dessas aventuras pixelizadas.

Talvez a chave não estivesse em adaptar um videojogo popular, mas sim em criar um novo. Shawn Levy, realizador da franquia “À Noite, no Museu” e Ryan Reynolds tentam a sua sorte com Free Guy e o resultado é, sem dúvida, o mais próximo de haver uma simbiose entre filmes e videojogos.

Free Guy centra-se em Guy, um NPC (personagem não jogável) do “Free City”, o videojogo da moda. Nesta espécie de combinação entre “Grand Theft Auto” e “Fortnite”, os jogadores podem fazer e ser o que quiserem, exceto Guy. Guy levanta-se todas as manhãs, cumprimenta o seu peixe, veste-se, toma o pequeno-almoço e vai trabalhar no banco, onde será assaltado algumas vezes durante o dia. Ele não sabe que vive num videojogo e acredita que a sua vida é perfeita como está. Até que se cruza com uma jogadora, Molotov Girl (Jodie Comer), pela qual se apaixona e decide abandonar a sua programação habitual, desencadeando uma série de situações surpreendentes.

Ao longo da carreira, Shawn Levy demonstrou apetência para comédias divertidas que não se levam muito a sério e Free Guy encaixa perfeitamente nessa categoria. O filme lida com vários conceitos com resultados bastante interessantes, a começar com a questão dos videojogos, talvez o osso mais duro de roer. O filme tira partido de um cenário absolutamente delirante para brincar com o humor físico, tão exagerado que só seria possível num videojogo, para encher o ecrã de estímulos visuais e sonoros e surpreender com coisas que só poderiam ocorrer num mundo como “Free City” e para prestar homenagem à cultura gamer. A cidade está repleta de chamadas de atenção e dinâmicas que qualquer pessoa que já tenha pegado num comando irá compreender. O facto de se tratar de um videojogo “original”, apesar das referências claras, funcionou muito bem para que até os jogadores o considerem novo e inovador. Pelo menos, os jogadores ver-se-ão refletidos no filme, algo que a maior parte dos filmes baseados em videojogos não foram capazes de fazer.

São abordadas algumas das principais problemáticas da indústria dos videojogos, como o crunch (explorar os funcionários de modo a conseguir lançar o jogo na data estipulada) ou o facto de uma grande empresa “engolir” uma mais pequena e fazer o que quer com as suas criações. O conflito da personagem interpretada por Jodie Comer no mundo real é que esta e o seu parceiro Keys (Joe Keery) desenvolveram um jogo indie em mundo aberto com inteligência artificial inovadora e estão convencidos de que a Soonami, uma empresa liderada por Antwan (Taika Waititi), roubou o seu projeto para criar “Free City”. Millie joga por forma a encontrar provas do roubo dentro do jogo. Este “filme de ação” presente no universo de Free Guy funciona igualmente como veículo para que as personagens de Reynolds e Comer se aproximem. Os dois têm química e fazem com que o outro género que coexiste em Free Guy, a comédia romântica, encaixe perfeitamente naquele universo. Na verdade, o peso que o romance tem no filme é surpreendente e, apesar de se tratar acima de tudo de uma comédia de ação, os momentos mais leves não destoam, embora o filme tenha um final bastante açucarado.

Comer consegue aqui uma interpretação cómica fantástica, formando uma ótima dupla com Ryan Reynolds. O ator está mais uma vez na sua praia, com uma personagem que é basicamente um Deadpool bem-educado. Por outras palavras: Ryan Reynolds faz de Ryan Reynolds, mas aquela imagem de marca que criou há tanto tempo e que domina como ninguém resulta na perfeição aqui, sendo charmoso, carismático e um protagonista nato, capaz de dividir as atenções com Comer ou Keery.  A história de Guy, com clara inspiração no filme “The Truman Show – A Vida em Direto”, confere o aspeto emotivo da película. Guy torna-se uma personagem cada vez mais complexa à medida que conhece a realidade do mundo em que vive e o significado da sua existência. Também é muito interessante ver como a sua ingenuidade e gentileza contagiam as outras personagens e jogadores de “Free City”.

É verdade que, por vezes, Free Guy peca pela forma banal como aborda certos temas, a começar pela própria crise existencial de Guy. A questão da inteligência artificial poderia dar para todo um episódio de Black Mirror, mas em nenhum momento o filme pretende deixar-se levar pela escuridão ou complexidade, mantendo sempre um tom jovial e positivo. Shawn Levy sabe exatamente ao que vem, sendo que a ideia passa por manter os espectadores entretidos com uma trama que decorre em velocidade cruzeiro, ideal para todos os tipos de público, inclusivamente quem não liga a videojogos. Consegue-o graças aos dois protagonistas e a um elenco secundário no qual se destaca Joe Keery e o muito peculiar Taika Waititi, que mostra aqui o seu humor absurdo e improvisação, mas não ao ponto de se transformar numa personagem caricatural. Antwan representa o estereótipo do magnata da tecnologia visto por Hollywood, sublinhado pelo toque de loucura de Waititi.

No que diz respeito à componente técnica, o filme tira proveito de ser um mundo tecnicamente pixelizado, o que permite determinadas liberdades em prol do humor que seriam vistas com outros olhos numa superprodução de ação, por exemplo. Em Free Guy, os efeitos visuais são bem integrados e não nos fazem “desligar” da ação, tal como o humor, suficientemente exagerado para nos fazer crer que estamos no mundo de um videojogo, mas não ao ponto de ser uma sátira constante.

Em suma, Free Guy é o típico blockbuster de verão para ver no cinema, na maior sala possível, rodeado por outras pessoas à procura de diversão. Sabe dar-nos o que queremos, sejamos fãs de videojogos ou não. O filme faz rir, impressiona com as cenas de ação e conquista com a emoção tocante que demonstra no final. No entanto, esta superprodução de “típica” não tem nada, porque há muito que não víamos uma ideia original. Numa era de sequelas, reimaginações e outros produtos derivados, é de aplaudir a audácia de arriscar em algo novo, risco que parece ter compensado com o anúncio recente do interesse da Disney numa sequela. É verdade que não é grande elogio afirmar que se trata de um dos melhores filmes sobre videojogos alguma vez feitos, mas trata-se igualmente de uma das películas mais divertidas do ano.

Nota Final: 8/10

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