Análise: R-Type Dimensions III (PC)
Já não é a primeira vez nem a segunda que trago análises a shoot’em ups ao Central Comics. Tivesse eu mais tempo para me dedicar aos jogos e trazia ainda mais, mas há franchises que nos acompanham durante toda a vida enquanto jogadores. No meu caso, R-Type é um deles. Descobri a série pela primeira vez no velhinho ZX Spectrum, numa época em que os shoot’em ups eram um verdadeiro teste à nossa paciência, reflexos e capacidade de memorização. Desde então acompanhei praticamente todas as encarnações da saga, pelo que a chegada de R-Type Dimensions III era um daqueles lançamentos que aguardava com enorme expectativa.
Testei esta nova edição no PC e, apesar de encontrar aqui muito para gostar, também me deparei com vários problemas que impediram o jogo de atingir o nível de excelência que um clássico desta dimensão merece.
Um dos grandes clássicos dos shoot’em ups
Antes de mais, é importante recordar aquilo que está na base desta edição. R-Type III: The Third Lightning, lançado originalmente para Super Nintendo em 1993, continua a ser considerado um dos melhores shoot’em ups de sempre. A sua combinação de design inteligente, padrões de inimigos memoráveis, bosses gigantescos e utilização estratégica dos Force Pods ajudou a transformá-lo numa referência absoluta do género.
Mesmo passados mais de 30 anos, a fórmula continua a funcionar. O ritmo é perfeito, os níveis estão repletos de armadilhas e obstáculos e cada avanço parece uma pequena vitória pessoal. Tal como acontecia nos clássicos da era de ouro dos arcades, não basta disparar sem pensar. É preciso aprender, decorar e adaptar constantemente a estratégia.
A magia de alternar entre 2D e 3D
A principal novidade de R-Type Dimensions III é a possibilidade de alternar instantaneamente entre os visuais clássicos em 2D e uma nova apresentação totalmente recriada em 3D. Esta funcionalidade já existia nos anteriores Dimensions, mas continua a ser uma das características mais impressionantes da série.
Confesso que passei largos minutos a alternar entre os dois estilos apenas para apreciar o trabalho realizado. O modo 2D preserva o aspeto clássico que guardo na memória, enquanto o modo 3D moderniza a apresentação com novos modelos, efeitos de iluminação, animações melhoradas e cenários mais detalhados. E sim, de facto está mesmo bonito, refinado e luminoso.
Existe ainda a possibilidade de ajustar o ângulo da câmara, ativar diferentes filtros visuais, utilizar scanlines, escolher estilos alternativos para o HUD e até experimentar um modo de câmara mais agressivo que inclina a ação para criar maior sensação de profundidade.
Quando o 3D prejudica a jogabilidade
Uma das críticas mais frequentes da comunidade prende-se precisamente com o modo 3D. Embora visualmente apelativo, por vezes torna mais difícil interpretar o que está a acontecer no ecrã. Em vários momentos senti que perdia a noção exata da posição de projéteis, obstáculos e até da minha própria nave devido à quantidade de efeitos visuais presentes.
Num jogo tão exigente como R-Type, onde um único erro significa normalmente a morte, qualquer perda de clareza visual transforma-se imediatamente em frustração.
Também encontrei momentos em que o modo 2D parecia oferecer uma leitura mais clara da ação, especialmente nas secções mais complicadas.
A dificuldade continua brutal
Se alguém pensa que esta nova edição tornou R-Type mais acessível, pode esquecer essa ideia.
A dificuldade continua absolutamente impiedosa. Aliás, continua a ser uma das experiências mais exigentes que podemos encontrar dentro do género shoot’em up. Cada nível exige memorização quase total dos padrões inimigos, domínio do posicionamento da nave e utilização inteligente dos diferentes Force Pods.
Pessoalmente, gosto deste tipo de desafio. Há uma enorme satisfação em finalmente ultrapassar uma secção que me derrotou dezenas de vezes, mas reconheço que a curva de aprendizagem é demasiado agressiva, e num mundo de resultados rápidos que temos hoje em dia, não sei se essa extrema dificuldade poderá afastar jogadores. Até eu por vezes já bufo de frustração quando empanco muito tempo no mesmo sítio.
Felizmente, esta edição inclui várias opções de acessibilidade e modos adicionais que ajudam a suavizar a experiência como a opção “Infinite Mode” que te dá naves infinitas e a continuidade do sítio em que morres e aquele que voltas à vida.
Som e música de grande qualidade
Outro dos pontos positivos é o trabalho realizado ao nível sonoro.
A banda sonora remasterizada tem excelente qualidade e consegue respeitar a identidade musical do original. Os efeitos sonoros também foram reconstruídos e existe a possibilidade de alternar entre áudio clássico e remasterizado, algo que agradeci bastante durante as minhas sessões de jogo. E podes ir à tua jukebox para ouvir os 38:14 minutos da banda sonora, seja a original como as novas versões sem teres de estar a jogar.
Muitas opções de personalização
Um dos aspetos que mais gostei foi a quantidade de opções disponíveis. Posso personalizar controlos, escolher diferentes modos visuais, alterar a apresentação gráfica, definir opções da câmara, selecionar bandas sonoras clássicas ou remasterizadas, ativar diversos filtros e experimentar diferentes configurações de jogo. Existe ainda suporte para cooperativo local e outras funcionalidades modernas que ajudam a adaptar a experiência ao gosto de cada jogador.
Os problemas que a comunidade encontrou
Infelizmente, nem tudo correu bem no lançamento. Desde os primeiros dias surgiram inúmeras críticas por parte dos fãs mais dedicados. Entre os problemas mais referidos encontram-se questões relacionadas com hitboxes pouco precisas, colisões inconsistentes, problemas de desempenho em determinados momentos, algum input lag, falhas sonoras e diferenças de comportamento relativamente ao jogo original. Confesso que não me apercebi de algumas delas, mas outras posso confirmar que me aconteceram.
No entanto, pouco antes de publicar esta análise, a ININ Games divulgou uma declaração oficial reconhecendo as críticas da comunidade e confirmou que analisou cuidadosamente o retorno dos jogadores e que já está a trabalhar numa série de atualizações que serão lançadas ao longo de junho e julho. A empresa revelou ainda que está a colaborar diretamente com membros veteranos da comunidade R-Type para validar correções e melhorias antes da sua implementação definitiva.
Outra decisão importante foi o adiamento da produção física até que os problemas identificados sejam resolvidos. A editora pretende que as futuras versões em disco e cartucho representem a melhor versão possível do jogo, algo que certamente será apreciado pelos colecionadores.
Considero esta atitude extremamente positiva e por isso fez subir umas décimas na minha avaliação final
Veredicto
Apesar de tudo R-Type Dimensions III acaba por ser uma homenagem sincera a um dos maiores clássicos da história do género.
A possibilidade de alternar entre 2D e 3D continua fascinante, a jogabilidade de base mantém toda a genialidade do original, a banda sonora está excelente e as opções de personalização são abundantes.
No entanto, as falhas de precisão, alguns problemas de desempenho e certas decisões na adaptação para 3D impedem esta edição de atingir o patamar que os fãs mais exigentes esperavam.
Ainda assim, sabendo que a ININ Games já está a trabalhar ativamente em várias correções, acredito que o futuro de R-Type Dimensions III poderá ser bastante mais brilhante do que o seu lançamento deixou antever.
Classificação: 7/10
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Co-criador e administrador do Central Comics desde 2001. É também legendador e paginador de banda desenhada, e ocasionalmente argumentista.



