Análise BD: Apocalipse – A Revelação de São João
Entre os álbuns de BD mais impressionantes lançados pela Sergio Bonelli Editore, traduzidos para português e publicados em território nacional por A Seita, um dos que mais se destaca é Apocalipse: A Revelação de São João. Esta obra fenomenal conta com a escrita de Alfredo Castelli (1847 – 2024) e a arte de Corrado Boi (1958), conhecido por trabalhar na série Dylan Dog.
O traço reconhecido de Corrado Boi, através das suas atmosferas escuras, jogos de sombras e ambientes carregados de mistério foi mais do que adequado a esta adaptação de um livro que é tido como um dos mais enigmáticos da História da Humanidade.
O que tem o Apocalipse de distinto? Não se trata pura e somente de um conjunto de textos religiosos reunidos ao Novo Testamento, mas antes de uma obra de elevada carga simbólica que escapou à total compreensão de todos aqueles que procuraram decifrar a sua linguagem ou compreender o seu significado em absoluto, associada às visões proféticas de João de Patmos (reconhecido por muitos como o próprio São João Evangelista.)
Marcou personalidades tão distintas como Isaac Newton, Aleister Crowley e Jorge Luís Borges, que também surgem nesta BD, já que cada um procurou ser intérprete dos seus segredos. Apocalipse vem do grego «apokálypsis» que significa «revelação» mas, como muitos bem sabem, o livro apresenta-se com uma linguagem cifrada ou antes um jogo de palavras que seria mais comum a um grimório mágico do que propriamente a algo revelado, o que explica continuar cativar o interesse de ocultistas.
Claro que para muitos o Apocalipse continua a ser um livro explicitamente profético, descrevendo cataclismos, mudanças e eventos futuros que anunciam o fim dos tempos. Para outros celebra sobretudo a vitória de Deus no tempo e na eternidade, através de uma elevada expressão simbólica, mas praticamente litúrgica.
Mas não são poucos os que consideram um conjunto de alegorias utilizadas para descrever uma dada série de eventos que tiveram lugar no tempo de João, como o reconhecimento do imperador Nero como o «Anticristo» e as perseguições dos cristãos pelos romanos. Por outro lado, há sempre quem aponte que o livro do Apocalipse escrito por João é uma readaptação de textos mais antigos, provenientes da época da libertação do cativeiro dos judeus na Babilónia e que a sua obra, adulterada, serviria posteriormente para uso da propaganda cristã.
Ainda que possa ser discutível o verdadeiro propósito do livro do Apocalipse, o certo é o leitor não pode deixar de se fascinar por todo o imaginário presentes em confrontos sobrenaturais, eventos catastróficos, dilúvios de fogo e sangue, nos demónios, nos anjos, nos dragões e nas bestas, que surgem através de textos vários.
Não segue uma narrativa clara, totalmente conexa, mas contém episódios «mítico-proféticos», prenúncios e descrições codificadas que impressionam. Ainda que tenha vindo a ser tratado como um livro religioso, merece ser também considerado como uma obra de literatura fantástica, não circunscrita à mera visão de catástrofe ou do fim do mundo, ainda em que tal se aspire à ressurreição dos mortos, ao dia do juízo e o triunfo de Deus (para judeus e cristãos.)
O álbum de capa dura, Apocalipse: A Revelação de São João, traduzido para português por A Seita, faz parte da coleção Nona Literatura. Tem mais de 100 páginas de BD a preto e branco, acompanhada de outras ilustradas com um texto de Alfredo Castelli sobre o Apocalipse, descrevendo a sua representação ao longo de vários séculos através da Arte Ocidental e de várias obras ilustradas, literárias e até cinematográficas, não sendo um tema estranho ao mundo da BD.
Contou com a tradução de Mário João Marques, a revisão de José de Freitas e Arnaldo Pedro, o grafismo e a legendagem de Marcin Samojtowicz, além da coordenação de José Artvig de Freitas e a colaboração dos editores João Miguel Lameiras, José Pedro Castello Branco e Luís Taklim.
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Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural





