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Late Fame (2026) – Cai fama em Nova Iorque

Willem Dafoe é um daqueles atores que possui um ar tão singular que, paradoxalmente, se confunde com qualquer personagem que interprete. Seja num tempo antigo ou na contemporaneidade, o seu semblante e o talento que esbanja carregam uma verdade tão singela quanto hipnotizante.

Em Late Fame, o novo filme de Kent Jones escrito por Samy Burch, o ator, Ed Saxberger enquanto personagem, passeia por uma Nova Iorque moderna e fria como fantasma do que foi e reflexo do que a realidade o forçou a ser. Poeta de vocação nos idos anos 70 e agora agente dos serviços postais em Manhattan, via tudo decorrer corriqueiramente até que um jovem já-não-tão-jovem assim o interpela à porta de casa e se declara fã da sua única coletânea de poesia, redigida há mais de 40 anos.

Wilson Meyers, trazido às câmaras por Edmund Donovan, vê Ed e fá-lo sentir-se especial, mesmo que este tenha noção do estereótipo em que o bonitinho, arranjadinho e formalinho se insere.

A discussão que o filme pretende suscitar é admirável, mas o retrato pouco subtil, o que não constituiria, necessariamente, um problema. Mesmo não vivendo na Big Apple, boa parte dos alvos permanece evidente e passa por tão reconhecível quanto a vida e o amadurecimento num centro urbano permitem.

Todos os dias, lá ou cá, floresce mais um recém-licenciado, herdeiro e bastião (ou assim se julga) de um legado artístico e independente. A sua aspiração cultural revela uma ingenuidade bem maior do que a conveniente distração sobre o número de zeros que compõe o saldo da sua conta bancária familiar, enquanto lhe permite depositar toda a energia numa farsa ambulante nutrida por um passado que lhe escapa literal e metaforicamente.

Meyers e o seu seio de amigos e seguidores, autodenominado The Enthusiasm Society, floresceram assim e concordam unanimemente na qualidade literária que compete ao veterano poeta, destratado por uma sociedade em decadência e refém da era digital do capitalismo.

Ao incluí-lo em convívios tardios e na na tertúlia que planeiam realizar em breve, ressuscitam-lhe a fantasia cuja dissipação o havia feito deixar de fumar, só para agora o ver gastar quase 20$ num maço de cigarros e num isqueiro (despesa adequada à aura jovem e ao histórico crescente da inflação).

A troca das noites com os velhos amigos num pequeno bar pelas sessões de conversa pseudointelectuais dos novos e os telefonemas da irmã sobre o irmão doente fazem transparecer uma pessoa enfadada que, sem se dar conta, há muito ansiava pelo que lhe vai acontecendo.

O realizador faz-nos acompanhar a sua jornada pelo fechar de olhos em prol do próprio endeusamento, confiando nas melodias subtis de Don Fleming e na assertiva fotografia de Wyatt Garfield, que, unidas, espelham a narrativa de uma cidade e um estado de espírito marcados pela hipocrisia e pela sobrissimplificação cultural não apenas à americana, mas também à 2026, onde a inteligência artificial segue como sombra veloz a arte e os nichos nas redes sociais escancaram portas, tornando quase tudo acessível, independentemente das intenções ou da (capacidade de) compreensão.

Ao lado deste grupo surge ainda Greta Lee, que fez furor no drama romântico Past Lives, de Celine Song, e veste aqui a pele de Gloria, a musa madura que simboliza o glamour superficial que se associa a uma qualquer era de Nova Iorque, entretanto sucessivamente esquecida e reinventada por atores e atrizes, artistas dotados de um brilho próprio, contudo falível ao primeiro toque de intimidade. Seja Ed, um conviva da Enthusiasm Society ou outro homem qualquer, todos eles terão o que levar da companhia de Gloria, desde encanto por proximidade a encantamento por afagos ao ego. A questão é que Ed reconhece nela algo mais profundo do que espampanante e, quer seja verdade, quer não, nem ele nem nós chegamos a saber. O certo é que é junto da personagem de Lee que vive alguns dos momentos mais inspirados do filme, com a atriz a sacudir qualquer irritação inicial que pudesse existir sobre a sua abordagem ao papel e a deslumbrar o público intra e extrafílmico com a sua entrega em Surabaya Johnny, canção datada e alusiva aos anos 20, de onde, por vezes, Gloria parece ter emergido.

No resto, todavia, Late Fame peca por alguma banalidade criativa e subtramas inconsequentes, pormenores que, de certo modo, acabam por adquirir um peso semelhante ao da devoção fabricada perante o vazio mundano em que o protagonista sempre habitou. Afinal, ninguém quer mesmo saber de um livro de poesia escrito por um autor desconhecido há tanto tempo.

Classificação: 6/10

Fascinado por cinema desde cedo, começou pelas cassetes VHS de casa da avó e acabou a colecionar figuras de clássicos dos anos 80. Hoje, vê cada filme com a mesma curiosidade de então.

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