Análise | Fire Emblem: Fortune’s Weave – O Fire Emblem mais ambicioso de sempre
Fire Emblem: Fortune’s Weave chega à Nintendo Switch 2 com uma escala gigantesca e uma ambição que raramente encontramos no género.
Jogo: Fire Emblem: Fortune’s Weave
Disponível para: Nintendo Switch 2
Versão testada: Nintendo Switch 2
Desenvolvedora: Inteligent Systems, Nintendo
Editora: Nintendo
Há algo de particularmente perigoso em Fire Emblem: Fortune’s Weave. Não porque seja um jogo hostil, mas porque sabe exactamente como ocupar o nosso tempo. Isto porque este novo capítulo troca parte da densidade narrativa de Three Houses por um loop de gameplay mais refinado, uma enorme liberdade de gestão e uma estrutura construída para nos manter agarrados durante dezenas, e dezenas, e dezenas de horas. Uma única rota pode aproximar-se das 70 horas mesmo a jogar de forma apressada, enquanto explorar todo o conteúdo pode ultrapassar facilmente as 160 ou 200 horas. É uma escala mais próxima de Persona 5 Royal ou Metaphor: ReFantazio do que aquilo que normalmente associamos a Fire Emblem.
A história leva-nos até Dagda, no mesmo universo de Three Houses, com Dagsion como centro da aventura. É aqui que conhecemos Eshmel, o avatar criado pelo jogador, e os quatro Flame Lords, Cai, Dietrich, Theodora e Leda. Cinco anos depois de uma catástrofe que ameaça destruir o mundo às mãos de Balor, Eshmel regressa ao passado para alterar diferentes realidades através dos Heroic Games, um torneio cujo vencedor recebe um desejo do Divine Sovereign, Solel.
A ideia é forte e a estrutura das quatro rotas é uma das maiores apostas do jogo. Cada protagonista oferece uma perspectiva diferente e as revelações de uma campanha ajudam a reinterpretar acontecimentos, personagens e mistérios das restantes. Fortune’s Weave quer que joguemos mais do que uma vez, e essa intenção está presente em praticamente todos os seus sistemas.
Cai privilegia a exploração, a recolha de materiais, a captura de animais e a progressão de classes através de mentoria. Dietrich é praticamente o oposto, procurando adversários poderosos para duelos que desbloqueiam novas Combat Arts. Theodora introduz o barco, os Battalions e uma gestão mais orientada para recursos e Renown. Leda aposta na sua classe Dancer, nas actuações pelas cidades e numa vertente mais artesanal, sendo também o grupo com algumas das melhores dinâmicas entre personagens.
A gestão do tempo é o verdadeiro coração da experiência. Cada capítulo oferece um número limitado de turnos, com cada dia dividido em quatro momentos. Explorar o mapa de Dagda, melhorar personagens, treinar classes, comprar equipamento, recrutar mercenários, procurar dungeons ou desenvolver Supports significa gastar recursos preciosos. O sistema é familiar a quem jogou Persona, mas Fortune’s Weave adapta-o ao ADN de Fire Emblem com resultados surpreendentemente viciantes.
O combate mantém a base SRPG, mas substitui o tradicional triângulo de armas por um sistema de vantagens específico. Espadas favorecem ataques consecutivos, lanças castigam unidades montadas, machados garantem dano mínimo, arcos são particularmente fortes contra unidades voadoras e gauntlets aumentam a evasão. A personalização é enorme, com classes, weapon experience, habilidades equipáveis e até competências especiais associadas às montadas.
Os Flame Lords têm ainda acesso às Blaze Arts, habilidades extremamente poderosas ligadas a uma Blaze Gauge que pode consumir vida. É aqui que entra um excelente sistema de risco e recompensa, já que abusar do medidor penaliza o jogador, enquanto atingir o momento certo desbloqueia o Overblaze e transforma essas habilidades em ferramentas ainda mais perigosas.
As dungeons também apresentam uma abordagem diferente, abandonando o clássico mapa táctico por secções 3D de exploração activa. Os combates continuam a ser por turnos, mas decorrem fora da grelha tradicional, com cinco membros a partilharem uma única barra de vida. O LP, necessário para ataques de ligação, é extremamente limitado, obrigando a uma gestão constante dos recursos.
Tudo isto ganha outra dimensão na Nintendo Switch 2. Fortune’s Weave é um enorme salto visual face a Three Houses e Engage, apresentando modelos 3D estilizados que reproduzem muito bem a arte de Chinatsu Kurahana. O jogo aponta aos 30fps e mantém, no geral, uma performance estável, embora existam alguns momentos de alguma irregularidade. A banda sonora também merece destaque, sobretudo nos combates de Dietrich, enquanto a interpretação vocal ajuda bastante a dar personalidade a um elenco acessível e carismático.
Mas esta ambição também expõe algumas fragilidades. A narrativa perde consistência com saltos temporais pouco elegantes, acontecimentos importantes que decorrem fora do ecrã e alguns buracos de argumento. A estrutura das rotas funciona melhor enquanto conceito do que enquanto execução narrativa, sobretudo quando chegamos à Parte 2 e somos obrigados a repetir os mesmos mapas quatro vezes para alcançar a Parte 3.
O problema torna-se ainda mais evidente no final. Nas últimas 10 a 15 horas, há momentos em que simplesmente já não existem actividades interessantes para preencher o calendário. Repetir dungeons e conteúdos secundários pode transformar uma experiência gigantesca numa experiência cansativa. Até os Supports sofrem com esta estrutura, já que gerir tempo, exploração e progressão torna difícil desbloquear organicamente todas as conversas de nível A numa primeira passagem.
Resta concluir que, Fire Emblem: Fortune’s Weave é uma aposta impressionante. A Inteligent Systems conseguiu juntar a escala de Three Houses, o espectáculo visual de Engage e uma camada de gestão que torna quase cada turno relevante. Nem tudo resulta, sobretudo quando a repetição começa a pesar, mas poucos RPGs tácticos conseguem criar esta sensação de descoberta, progressão e investimento.
Nota: 9/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.






