Análise | The Royal Writ: Um deckbuilder onde perder é estratégia
The Royal Writ leva o género roguelike deckbuilder para um reino medieval onde cada carta perdida pode ser tão importante como a próxima vitória.
Jogo: The Royal Writ
Disponível para: PC, PlayStation 5, Nintendo Switch, Xbox Series
Versão testada: Nintendo Switch
Desenvolvedora: Save Sloth Studios
Editora: Yogscast Games
Há uma coisa que adoro nos roguelikes: aquela sensação de que uma run pode durar cinco minutos ou transformar-se numa obsessão de várias horas. Jogos como Spelunky, Vampire Survivors e Balatro vivem precisamente dessa mistura entre conhecimento, improviso e azar. The Royal Writ, disponível na Nintendo Switch, entra nesse território com uma proposta bastante própria, trocando fichas de poker por um exército de animais e colocando um rei extravagante no centro de uma campanha medieval tão absurda quanto divertida.
À primeira vista, o sistema de combate parece simples. Em cada turno, retiramos unidades do baralho e colocamo las numa de três linhas disponíveis. As unidades azuis causam dano directo, enquanto as vermelhas funcionam como multiplicadores, e quando terminamos o turno todo o exército avança em direcção ao inimigo. É aqui que começa a verdadeira graça, porque as colunas mais avançadas oferecem multiplicadores adicionais e algumas casas alteram completamente o resultado, com pontes que aumentam o poder ou armadilhas capazes de inutilizar uma unidade.
O problema é que The Royal Writ despeja muita informação sobre o jogador durante as primeiras horas. Entre efeitos, posições, multiplicadores e habilidades específicas, há momentos em que parece necessário aprender o jogo à custa de sucessivas derrotas. Quando finalmente começamos a perceber como tudo encaixa, porém, o sistema ganha outra dimensão.
As sinergias são particularmente importantes. As formigas ficam mais fortes quando acumuladas, enquanto outras unidades podem ganhar poder permanente ao ocupar determinados espaços. Também existem cartas que podem ser sacrificadas, feridas ou simplesmente desaparecer para sempre. E esta é uma das ideias mais interessantes do jogo: ao contrário de outros deckbuilders, não estamos apenas a construir um baralho perfeito. Estamos constantemente a tentar reconstruí lo depois de uma batalha violenta.
Entre combates, os caminhos ramificados permitem apostar em melhorias, trocar dentes das unidades por artefactos ou investir no próprio campo de batalha. Há uma boa dose de experimentação e várias soluções possíveis para uma mesma situação, o que ajuda a manter as runs imprevisíveis. Pena que a curva de aprendizagem seja tão agressiva.
Depois de concluirmos o primeiro acto, The Royal Writ ainda guarda um segundo golpe. Surge uma nova mecânica baseada em projécteis disparados pelos inimigos, obrigando nos a proteger as unidades ou o próprio rei. É uma mudança interessante, embora também torne uma experiência já exigente ainda mais castigadora.
Visualmente, o jogo conquista com uma estética de livro ilustrado medieval, cheia de cores, criaturas estranhas e humor negro. É um contraste feliz com a brutalidade das mecânicas e ajuda a dar identidade a um género onde tantos jogos acabam por parecer semelhantes.
The Royal Writ tem ideias muito boas, bastante conteúdo e uma identidade própria. Nem sempre sabe ensinar o jogador da melhor forma e o arranque pode ser um verdadeiro teste à paciência, mas quem ultrapassar essa barreira encontra um deckbuilder denso, inventivo e surpreendentemente viciante.
Nota: 7/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.




