Central Comics

Notícias, críticas e novidades de banda desenhada, cinema, séries, animação, videojogos e cultura geek desde 2001.

Crítica | Bad Apples: Uma comédia negra no caos escolar

Em Bad Apples, Saoirse Ronan protagoniza uma comédia negra, no contexto escolar, no que é um dos seus papéis mais cativantes desde em anos.

O sistema escolar, mais do que nunca, parece sobrecarregado por crianças que vivem num mundo em que a atenção é constantemente disputada por mil e uma distrações, tornando a vida dos professores cada vez mais difícil. Em Bad Apples, o novo filme de Jonatan Etzler, somos confrontados com uma comédia negra que expõe as fragilidades das relações pessoais e do contexto escolar.

Uma professora à beira de um ataque de nervos

Acompanhamos Maria Spencer (Saoirse Ronan), uma professora do ensino primário que tem dificuldade em lidar com Danny (Eddie Waller), um aluno problemático cujas explosões repentinas de raiva causam diversos incidentes. Quando Danny ataca Maria, ela acaba por raptá-lo e levá-lo para casa, enquanto assiste à transformação da comunidade escolar na ausência do aluno.

Baseado no livro de Rasmus Lindgren, o filme apresenta uma adaptação aliciante, sobretudo pela forma como trabalha uma premissa clássica e lhe acrescenta elementos relativamente originais. A narrativa explora as fragilidades da comunidade escolar e abre espaço para uma reflexão incómoda sobre o papel dos professores na vida dos alunos. Maria encontra-se numa situação difícil e resolve o problema com uma solução absolutamente fora da caixa; é precisamente aí que reside a comédia, que nos leva a perguntar se deveríamos, de facto, estar a rir.

Uma crítica social à beira da sátira para apontar os defeitos de um sistema quebrado

Ao longo do filme, nós, espectadores, somos desafiados a avaliar a nossa própria empatia perante uma situação deste género. A história é sustentada por personagens com mais dimensão do que aparentam à primeira vista, sobretudo Danny. Por detrás da sua volatilidade, há também um lado vulnerável que complica a ideia inicial de que é apenas malicioso. Ainda assim, mesmo com alguma nuance, a personagem parece ficar aquém do potencial dramático que tinha, e teria beneficiado de uma exploração mais aprofundada da sua personalidade e de uma maior ligação emocional com o público.

Grande parte da comédia nasce da forma como olhamos para a situação e de como o filme aborda, com humor, um acontecimento profundamente desconfortável. As reações das personagens nem sempre obedecem à lógica mais previsível, e a obra inclina-se mais para a sátira social do que para uma mera comédia de choque. Nesse sentido, o filme funciona como um alerta para as consequências de instituições subfinanciadas que, ao não reconhecerem nem resolverem os seus problemas, podem empurrar pessoas comuns para escolhas catastróficas.

Saoirse Ronan em grande destaque

Ainda assim, Bad Apples tende a apresentar a sua crítica de forma demasiado generalizada. Muitas das dinâmicas são desenvolvidas apenas a meio caminho: o suficiente para transmitir a mensagem, mas não para lhe dar a profundidade que a premissa exigia. O contexto é mais provocador do que a própria exploração narrativa das suas ideias.

No final, Bad Apples é uma comédia com uma acidez bem-vinda, com Saoirse Ronan num dos seus papéis mais cativantes desde Lady Bird. O filme obriga-nos a olhar para a forma como o sistema escolar está a afetar as crianças do futuro, através de uma perspectiva crítica, desconfortável e, por vezes, perversamente cómica.

Nota Final: 7/10

Ricardo Du Toit

Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Verified by MonsterInsights