Central Comics

Notícias, críticas e novidades de banda desenhada, cinema, séries, animação, videojogos e cultura geek desde 2001.

Análise | Hazard Pay: Uma limpeza de sangue feita de puzzles e decisões difíceis

Hazard Pay transforma limpeza de cenas de crime num puzzle macabro, criativo e desafiante, mas nem sempre tão afinado como gostaria.

Hazard Pay

Jogo: Hazard Pay
Disponível para: PC, PlayStation 5, Nintendo Switch
Versão testada: Nintendo Switch
Desenvolvedora: Smitner Studio
Editora: Numskull Games

Hazard Pay

Hazard Pay parte de uma ideia tão estranha quanto apelativa: e se trabalhar numa equipa de limpeza de acidentes biológicos fosse, na realidade, um gigantesco puzzle à la Sokoban? Neste jogo desenvolvido em Godot, somos um funcionário descartável da IPT, uma corporação sinistra responsável por incidentes que alguém prefere manter bem escondidos. Estamos em 1982, num mundo distópico em ruínas, e a nossa missão é simples, limpar tudo, destruir provas e não deixar vestígios.

A narrativa funciona sobretudo através do ambiente e das transmissões de rádio. Nunca vemos quem nos dá ordens, nunca conhecemos verdadeiramente a empresa e essa ausência de rostos cria uma sensação desconfortável de anonimato. Há uma crítica evidente à cultura corporativa, aos encobrimentos e à facilidade com que pessoas comuns podem tornar-se cúmplices. O problema é que Hazard Pay nem sempre sabe aprofundar essas ideias, preferindo insinuá-las através de documentos e pequenos detalhes espalhados pelos cenários.

É na jogabilidade que está o verdadeiro interesse. Cada nível apresenta um espaço compacto, construído à mão, onde empurrar e puxar objetos exige planeamento. Há cadeiras colocadas nos piores sítios possíveis, obstáculos que limitam a circulação e perigos ambientais prontos a castigar qualquer erro. O sistema de pegadas ensanguentadas é particularmente interessante, porque atravessar uma poça deixa sangue no chão e obriga-nos a limpar também o nosso próprio rasto. É uma pequena ideia que transforma uma tarefa banal numa preocupação constante.

Hazard Pay

Depois surgem soluções mais inventivas, desde roupas transformadas em materiais improvisados até líquidos condutores usados para ligar circuitos e abrir portas. Também podemos eliminar restos e evidências em barris químicos ou tanques de ácido. Tudo isto cria puzzles com alguma personalidade, embora a dificuldade por vezes pareça mais irritante do que inteligente. Certos layouts abusam da obstrução espacial e uma tentativa falhada pode significar repetir demasiado trabalho.

O sistema de pontuação acrescenta uma camada competitiva interessante. Cada passo conta, os tempos podem ser optimizados e as tabelas de classificação globais e entre amigos incentivam a repetição. O reinício rápido através da tecla R também ajuda bastante, sobretudo quando uma decisão mal calculada nos deixa presos numa posição impossível.

Hazard Pay

Hazard Pay tem boas ideias, uma identidade visual em pixel art bastante competente e uma banda sonora que acompanha bem o ambiente decadente. Ainda assim, fica a sensação de que existe um jogo melhor escondido dentro deste. Quando acerta, é engenhoso e surpreendentemente divertido. Quando falha, parece apenas um puzzle a tentar ser incómodo. Interessante, sim, recomendável para fãs do género, mas longe de ser indispensável.

Nota: 6/10

António Moura

Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Verified by MonsterInsights