Análise – The Sinking City 2: Sobrevivência a Lovecraft
The Sinking City 2 troca a investigação em mundo aberto pelo survival horror e encontra uma fórmula mais claustrofóbica, mas nem sempre equilibrada.
Jogo: The Sinking City 2
Plataforma Disponível: PC, PlayStation 5, Xbox Series
Plataforma testada: PlayStation 5
Desenvolvedor: Frogwares
Editora: Frogwares
Há mudanças que parecem arriscadas no papel, mas fazem sentido quando finalmente pegamos no comando. The Sinking City 2 é uma delas. A Frogwares abandona o mundo aberto e a investigação como eixo central do primeiro jogo para abraçar um survival horror linear, claramente inspirado na abordagem moderna de Resident Evil, sobretudo no remake de Resident Evil 2. É uma transformação considerável, mas que permite ao estúdio explorar o universo lovecraftiano de uma forma mais focada, mais física e, sobretudo, mais assustadora.
A história leva-nos até uma Arkham dos anos 1930, devastada por uma inundação e infestada por criaturas que parecem saídas do pior pesadelo cósmico de H.P. Lovecraft. Calvin Rafferty, um explorador do ocultismo carismático e com um sentido de humor peculiar, vê a sua vida virar do avesso depois de um ritual correr mal. Sem memória dos acontecimentos recentes, descobre que Faye Bennett, a sua noiva, está presa num mundo de sonhos, em coma e com uma misteriosa máscara no rosto. A procura por um livro na biblioteca da faculdade transforma-se, então, numa descida aos segredos mais obscuros de Arkham.
A narrativa alterna entre o presente, onde encontramos um Calvin desesperado e vulnerável, e flashbacks que mostram a relação entre os dois protagonistas. É uma estrutura eficaz para humanizar uma história que poderia facilmente perder-se entre tentáculos, cultos e entidades sobrenaturais. O romance funciona como âncora emocional e reforça uma das melhores ideias do jogo, a exploração do preço da ambição humana perante forças que não conseguimos compreender.
No entanto, é no gameplay que The Sinking City 2 encontra a sua verdadeira identidade. O inventário limitado, organizado numa grelha onde cada objeto ocupa espaço diferente, a escassez de munições, os baús nas Safe Rooms e o crafting recuperam directamente a linguagem clássica do survival horror. Calvin não é um soldado, e isso nota-se. A esquiva torna-se essencial para poupar recursos e sobreviver a encontros particularmente agressivos, enquanto o desaparecimento do stealth do primeiro jogo ajuda a manter o foco no confronto directo.
E que criaturas. Os Rastejantes, vermes gigantes capazes de controlar cadáveres, são apenas o princípio. Stygian, Lethian e Acheronian apresentam designs perturbadores e obrigam-nos a adaptar a abordagem. Muitas vezes, fugir é uma decisão mais inteligente do que disparar. A escuridão, a escassez de recursos e o comportamento agressivo dos inimigos criam uma tensão constante, embora a reduzida quantidade de bosses deixe algum sabor a pouco.
A investigação não desapareceu, apenas mudou de escala. O Quadro de Investigação continua presente, permitindo ligar pistas e resolver enigmas opcionais que recompensam a curiosidade com alguns dos melhores segredos de Arkham. O problema está na estrutura demasiado rígida. As quatro grandes áreas são interligadas, mas não existe a liberdade do primeiro jogo, e avançar demasiado na história pode impedir o regresso a determinadas zonas. Até o barco, uma das imagens de marca da série, acaba reduzido a uma utilização linear durante o primeiro acto.
Visualmente, a Frogwares dá um salto enorme. A Unreal Engine 5 cria uma Arkham húmida, decadente e opressiva, com uma direcção artística que mistura horror gótico e estética noir. O ray tracing contribui para ambientes de grande impacto, embora as animações faciais e algumas expressões denunciem um orçamento inferior ao de uma produção AAA. A banda sonora é excelente, tal como a interpretação de Andrew Wheildon-Dennis e Gemma Whelan. Os efeitos sonoros das armas, contudo, carecem de impacto.
Também existem problemas técnicos. Na primeira metade, o desempenho pode ser excelente, ultrapassando os 150 FPS com Frame Generation, mas a segunda metade sofre com quebras violentas, travamentos e crashes. A falta de algumas opções de qualidade de vida, como atalhos para cura ou organização automática do inventário, também incomoda.
Ainda assim, The Sinking City 2 é uma experiência sólida e uma aposta corajosa da Frogwares. A campanha ronda as 15 horas e acelera demasiado no final, mas consegue transformar o universo de Lovecraft num survival horror competente, tenso e visualmente impressionante. Não substitui o primeiro jogo, nem tenta fazê-lo. É outra interpretação da mesma ideia, mais pequena, mais focada e muito mais interessada em fazer-nos correr para a próxima Safe Room.
Nota: 8,5/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.





