Cinema: Crítica – O Fim de Oak Street
O Fim de Oak Street recupera os dinossauros no cinema com um thriller de ficção científica protagonizado por Ewan McGregor e Anne Hathaway.

Quando pensamos em dinossauros no grande ecrã, e em todas aquelas criaturas monstruosas que povoaram o planeta há mais de cem milhões, automaticamente associamos ao zeitgeist coletivo que foi Parque Jurássico e seus derivados. E, por mais surpreendente que pareça, com as devidas exceções, tal temática ficou encrustada a essa franquia por décadas até ao presente dia. Numa era de ideias recicladas, com tecnologia de efeitos especiais de ponta, é até de estranhar a ausência de dinossauros, tal é a sua força visual e icónica. Mais por força conceptual de J. J. Abrams, que assume o lugar de produtor, há um regresso em forma a estas criaturas jurássicas através de O Fim de Oak Street, realizado, e escrito também, por David Robert Mitchell.

A longa-metragem recorre a um artificio de ficção científica, que parece ser inspirado na série de Twilight Zone, sob uma cidade que é teletransportada misteriosamente para o passado, para justificar a presença de dinossauros nos anos 80 (e vice-versa). O que por si só é uma ideia criativa e que permite tirar a temática dos dinossauros do mundo moderno, dos militares americanos e das experiências de laboratório, que Parque Jurássico/Mundo Jurássico repetiram ad aeternum. No entanto, é impossível fugir ao caráter de sobrevivência e por isso acompanhamos a família Platt, destacando-se nos papéis Ewan McGregor e Anne Hathaway, enquanto progenitores, de dois jovens, que se literalmente no meio deste perigo iminente. O guião segue todos os passos expectáveis que seria de esperar nesta jornada, desde o senso lento de descoberta da situação, ao eventual pânico até à decisão de enfrentá-los e evadi-los, enquanto procuram por respostas. O filme cumpre e vai além nestas primeiros três pontos, tentando sempre dar um twist ao confronto entre humanos e dinossauros, que não tenhamos visto, embora seja impossível não existir uma certa repetitividade. Mas falha redondamente neste último ponto.

Para uns, que ficarão saciados com dinossauros a causar destruição por um bairro de sonho e pacato americano, O Fim de Oak Street cumpre o seu propósito. Para outros como eu, que procuravam no filme algum tipo de desdobramento ou teoria elaborada que explorasse a veia de ficção científica que o filme aparenta querer trabalhar, como por exemplo, entre outros, nas frequentes alusões ao astronomo Carl Sagan, que não levam a lado nenhum, ficarão desiludidos. E o clímax do filme contribuiu imenso para esse sentimento de desfeita, com uma conclusão despachada que chuta para o lado, pontas que a obra levanta por elucidar, como viagens no tempo ou múltiplas realidades. Acredito que J. J. Abrams, com base em entrevistas e conferências de imprensa, tenha tido um papel mais preponderante aqui, representando o tal lado de filme de ação blockbuster, enquanto que Mitchell, com base nos seus trabalhos anteriores, sobretudo O Mistério de Silver Lake
(2018), teria ido mais longe em dar um significado mais profundo.
Seja como for, e focando-me naquilo que o guião e a realização fazem de bom, não há dúvida que existiu vontade de marcar pela diferença. Começando pelo facto de trabalhar em cima da forja de um quase filme de horror, em que assistimos a pessoas indefesas e despreparadas a ser trucidadas e devoradas por criaturas quatro vezes o seu tamanho e força, em cenas brutais, em sentido literal. E não há somente as espécies de dinossauros mais icónicas, há toda uma mão cheia de criaturas do cretáceo e jurássico, como equivalentes a tartarugas, cobras e outros. Algo refrescante que contribui para não estarmos a ver os mesmos pterodátilos e velociraptores , embora também tenham o seu devido espaço. A nível técnico, o escopo do que é apresentado, é beneficiado pelo formato IMAX, e de resto não tenho assim nada de relevante a apontar.

Em jeito de conclusão desta curta crítica, O Fim de Oak Street poderia ter sido um marco interessante na ficção científica da atualidade, opta por se destacar no quesito de filme de ação envolvendo dinossauros, beneficiando de anos de saturação por parte da franquia rainha. E está tudo ótimo com isso, no geral, e apesar das minhas reticências face ao desfecho, o filme assume o seu lugar enquanto blockbuster de ação de verão e entretém, o que é o mais importante neste género.
Nota: 6/10
Alguém que vê de tudo um pouco, do que se faz no mundo da Sétima Arte, um generalista por natureza. Mas que dispensa um musical ou comédia
