Cinema: Crítica – Her Private Hell – Viagem ao Inferno
Nicolas Winding Refn regressa ao grande ecrã com Her Private Hell – Viagem ao Inferno, num thriller futurista protagonizado por Sophie Thatcher.
Nicolas Winding Refn tem uma carreira que muitos poderão considerar invejável. Se Drive: Risco Duplo é um clássico de culto moderno, The Neon Demon é um festim visual de terror inesquecível, o que faz do cineasta dinamarquês um autor de identidade muito própria, com um estilo único já estabelecido e cujas obras são altamente antecipadas. Para além de ter revelado este ano que esteve morto durante 25 minutos antes de voltar à vida, a estreia de Her Private Hell – Viagem ao Inferno afirma-se como um muito aguardado regresso ao grande ecrã.

Quando uma névoa misteriosa invade uma cidade futurista, acompanhamos a vida de Elle (Sophie Thatcher), uma jovem modelo e atriz que se vê envolvida numa missão para encontrar o pai, cruzando-se com um soldado perdido que tenciona trazer a filha de volta do Inferno.
Tal como The Neon Demon, estamos perante um filme que capitaliza os visuais neon e uma narrativa que cruza o cyber noir com o giallo futurista, repleta de personagens intrigantes e com uma abordagem muito intencional à forma como a história é contada. O espectador é literalmente lançado para o meio de algo que suscita de imediato uma curiosidade muito natural para perceber onde tudo irá desembocar, e Refn faz questão de abordar o argumento de uma forma ambiguamente linear.
Se, por um lado, acompanhamos os dramas de Elle, sempre rodeada por tensões familiares e emocionais, ao lado da sua madrasta e antiga melhor amiga, Dominique (Havana Rose Liu), que casa com o pai dela, o produtor de cinema Johnny Thunders (Dougray Scott), por outro somos também conduzidos pela história de Private K (Charles Melton), um soldado americano no Japão que embarca numa jornada violenta para salvar a filha do Inferno, para onde foi levada pelo misterioso Homem de Cabedal.

Esta mescla narrativa, que corre em paralelo, é bastante cativante, sobretudo quando nos apercebemos de que ambos estão em rota de colisão iminente, transformando tudo numa experiência completamente satisfatória e verdadeiramente fascinante.
As atuações memoráveis de um elenco com personalidades fortes, as cores saturadas e a banda sonora de Pino Donaggio são aplicadas numa obra cujas influências, orgulhosamente assumidas – de John Carpenter a Dario Argento -, fazem com que muitas das decisões criativas, que noutros autores poderiam ser consideradas audazes, se tornem aqui uma natural extensão de tudo aquilo que Refn faz e representa.
Talvez a sua ausência de uma década do grande ecrã tenha suscitado alguma vontade de explorar ainda mais estes temas e visuais, mas, mais do que nunca, estamos perante um cineasta que não tem receio de ser genuíno na sua forma de fazer cinema e de deixar uma marca duradoura, com uma carreira repleta de obras que merecem múltiplas visitas e interpretações.

Assim, Her Private Hell – Viagem ao Inferno é um regresso verdadeiramente fascinante de um autor que revela um cuidado muito íntimo por esse canto do cinema de género que adoraríamos ver mais explorado e que aqui nos dá a oportunidade de apreciar cada detalhe de um universo que tanto tem para oferecer.
Nota Final: 8/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.

