Análise BD: Tales From Nevermore
Irresistível para os leitores que apreciam todo o género de BD que procura homenagear os clássicos de literatura gótica, como os contos de Edgar Allan Poe (1809 – 1849), Tales from Nevermore é uma antologia de seis contos de suspense e terror da autoria de Pedro N. (1986) e Manuel Monteiro (1996). Contando já com uma segunda edição, o álbum conta com um reconhecimento notável em Portugal: Ganhou o Prémio de Obra Revelação no Festival Amadora BD 2025, o Prémio Adamastor de Ficção Fantástica em BD no Fórum Fantástico 2025 e é Vencedor da Melhor Edição de Banda Desenhada de Vinhetas d’Ouro 2025.
O justo reconhecimento de Tales from Nevermore provém não só do impacto que a BD teve a nível temático. Ousa explorar o horrível através da qualidade das histórias curtas e dos desenhos a preto e branco, ricos em detalhes, ao longo de 96 páginas que contam com uma arte rigorosa e expressiva combinada com elementos do melhor nível de ilustração. Em rigor absoluto, remete-nos para uma atmosfera da exposição de um mundo de segredos que espelham a falência e a crueldade humana através da ficção, ainda que interpretativa das potencialidades obscuras de existências reais. O tom fúnebre de Tales from Nevermore celebra a dimensão do nefasto como se de uma assombração se tratasse.
O macabro, o insólito e o trágico perpetuam-se através dos seis contos que têm como narrador o corvo Vicent, mais que predisposto a explorar as histórias por detrás do cemitério de Nevermore. O nome ficcional surge como referência direta ao poema narrativo de Poe «O Corvo» (1845) que visita um homem que lamentava a perda da sua amada e o conduz à loucura repetindo sucessivamente a expressão «nevermore» ou «nunca mais.» Surgem deste modo as histórias sombrias de loucura, violência, traição e vingança capazes de prender os leitores que se rendem ao prazer de contar com o inesperado.
Em resumo, temos seis histórias com os títulos em inglês:
- Lisandra: Uma história de vingança envolve Lisandra, filha de um nobre que a rejeitou.
- A True Angel: A tragédia de um artista que acaba por ser vítima da sua própria obra, resultante de uma atrocidade cometida pelo próprio.
- 26-10-1976: A história chocante que envolve um diário amaldiçoado.
- Family Ties: O naufrágio de dois irmãos conduz a um evento brutal que recorda o homicídio de Abel às mãos de Caim.
- Reaper’s Bride: Revela o destino de uma mulher que aceitou casar com a Morte.
- Cursed Grip: Explora os resultados da adoção de uma criança morta por uma mulher idosa.
Se Tales from Nevermore merece ser respeitado como um álbum que bebe da melhor inspiração proporcionada pelos contos góticos, com ênfase no conflito entre a razão e a irracionalidade retidas em cenários de carácter misterioso ou sobrenatural, revela-se um profundo e criativo exercício da exploração intensa da morte, da corrupção moral e do declínio das personagens que insinuam um legado igualmente decadentista, de elevado potencial introspectivo. A intensidade da tragédia pontua-se pelos elementos e sentimentos mórbidos, eficazes em todos os aspetos.
Tales from Nevermore é um álbum de capa dura (estampada e com recortes) publicado pela editora Ala dos Livros, do tamanho 210×285, e tem mais de 90 páginas «sombrias» (a preto e branco, como já foi descrito). Além do argumento de Pedro N. (Nascimento) e Manuel Monteiro, o livro conta com o desenho de Pedro N. (Nascimento), o design de balões de Hugo Teixeira, a paginação, o trabalho gráfico e legendagem de Susana Resende, o trabalho de revisão de Helena Romão e a colaboração do editor Ricardo Magalhães Pereira.

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural





