Análise BD: O Meu Amigo Kim Jong-Un
A autora sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim, reconhecida por obras marcantes como A Espera e Erva, regressa com mais um romance gráfico — O Meu Amigo Kim Jong-Un, publicado em Portugal pela Iguana.
A autora investigou a fundo a figura de Kim Jong-Un, recorrendo a entrevistas com jornalistas, o seu antigo cozinheiro japonês, um amigo ocidental com quem jogava basquetebol nos tempos de estudante na Suíça, uma mulher norte-coreana e até o ex-presidente sul-coreano Moon Jae-in. Gendry-Kim analisou também as relações familiares e amorosas do ditador, ouviu os seus discursos e traçou um retrato complexo e humano de uma figura envolta em segredo e poder.
A narrativa é contada na primeira pessoa, como já vimos em trabalhos anteriores de Gendry-Kim, onde ela é uma personagem da sua própria BD, mas também vai saltando fora deste tipo de narrativa para nos trazer momentos importantes sobre o ditador que, de outra forma, seriam mais difíceis de apresentar.
O Meu Amigo Kim Jong-Un difere um pouco das obras anteriores da autora sul-coreana. O livro alterna a banda desenhada convencional com arte sequencial e uma espécie de livro gráfico documental, sendo, por isso, muito específico em mostrar dados e factos históricos.
Keum Suk Gendry-Kim continua fiel à sua sensibilidade artística e narrativa. No entanto, o seu traço expressivo em pinceladas de tinta negra é aqui bem menos evidente do que, por exemplo, na sua grande obra Erva. A arte é menos detalhada e mais estilizada, com muitas áreas em branco e pouco interesse em pormenorizar os fundos. Para contrabalançar, temos a aplicação de duas cores — um lilás-acinzentado e um verde-água — que ajudam nos destaques, mas também em alguns contrastes que poderiam ter sido feitos com a tinta-da-china.
O “Meu Amigo” no título pode induzir em erro, levando a pensar que Gendry-Kim pretende humanizar o ditador, por exemplo, mas a verdade é que oferece uma crítica delicada, embora firme, ao autoritarismo, retratando o líder norte-coreano como um símbolo de um sistema que aprisiona até os seus próprios heróis, e questiona o poder da imagem e da manipulação política que molda as perceções de uma nação inteira.
A edição portuguesa da Iguana é cuidadosa e fiel às obras anteriores da autora, respeitando o mesmo formato e design, com a particularidade do uso da cor vermelha como fundo do retrato de Kim Jong-Un. A tradução é fluida, desta vez por Sara Godinho, com paginação de Sérgio Pires. Não há indicação de quem fez a legendagem (presume-se que esse trabalho esteja englobado no da paginação), mas é bastante competente — apenas com o senão de surgirem, aqui e ali, alguns “Is” serifados, tanto no início como a meio de palavras, havendo casos em que aparece um “i” serifado e outro não na mesma palavra. Pergunto-me como isso será possível acontecer.
O Meu Amigo Kim Jong-Un é uma leitura obrigatória para quem quer saber mais sobre esta estranha personalidade e sobre um país muito fechado em si, e que, por conseguinte, se conhece pouco. Se aprecias obras que transcendem o contexto político e se concentram na humanidade por trás dos conflitos, este poderá ser um livro do teu interesse. Fica, contudo, o aviso: quem prefere um estilo de banda desenhada mais tradicional poderá achar alguns momentos mais aborrecidos, sobretudo nas entrevistas, onde somos bombardeados com páginas cheias de texto e informação.
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Co-criador e administrador do Central Comics desde 2001. É também legendador e paginador de banda desenhada, e ocasionalmente argumentista.



