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A pirataria audiovisual continua a aumentar

O consumo global de conteúdos audiovisuais piratas quase duplicou em apenas quatro anos. Segundo a MUSO, empresa britânica de monitorização digital, o número de visitas a sites ilegais saltou de 130 mil milhões em 2020 para 216 mil milhões em 2024, um crescimento de 96%.

Mas os números contam apenas parte da história. O que surpreende é que, ao contrário da pirataria dos anos 2000 — feita sobretudo de blockbusters e clássicos fora de catálogo —, hoje as produções mais pirateadas são os conteúdos originais das próprias plataformas de streaming.

A promessa que virou armadilha

Durante a década de 2010, plataformas como Netflix e Spotify foram celebradas como a solução definitiva para a pirataria digital: catálogos amplos, preços acessíveis e conveniência. Em vez de arriscar vírus ou downloads ilegais, o público tinha tudo “à distância de um clique”.

Só que o modelo mudou. Entre 2015 e 2025, a paisagem do streaming fragmentou-se: cada grande estúdio lançou o seu serviço, retirando títulos de plataformas concorrentes e forçando o espectador a multiplicar subscrições. Ao mesmo tempo, os preços subiram e surgiram planos pagos com publicidade, algo que parecia impensável no início da era do streaming.

O resultado é paradoxal: quanto mais serviços existem, mais difícil é ver tudo legalmente. Para assistir à mesma variedade de conteúdos que outrora estavam reunidos na Netflix, hoje é necessário gastar em média 700 euros por ano em três ou mais subscrições.

netflix

O regresso da bandeira pirata

É neste contexto que a pirataria regressa. Na Suécia — país que viu nascer tanto o The Pirate Bay como o Spotify — 25% da população admitiu recorrer a pirataria em 2024, sobretudo jovens entre os 15 e os 24 anos.

Em 2025, continuar a assistir a temporadas de algumas séries tornou-se tarefa complicada, se não vejamos, o espectador começou por ver as primeiras temporadas em um serviço de streaming, entretanto, a série transitou para outra plataforma — com risco de remoção da biblioteca digital.
Trata-se de licenciamento, de contratos que findam, de redireccionamento de conteúdos, de estratégias de marketing. E, este fenómeno da fragmentação de catálogos e a subida de preços é apontado por especialistas como um dos motores do regresso à pirataria.

Em Portugal, o problema é ainda mais expressivo: entre 2017 e março de 2025 registaram-se 8,4 mil milhões de visitas a sites ilegais, correspondendo a 1.211 visitas por utilizador de Internet — muito acima da média europeia (911). Estima-se que a indústria audiovisual portuguesa perca 280 milhões de euros por ano.

De acordo com António Paulo Santos, diretor-geral da FEVIP, o fenómeno teve um crescimento “anormal” de mais de 20% em relação ao resto da Europa. “Os filmes, novelas e séries estão a ser mais pirateados do que eventos desportivos”, sublinha.

Um problema de serviço, não de preço

Para Gabe Newell, cofundador da Valve, “a pirataria não é um problema de preço, mas de serviço”. A frase, dita em 2011, ecoa com particular força em 2025. Hoje, apesar de mais caro, o streaming oferece menos: catálogos incompletos, títulos removidos sem aviso, qualidade de imagem variável e barreiras regionais que obrigam muitos utilizadores a recorrer a VPNs.

Ou seja, a pirataria não regressou porque é grátis, mas porque é mais simples e conveniente do que navegar no labirinto de subscrições legais.

LG Streaming Week

O risco de repetir a história

O ciclo parece claro: tal como o excesso de restrições no mercado musical alimentou o The Pirate Bay e deu origem ao Spotify, o atual “feudalismo do streaming” pode estar a criar as condições para uma nova era de pirataria em massa.

A diferença é que agora já não se trata apenas de um ato de rebeldia juvenil, mas de uma resposta coletiva a um serviço que deixou de cumprir a sua promessa inicial: acesso fácil, universal e justo ao entretenimento digital.

Ricardo Lopes

Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

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