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Análise BD: O Ditador e o Dragão de Musgo

Se há país onde há muitas dúvidas e poucas certezas, esse país é a Coreia do Norte. O local ideal para criar histórias. Só que esta de que vos falamos não é ficção, é realidade. Leiam aqui a análise ao livro O Ditador e o Dragão de Musgo de Fabien Tillon e Fréwé.

Realidade ou ficção?

Por vezes ouvimos alguém dizer que a realidade supera a ficção. Mas há histórias de vida que são de tal forma estranhas e com tantas peripécias, que quase se torna difícil acreditar que não seja tudo inventado. Não é o caso da vida do realizador norte-coreano Shin Sang-Ok – a sua vida serviu mesmo de base para o argumento do livro de banda desenhada em análise.

Shin Sang-Ok nasceu na zona Norte de uma Coreia unificada que fazia parte do Império do Japão.

Após a Segunda Guerra Mundial, a península da Coreia foi um dos focos da chamada Guerra Fria, com uma guerra civil entre o Norte e o Sul, apoiado cada um pelas duas superpotências (URSS e EUA), e que iria terminar em 1953, com a divisão do país em dois estados.

Entretanto, e depois de estudar cinema no Japão, Shin viajou para a Coreia do Sul, onde começou a trabalhar em cinema, criando uma empresa de produção cinematográfica e realizando centenas de filmes. Porém, a censura e as interferências do governo central danificavam de tal forma as suas obras, que estas resultavam muitas vezes em fracassos de bilheteira. Tais problemas provocaram uma situação extrema, que levaram à fuga de Shin do país.

No entretanto a sua ex-mulher, a atriz Choi Eun-Hee, tinha sido raptada em Hong Kong e levada para a Coreia do Norte, a mando do todo-poderoso ditador Kim Jong-Il. Shin, ao procurar em Hong Kong o paradeiro da sua ex-companheira, acaba também sequestrado e levado para a Coreia do Norte.

E é esta a premissa desta obra, que se foca em toda a atribulada odisseia que o casal viveu até à sua libertação, num registo digno de um livro de aventuras. Pelo meio tomamos conhecimento dos loucos projetos cinematográficos do ditador Kim Jong-Il, um autêntico fanático do cinema, que impunha a sua vontade com mão de ferro. Não por acaso, ofereceu perto de um milhão de dólares pela vida dos dois, depois da fuga de ambos da longa prisão dourada na Coreia do Norte, que durou oito anos.

Apesar disso, e enquanto estiveram sob o domínio do ditador, Shin e Choi conseguiram trabalhar e até desenvolver a indústria cinematográfica norte-coreana. A sua obra principal, Pulgasari (o dragão do título do livro), de 1985, pode ser descoberta no YouTube na sua versão integral.

Uma leitura que cativa

Se o argumento da história não se pode desviar muito da realidade, a forma como Fabien Tillon o desenvolveu, torna a leitura interessante e cativante, sem criar momentos confusos ou quebras de ritmo. Quanto ao desenho de Fréwé, ele cumpre e até se torna adequado, ao criar uma ponte com as bandas desenhadas de aventuras, tão comuns nas revistas franco-belgas do século passado. Fréwé, autora mais dedicada à ilustração que à BD, parece ter alguma dificuldade com o desenho de ação da figura humana, mas oferece belos cenários ao longo da história, e as páginas que separam os capítulos são belos quadros evocativos da arte asiática.

A desenhadora tem uma curiosa forma de trabalhar: desenha em papel, depois melhora o trabalho no computador, imprime, aplica as cores com aguarelas para depois finalizar as pranchas novamente no computador. Esta obra de Fevereiro de 2024 demorou dois anos a ser concluída.

Pena que as Edições ASA não tenham incluído os extras da edição original francesa, nomeadamente uma breve história do cinema coreano dos anos 70 e uma entrevista com o especialista francês de cinema asiático, Julien Sévéon sobre a história do casal. Teriam melhorado a edição.

A dinâmica de leitura é muito boa, conseguindo manter um nível de interesse para uma leitura contínua e fluída.

Livro em capa semirrígida com boa encadernação, com páginas em papel baço de boa qualidade e com boa impressão. Preço justo para o tipo de livro.

Tempo de leitura:

  • O Ditador e o Dragão de Musgo – aproximadamente 45 minutos

Um livro que ao início parece não despertar grande interesse, mas que devido à boa dinâmica tanto do desenho como do texto, se torna uma leitura cativante. Trata-se afinal de uma BD que atravessa vários universos: o das relações pessoais, internacionais e o do cinema. Uma interessante descoberta e uma boa leitura.

O Ditador e o Dragão de Musgo

O DITADOR E O DRAGÃO DE MUSGO

Fabien Tillon e Fréwé
Editora: Edições ASA

Livro em capa semirrígida com 144 páginas a cores nas dimensões de 21 x 29 cm
PVP: 24,90 € 

Se não está a ler ou não tem um livro na mão… By Jove, algo se passa!!!

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