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Óscares 2027: a escolha de França para Melhor Filme Internacional provoca discussão

A escolha de Minotauro, de Andreï Zviaguintsev, para representar França na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional está a provocar um intenso debate no meio cinematográfico francês. O filme, distinguido com o Grande Prémio do Festival de Cannes 2026, foi escolhido pela comissão de seleção entre cinco títulos pré-selecionados, entre os quais De Gaulle: Resistência, de Antonin Baudry. A decisão reacende a discussão em torno dos critérios que devem determinar a representação de um país numa categoria internacional dos Óscares.

Minotaure
Minotauro

A polémica prende-se sobretudo com as características de Minotauro, que tem estreia prevista em Portugal para 10 de dezembro. Realizado pelo cineasta russo Andreï Zviaguintsev, o filme é falado em russo, protagonizado maioritariamente por atores russos e foi rodado na Letónia, e não em França. A história decorre numa cidade russa contemporânea e acompanha Gleb, um empresário confrontado simultaneamente com problemas profissionais, a infidelidade da mulher e as consequências da guerra na Ucrânia. A produção envolve empresas francesas, alemãs e letãs, com Charles Gillibert, da CG Cinéma, e Nathanaël Karmitz, da MK2 Productions, entre os produtores.

É precisamente nesta combinação de elementos que se encontra o centro da discussão. Para alguns profissionais e observadores, a escolha levanta dúvidas sobre a relação entre a nacionalidade oficial de uma produção e aquilo que tradicionalmente se entende como cinema francês. Outros recordam que a nacionalidade de uma coprodução não é determinada pela língua em que é filmada, pela nacionalidade do realizador ou pelo território onde decorrem as filmagens, mas pela sua estrutura de produção e pelos critérios regulamentares aplicáveis. No caso de Minotauro, França surge como um dos países produtores, através da CG Cinéma e da MK2 Productions, tendo o filme recebido também apoio do CNC, Centre national du cinéma et de l’image animée, através do programa Aide aux cinémas du monde.

Minotaure
Minotauro

A própria natureza do filme torna o debate ainda mais complexo. Minotauro está profundamente ligado à realidade russa e acompanha uma família numa cidade do país, utilizando a guerra e a mobilização militar como pano de fundo para abordar questões como a violência, o poder e a degradação moral. Zviaguintsev, que vive atualmente exilado em França, explicou durante a apresentação do filme em Cannes que seria impossível realizar na Rússia contemporânea uma obra com este tipo de abordagem. A produção decorreu, por isso, fora do território russo, com filmagens na Letónia e uma equipa artística e técnica maioritariamente russa.

A ligação de Minotauro ao cinema francês também não é totalmente nova. O filme parte de uma adaptação livre de A Esposa Infiel, clássico realizado por Claude Chabrol em 1969. O próprio Festival de Cannes identifica essa relação como uma das bases do projeto, embora a nova obra transfira a história para a Rússia contemporânea e a transforme numa reflexão sobre a guerra e o autoritarismo.

A Batalha de Gaulle: L’Âge de Fer
De Gaulle: Resistência

A decisão ganha particular relevância pelo facto de entre os filmes pré-selecionados se encontrar De Gaulle: Resistência, de Antonin Baudry, uma produção francesa centrada numa das figuras fundamentais da história contemporânea de França. A comissão analisou ainda Le Corset, de Louis Clichy, La Gradiva, de Marine Atlan, e A Desconhecida, de Arthur Harari.

A presença de Minotauro entre os candidatos não constitui, contudo, uma anomalia à luz das regras dos Óscares. A Academia permite que um país apresente uma longa-metragem que cumpra os critérios de elegibilidade, independentemente da língua em que é falada ou do território onde foi filmada. Para a edição de 2027 existe, além disso, uma alteração relevante: filmes que tenham conquistado determinados prémios em festivais internacionais considerados qualificantes pela Academia podem candidatar-se diretamente à categoria, sem depender da escolha oficial de um país.

No caso francês, a seleção foi realizada por uma comissão de 11 elementos, presidida pelo historiador e crítico de cinema Charles Tesson e composta por profissionais como Coralie Fargeat, Émilie Lesclaux, Sophie Mas, Grégory Chambet, Nadim Cheikhrouha, Thierry de Clermont-Tonnerre, Ron Dyens, Nicolas Eschbach, Adeline Monzier e Sylvie Pialat. A comissão é nomeada pela ministra da Cultura, sob proposta do presidente do CNC, e a sua composição deve respeitar as regras estabelecidas pela Academia.

Desta forma, a contestação dirigida diretamente ao CNC simplifica uma decisão que, formalmente, pertence à comissão de seleção. O próprio organismo sublinha que a escolha resultou de um processo independente e apresenta Minotauro como exemplo do papel desempenhado por França nas grandes coproduções internacionais. Gaëtan Bruel, presidente do CNC, afirmou que a seleção demonstra o papel de França no apoio a cineastas de diferentes origens e que o objetivo passa por maximizar as possibilidades de conquistar o Óscar.

A discussão vai, por isso, muito além da qualidade artística de Minotauro ou do percurso que o filme poderá fazer durante a temporada de prémios. No centro do debate está o significado da expressão “representar um País”. De um lado, encontra-se uma conceção mais associada à língua, aos temas, aos artistas e ao território. Do outro, está um modelo de produção cinematográfica em que a nacionalidade de uma obra também resulta da participação dos produtores, do financiamento e das estruturas de coprodução que permitem concretizar o projeto.

La Bola Negra
La Bola Negra

A corrida ao Óscar 2027 de Melhor Filme Internacional começa também a ganhar forma com a divulgação dos primeiros representantes escolhidos por diferentes países. Espanha apresenta La Bola Negra, distinguido em Cannes, enquanto Brasil escolheu Feito Pipa, de Allan Deberton, com Lázaro Ramos no elenco. Portugal, que procura alcançar pela primeira vez uma nomeação nesta categoria, está representado por A Memória do Cheiro das Coisas.

A Hungria aposta em Amiga Silenciosa, premiado no Festival de Veneza, enquanto o Luxemburgo escolheu Child, um filme de terror de sobrevivência. Camarões entra na corrida com Mabanda e o Panamá com o drama Chichero. Já a Alemanha surpreendeu ao selecionar Everytime, vencedor da secção Un Certain Regard do Festival de Cannes.

A Memória do Cheiro das Coisas de António Ferreira
A Memória do Cheiro das Coisas

Entre os restantes candidatos já anunciados encontra-se Possible Love, de Lee Chang-dong, escolhido pela Coreia do Sul, país que venceu o Óscar de Melhor Filme Internacional com Parasitas. A Colômbia apresenta Rains Over Babel, uma abordagem queer ao universo do Inferno de Dante, enquanto a Áustria aposta em Rose, filme que valeu a Sandra Hüller o prémio de Melhor Atriz no Festival de Berlim.

A Suíça escolheu o documentário Who Is Still Alive, a Lituânia apresenta How to Divorce During the War, distinguido em Sundance, e o Kosovo aposta em Dua, premiado em Cannes. A Turquia será representada por Like a Limbless Tree e a Eslováquia por Flood.

Fjord
Fjord

Com estas primeiras escolhas, a corrida internacional começa a reunir cinematografias, autores e propostas muito distintas, muitas delas com passagens pelos principais festivais internacionais. A seleção dos representantes nacionais continuará nas próximas semanas, até ficar definido o conjunto de filmes elegíveis para a corrida ao Óscar.

A Academia deverá anunciar a 15 de dezembro a lista de 15 filmes que continuarão na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional, ficando a conhecer-se posteriormente os cinco títulos nomeados para a 99.ª edição dos prémios da Academia.

Ricardo Lopes

Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

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