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Filmes: Análise — Sabaya

Um grupo de heróis abnegados visita repetidamente o inferno na Terra em missões de resgate que nos recordam que coragem não é um guião de ficção. Sabaya, um documentário desconcertante a não perder na TV Cine, a 27 de julho.

Al-Hol, na Síria, é o mais perigoso campo de acolhimento do Médio Oriente. Após a derrota na Síria, foi para aqui que muitas das famílias do autoproclamado Estado Islâmico fugiram. Consigo, vieram também inúmeros membros do ISIS que fugiram à captura. Embora derrotados, não abdicam da sua filosofia abjeta, que inclui a manutenção de escravas raptadas aos povos que chacinaram durante a sua campanha de terror, nomeadamente os Yazidi. A estas, dão o nome de Sabaya.

Mas o mundo não é habitado apenas por pobres de espírito. É isto mesmo que provam Mahmud e a equipa do Centro de Acolhimento Yazidi que lidera. Incapazes de ficar de braços cruzados perante uma tremenda injustiça e a tragédia humana, estas corajosas almas arriscam a vida — a própria e a dos seus familiares — para salvar mulheres e raparigas sem outro meio de escape e que, muitas vezes, acabam por se tornar mães após serem repetidamente violadas pelos seus captores, criando assim outra geração de crianças inocentes com uma vida de provações pela frente.

Para tal, invadem repetidamente, amiúde debaixo de fogo, o campo em busca de mulheres e raparigas cativas e sujeitas a um tratamento brutal e cruel, com base em informações fornecidas por ex-Sabaya já libertadas que se voluntariam para regressar a Al-Hol para ajudar quem ocupa o lugar onde outrora se encontravam.

Ao longo de cerca de 90 minutos, o documentário Sabaya acompanha a vida destes heróis e destas heroínas dispostos a arriscar tudo para tornar menos injusto um mundo iníquo.

Com realização, produção e edição de Hogir Hirori, Sabaya arrecadou vários prémios em diversos certames cinematográficos internacionais, incluindo de Melhor Realizador na categoria de Documentário no Festival Internacional de Sundance. A realização das quatro partes esteve a cargo de Jesse Vile.

Não foi o primeiro documentário que vi sobre o Médio Oriente, mas posso dizer que foi um dos mais marcantes. Sabaya não tem narração nem banda sonora para acrescentar a intensidade que os mais críticos, por vezes, apontam como ausente dos documentários. Não tem porque não precisa. Sabaya é capaz de contar uma história inteira ao nível dos mais cativantes thrillers de Hollywood… ao nível, não, superior — e digo-o sem considerar sequer o facto de estarmos perante a realidade, e não de ficção.

Hogir Hirori faz um trabalho genial ao seguir a rotina de Mahmud e da equipa do Centro de Acolhomento Yazidi sem os glorificar como heróis, abstendo-se de qualquer intervenção e limitando-se a documentar a crueza de uma realidade que nos parece distante e nos deixa o coração na garganta sem truques ou ilusões cinematográficas.

Sabaya começa imediatamente com um ritmo alucinante, acompanhando uma ação dos membros do Centro de Acolhimento Yazidi em Al-Hol. Entre conversas e sons não editadas, damos por nós dentro de um automóvel com Mahmoud e a restante equipa a caminho do campo de acolhimento.

A ansiedade cresce quase exponencialmente à medida que esta primeira missão se desenrola e atinge o seu pico durante a fuga, em que o foco passa a ser escapar aos membros do ISIS que perseguem o automóvel em perseguição da primeira mulher resgatada.

Sem aviso nem comentário, conseguimos algum descanso e a primeira resgatada pode finalmente respirar quando chegamos à casa de Mahmud. Embora funcione como tal, não é um santuário, não é um centro de acolhimento a vítimas nem é um refúgio imaculado.

É a casa de Mahmud, onde a esposa lamenta as ausências do marido, o filho brinca na terra e a mãe cozinha, tendo sempre tempo para um gesto de carinho para com as mulheres e as raparigas traumatizadas que ali esperam enquanto não são evacuadas para as suas terras natais.

Este tempo de espera serve também como tempo de cura para estas vítimas de traumas terríveis que terão de carregar consigo para o resto das suas vidas. Pelo menos, aqui, encontram a promessa de que, talvez, a vida possa voltar a ser “normal”.

É assim que decorre o resto do documentário — a um ritmo alucinante cortado por momentos de rotina corriqueira que nos aproxima daquela gente. Somos tão parecidos… exceto na coragem que estas pessoas demonstram com ações, não com palavras.

E Mahmud não está sozinho com a sua equipa, já que algumas ex-cativas encontram o caminho para a redenção ao regressarem a Al-Hol, o seu próprio inferno na Terra, para tentar encontrar as mulheres e raparigas que, como elas outrora, não têm qualquer esperança de serem salvas de um pesadelo sem fim.

Uma história verídica simultaneamente desoladora e inspiradora, contada pelos seus próprios intervenientes, em que me parece difícil os espetadores não a terminarem com uma clara definição de vilões, heróis e sobreviventes. Seria assim que eu resumiria Sabaya.

O registo e a edição de Sabaya são ficam nada abaixo de excelentes. Geniais, diria até. Através da montagem de sequências gravadas sempre com um sentido irrepreensível de pertinência (a câmara está sempre a apontar para onde deve apontar), Hogir Hirori consegue contar uma história verdadeiramente cativante sem uma única intervenção narrativa ou explicativa (exceto no final, quando ficamos a conhecer algumas estatísticas aterradoras).

Note-se que toda a intensidade e todo o impacto do documentário é alcançado sem recurso a imagens demasiado gráficas. É o próprio contexto que nos mergulha num ambiente de terror. Não posso também deixar de destacar outro aspeto positivo do documentário — a coragem de Mahmoud, dos membros do Centro de Acolhimento Yazidi e das antigas cativas que regressam para ajudar quem perdeu a esperança.

Sabaya cumpre na perfeição aquilo a que se propõe. Não existem, na minha opinião, pontos negativos a apontar à obra de Hogir Hirori. Mas não posso deixar passar de recordar a crueldade dos homens (e mulheres!) que perpetuam o sofrimento humano. Referi que a história é contada pelos seus intervenientes. Estes indivíduos também são intervenientes

Classificação: 9/10

Não atribuo nota máxima a Sabaya porque penso que não seria totalmente justo para outros títulos no formato de documentário que apostam numa produção mais ampla e com maior investimento. Se bem que é algo a que este título não se propõe, nem nele haja espaço para tal, sou da opinião que som, fotografia e até efeitos visuais têm o seu peso artístico a ser considerado. Mas também me recuso a atribuir uma nota inferior, já que se excede em tudo aquilo a que realmente se propõe, e vai mais além. Esta foi uma história que me prendeu do início ao fim, por tudo. No fim, a desolação pela situação vivida pelas Sabayas não me dominou. Fala mais alto a inspiração que Mahmud, o Centro de Acolhimento Yazidi e as mulheres e raparigas yazidi me transmitiram com o que considero ser a protagonista desta história: coragem.

Trailer Sabaya:

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