Dobradores de Dragon Ball retiram-se das suas personagens com quase 25 anos!

Dragon Ball Super: Broly está prestes a chegar ao cinema, e com ele o fim duma era.

Quando se anunciou a dobragem portuguesa do filme, Henrique Feist e Ricardo Spinola, dobradores de Son Goku e Tartaruga Genial (entre muitas outras personagens), retiraram-se da franquia Dragon Ball, e agora que o filme se prepara para estrear, foi João Loy, (Vegeta, Coraçãozinho de Satã, etc), também revelou que o seu mandato como príncipe dos Guerreiros do Espaço terminou.

João Loy, nas gravações de Dragon Ball Super Broly:

No intuito de clarificar eventuais dúvidas, bem como registar com o máximo de transparência os eventos sucedidos, é preciso clarificar os fãs.

Chegado aos estúdios Novaga em 1995 por encomenda da SIC, Dragon Ball contava a história de Son Goku e dos seus amigos. Rapidamente a SIC apercebia-se que a obra de Akira Toriyama não era o “divertimento inocente para a juventude” que eles pensavam, afinal de contas esta história focava-se em lutas, artes-marciais e super-poderes.
Foi assim que as dobragens foram reenviadas à Novaga um par de vezes, a mensagem mantinha-se “Menos violência”. Eis que num momento de puro génio,, os artistas decidiram divertir-se um pouco e gravaram uma versão muito própria, em que abdicavam da fidelidade ao guião a troco de mais comédia, humor, e muito improvisação.

António Semedo

A SIC apaixonou-se e o público também, nasceu assim um dos grandes marcos da cultura geek em Portugal.

Originalmente dirigidos pelo genial António Semedo, o elenco que acabou por marcar uma geração não tinha como falhar, cada episódio era mais uma coleção de “tesourinhos”.

Os dissabores atrás dos microfones não foram muitos, mas alguns viriam a marcar a série, por exemplo, a substituição repentina de João Loy na personagem Vegeta.

Com a conclusão da terceira série, Dragon Ball GT, o fenómeno terminou, o elenco separou-se e cada um seguiu a sua vida. A série vivia agora nas repetições da SIC Gold e nas coleções de VHS.

Entretanto, alguns episódios especiais (OVA, ou Original Video Animation) continuaram a ser produzidos, mas só em 2013 chegaria o primeiro “novo” filme de Dragon Ball, uma continuação da história que se colocava logo a seguir ao final de Z (e deixava GT no limbo no que toca a “cânon”).

Com o sucesso deste filme “Dragon Ball Z: Batalha dos Deuses” viria o anúncio de uma sequela “A Ressureição de Freezer”, bem como uma nova série em 2015. Série essa que voltaria a ser distribuída pela SIC.

Com o anúncio, surgiram mais informações. O elenco voltaria, mas o estúdio passava a ser a Audio-In, foi com o primeiro episódio que as queixas dos fãs surgiram.

A publicidade faltava, os horários de transmissão não eram apelativos, e a qualidade, em geral, estava dúbia. Não havia dúvidas que tinha havido um esforço por replicar o charme do original, a dúvida era se esse esforço tinha sido suficiente ou se o original não era tão bom quanto nos lembrávamos.

O humor tinha pouco nexo, os erros de dobragem (nomes de locais e personagens) eram graves. Num Portugal moderno onde qualquer fã tem a informação que quiser a um toque de distância, alguns charmes das primeiras séries tornavam-se erros injustificáveis da nova. Foi com uma plataforma para contactar diretamente com os fãs e com a frustração dos comentários do público que os problemas de Dragon Ball Super se acentuaram.

  Lançamento: Folia de Reis, de Marcello Quintanilha

Os bitaites nas páginas de facebook eram cada vez mais graves, a minoria vocal dos fãs apontava dedos ao elenco, que por sua vez retribuía ocasionalmente com alegações de “inveja” e outros argumentos que tais. Alegadamente o ambiente no estúdio também não estava famoso, a excitação de gravar os primeiros episódios tornava-se num sentimento de obrigação, quer por contrato, morais, fé, ou uma mistura de tudo isso.

Ricardo Spínola e Henrique Feist (Foto: Nuno Miguel Sousa)

O mais grave incidente foi em agosto de 2018 quando Henrique Feist decidiu finalmente abordar uma das mais frequentes criticas apontadas ao elenco “A versão japonesa é melhor”. Nas suas respostas, Feist apontou vários defeitos à versão japonesa de Dragon Ball. No comentário mais marcante, Feist demonstrou aversão ao facto de Son Goku ser interpretado por uma mulher na versão japonesa. Foi com esta explosão que a guerra constante entre fãs e elenco atingiu o seu clímax.
E depois ou ambos os lados pararam de puxar a brasa, ou os dobradores fizeram um esforço Herculano por ignorar os maldizentes e encarar o trabalho como o que realmente era: um trabalho.

Vimos a estabilização da qualidade, as piadas já não eram “trinta por uma linha”, mas a série também não se privava do humor pontual, tinha-se encontrado um meio-termo agradável, mas a saturação dos artistas era clara.

Foi com o anúncio da vinda a Portugal de “Dragon Ball Super: Broly” que Henrique Feist e Ricardo Spinola anunciaram que iam abandonar os papeis na série. Os fãs estavam abalados e muitos consideraram boicote ao filme e à série que, entretanto, tinha sido adquirida pelo canal Biggs.

Num recente comunicado aos fãs, Henrique Feist apontou

“(…) RECUSÁMOS A SÉRIE por razões financeiras.(…)”, aludindo ainda que o Biggs queria reduzir os custos de produção “(…) Não seria de todo correcto perante o “finca-pé” que nós os 4 fizemos com a SIC, voltar atrás com a nossa palavra por ter mudado de canal.

Frisou ainda que nessa conversa só se falava da dobragem da série, e confirmou que na altura nenhum dos atores teria ainda sido convidado para a dobragem do filme.

No desenrolar da dobragem do filme, fontes do Central Comics indicaram que o ambiente em estúdio estava bastante tenso. Mas foi a caminho da antestreia no passado dia 9, que João Loy anunciou que pretendia retirar-se da franquia com uma breve publicação na sua página de facebook. Dias depois, o ator fez um direto na sua Página de Facebook, justificando a sua saída, num vídeo com mais de uma hora e 20 minutos onde aproveitou para responder a perguntas dos fãs. Aqui, descreveu ainda mais problemas, como a falta de respeito que os actores tiveram da sua entidade patronal, nomeadamente problemas na antestreia do filme “Dragon Ball Super: Broly” e as diferenças de cachê entre os vários actores aquando da passagem da série Dragon Ball Super, da SIC para o Biggs.

É esta a versão resumida. Nas suas despedidas, Henrique Feist, Ricardo Spinola e João Loy não hesitaram em desejar sorte à nova geração de dobradores a quem deixam a tocha.

Do elenco original o único elemento que ainda não se pronunciou quanto à sua permanência no projeto é a atriz Cristina Cavalinhos.

Dragon Ball: Vegeta (João Loy) Painel CENTRAL COMICS CON

Henrique Correia

Jovem dos 7 ofícios com uma paixão enorme por tudo o que lhe ocupe tempo. Jedi aos fins-de-semana!

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