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Crítica – Mais Uma Rodada (2020) Vencedor Óscar Melhor Filme Estrangeiro

Quatro professores do secundário frustrados com as suas vidas e como os seus alunos não demonstram o mínimo de interesse pelas aulas, decidem consumir álcool diariamente e analisar a forma como isto afeta as suas vidas profissionais e sociais.

Em Mais Uma Rodada, Martin (Mads Mikkelsen), professor de História, é uma personagem que demonstra o forte poder do quotidiano numa pessoa. O modo como o hábito e o, que consideramos, de acolhedor, por vezes, pode ter um impacto negativo fortíssimo nas nossas relações com os outros. Mads Mikkelsen exibe uma credibilidade imensa nas suas pequenas nuances de como o autopiloto diário faz-nos perder o verdadeiro sabor da vida.

A sua mulher, enfermeira, passa as noites fora e as poucas horas que têm juntos não têm qualquer contacto físico ou emocional. No trabalho, os seus alunos não mostram qualquer interesse na sua matéria nem na pessoa que a dá. Por consequência, Martin apercebe-se que algo tem de mudar em si e, quando influenciado pelos seus colegas de trabalho, também professores, para consumirem álcool em pretérito de escrever uma tese acerca da experiência, entramos numa narrativa cativante nesta nova vida de Martin.

Desde então, o filme torna-se numa espécie de Lucy (2014) em que vez de surgir no ecrã a percentagem de cérebro utilizado, surge o nível de álcool que têm no sangue. Martin e os seus três amigos dão uma reviravolta completa às suas aulas e o interesse dos seus alunos é inevitável. Martin, uma pessoa que era extremamente fechada e calada, começa aos poucos a revelar mais às pessoas ao seu redor e à própria audiência mais sobre si. O mesmo acontece em sua casa, os seus filhos e mulher notam que este é um Martin diferente que, apesar de ter sido necessário o álcool, isto auxiliou-o a encontrar o seu verdadeiro eu, revelando também o mau e o bom da bebida.

É um filme acima de tudo credível que nos deixa ansiosos pela segurança profissional, social e amorosa destes professores. Aos poucos, o seu ensino proporciona-nos momentos hilariantes e infelizes o que faz com que a amizade entre colegas de longa data tenha lugar para crescer, a forma como a própria personalidade que pensávamos já conhecer afinal ainda tem muito para demonstrar e as responsabilidades face às bebidas álcóolicas tentam dar umas reviravoltas à previsibilidade da narrativa. 

Por consequência, estes fatores psicológicos aliados a uma estética e fotografia muito íntima, próxima dos atores e pouco auxílio de tripés, tornam Mais Uma Rodada numa experiência pessoal para o espetador. Alguns momentos narrativos são de facto previsíveis, porém, consegue cumprir o seu maior objetivo.

Existem momentos na vida que precisamos de fazer uma análise profunda sobre nós mesmos, das pessoas que verdadeiramente importam e que, por vezes, a ruptura psicológica e social, sejam pelos outros ou por nós é a melhor forma. As bebidas alcoólicas, apesar de serem o auxílio para esta introspeção, são abordadas de um modo bastante curioso em que consegue ir para além dos clássicos pontos negativos e previsíveis e demonstra-nos que a vida, sempre com moderação face aos vícios, deve ser vivida.

“Nós queríamos fazer um filme que celebrasse a vida” – Thomas Vinterberg, realizador.

Em suma, preparem-se para um filme emocionante, com interpretações memoráveis, com destaque a Mads Mikkelsen, e uma música final que não vos sairá da cabeça durante uns bons tempos.

  • Mais Uma Rodada estreou a 29 de abril nos cinemas portugueses

Classificação: 7/10


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