Crítica – Astérix e a Filha de Vercingétorix

Astérix e toda a família gaulesa estão de volta para mais uma aventura. Será este finalmente o álbum de consagração dos autores Ferri e Conrad?

Há dias, conheci um senhor, na casa dos cinquenta, que me pediu ajuda para procurar este novo álbum do Astérix, numa das grandes lojas Sonae. Quando o encontrámos, folheou o livro e não mostrou grande entusiasmo. Encolheu os ombros dizendo: “isto já nem é dos autores originais”. Quando lhe perguntei se tinha lido os álbuns anteriores desta dupla, ele disse que sim, voltando a encolher os ombros, demonstrando assim a sua fleuma.

Isto demonstra o interesse e a opinião geral dos fãs dos irredutíveis gauleses, que agora mais parece comprarem por coleccionismo do que propriamente para ler e desfrutar.

A herança deixada por Goscinny e Uderzo é pesada e, por mais que saiam livros novos, as pessoas teimam em compará-los com o passado.

O enredo deste álbum conta-se em poucas linhas. O líder gaulês Vercingétorix, capturado por César, tem uma filha, que confiou a dois guerreiros arvernes, para colocá-la a salvo. No entanto, ela é perseguida por um traidor que jurou roubar o seu torque (um colar) e levar a jovem Adrenalina para ser romanizada. A adolescente é confiada, então a Astérix e Obélix, com o objectivo de a manter a salvo.

Promoveu-se muito a ideia de que finalmente uma personagem feminina iria ter um papel fulcral num álbum de Astérix (tal como aconteceu na última aventura cinematográfica em “Astérix – O Segredo da Poção Mágica”, que estreou em Portugal em Janeiro de 2019). Curiosa também a questão de Obélix, na 15ª prancha, dizer ao seu amigo baixinho, de forma aborrecida, que prefere missões no estrangeiro. Isto faz-me levar a crer que esta história terá sido mais uma “encomenda” da Les Éditions Albert Rene, do que propriamente uma ideia original de Ferri, e que, porventura, terá sido altamente condicionado na sua escrita criativa. Mas esta é apenas uma suspeita minha, é claro.

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Seja como for, não posso dizer que desgostei do livro. Apesar de não brilhar, e de ter os seus momentos algo monótonos, não deixa de ser uma história no mínimo divertida. Porém, falta a originalidade e a frescura que pudemos ver e ler na aventura anterior Astérix e a Transatlântica, por exemplo. De salientar que o argumentista volta a aproveitar para deixar referências a questões contemporâneas, algo que eu particularmente aprovo, quando são bem inseridas no contexto do enredo.

A história algo limitada também não permitiu a Conrad fazer grandes cenários, visto que mais de metade da aventura se passa entre a praia e o mar. O que se pode fazer além de areia e água? Por isto, muito mais não se podia esperar dos desenhos, que claramente passam a prova.

Seja como for, acho que é injusto continuarmos a efectuar comparações com os tempos dourados de Goscinny, e deveremos ler estas novas aventuras de mente aberta e predisposta a abraçar estes ou outros autores que possam criar as novas aventuras dos gauleses.

Argumento: Jean-Yves Ferri
Arte: Didier Conrad
Editor: Edições Asa
Argumento: 7
Arte: 7
Legendagem: 8
Encadernação: 7
Veredito Final: 7

Hugo Jesus

Co-criador e administrador do Central Comics desde 2001. É também legendador e paginador de banda desenhada, e ocasionalmente argumentista.

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