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Análise: Trigun – 20 anos depois

Estávamos em Portugal em 2001, num canal chamado Sic Radical e eu estava em frente à televisão com uma tigela de Chocapic, prestes a conhecer um dos heróis que mais me iria marcar a infância.

O nome dele é Vash The Stampede, o tufão humanóide com uma recompensa de 60 biliões de dólares, pistoleiro do planeta Gunsmoke, amante de donuts e o principal protagonista de Trigun.

Trigun é um anime de 1998, adaptado da manga de Yasuhiro Nightow. O anime e a manga divergem, no sentido em que o anime foi criado 10 anos antes do final da manga. Apesar de serem obras diferentes, as mudanças começam a surgir a meio do anime, no entanto o anime mantém a essência da manga mesmo com mudanças significativas.

O anime surge no mesmo ano em que saíram considerados clássicos hoje em dia como: Cowboy Bebop, Serial Experiments Lain, Outlaw Star, Card Captor Sakura e Yu-gi-oh. Um pouco à semelhança de Cowboy Bebop, que mistura ficção científica, cinema noir e jazz.

Trigun é um western de ficção científica e rock’n roll.

A história do anime vive centrada em Vash, um pistoleiro nómada que para os habitantes do planeta é uma figura lendária e misteriosa. Quem o acompanha são Meryl e Milly, duas agentes de uma seguradora, enviadas na missão de procurar Vash e descobrir como minimizar os danos causados pelo mesmo.

Com cada episódio vamos conhecendo novos locais e personagens que vão tentar capturar e testar a nossa personagem principal. O ambiente faz lembrar um pouco os filmes western ou o Mad Max e o leque de personagens é variado – vamos encontrar desde um grupo punk de vilões cyborgs, um caçador de recompensas saxofonista e até um ex-padre que transporta sempre com ele uma cruz enorme e cheia de “fé”.

Apesar de ter uma enorme experiência e pontaria, Vash vive sobre um código moral próprio, que o impede de sacrificar qualquer vida. Que faz com que tente resolver os conflitos de forma pacífica, por vezes trapalhona e parecer que foi tudo um golpe de sorte.

**Atenção a restante análise contém spoilers. Caso queira ler apenas a nota final, salte para os últimos parágrafos.**

Toda a narrativa gira em torno de Vash e o constante desafio ao seu paradoxo moral, que faz com que seja uma moeda com dois lados. À primeira vista consegue ser muito infantil, extrovertido e inocente, apenas querendo uma vida de paz, amor e tranquilidade. Por outro lado, consegue tornar-se altamente sério e distante. Sendo o homem mais procurado do planeta e em consequência disso o melhor pistoleiro, vivendo em constante sofrimento.

Não só por se sentir responsável pelos acidentes que já causou, mesmo que tenham sido de forma inocente. Mas também por não se poder aproximar demasiado de alguém, pois isso pode revelá-lo ou trazer consequências graves para quem lhe é próximo.

Esta dualidade e as razões da mesma vão ficando cada vez mais marcadas à medida que a narrativa se desenrola e vamos conhecendo o seu passado. Metade da série gira em torno de comédia e ação e a outra metade explora temas mais pesados e adultos.

A personagem principal e o espectador são várias vezes confrontados com como o mundo realmente é e como Vash gostaria que fosse. Além das diferentes perspectivas sobre o uso de poder e como o meio que nos envolve consegue ou não quebrar os nossos princípios morais.

O verdadeiro poder de Vash encontra-se na sua humanidade e o leitor irá compreender o quão irônico isto é depois de assistir à série.

**Os spoilers terminam aqui.**

Mais do que uma figura cool, a personalidade de Vash foi o que mais me fascinou quando era miúdo. Numa altura onde os super-heróis da televisão eram o Son Goku, Batman ou o Homem-Aranha, a série Trigun mostrou-me um herói que preferia recorrer a valores morais como a humildade, bondade e integridade do que usar superpoderes, técnicas ninja ou violência para resolver os problemas.

A série peca um pouco na animação, uma vez que já tem 23 anos, a qualidade pode parecer datada para alguns espectadores. Hoje pode ser assistido na Netflix. Para os mais curiosos podem ainda procurar pela manga ou ver o filme de 2010, “Trigun: Badlands Rumble”. De futuro fala-se de uma nova adaptação mais fiel à manga, no entanto, ainda nada é certo.

Na minha opinião a série merece uma nota de 8 em 10, apesar de menos conhecido, ainda hoje é considerado um dos grandes clássicos de anime. Com uma excelente narrativa e dose equilibrada de ação e comédia.

Como recomendações, deixo-vos com Cowboy Bebop, outro anime FC clássico desta era, Rurouni Kenshin (mais conhecido como samurai X em Portugal), outro anime que partilha o conflito interno das personagens principais e por último The Mandalorian, que apesar de ser de imagem real e num universo completamente diferente, reflete na perfeição este estilo space western.

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