Análise BD | O Verão em Que Hikaru Morreu Vol. 6 e 7 -Quanto Mais Sabemos, Mais Perguntas Surgem
Os volumes 6 e 7 de O Verão em Que Hikaru Morreu expandem o mistério, aprofundam a relação de Yoshiki e Hikaru e elevam a ameaça sobrenatural.
O Verão em Que Hikaru Morreu parece que gosta de brincar com os leitores e os volumes 6 e 7 são um excelente exemplo disso, já que fazem questão de tornar respostas em mais perguntas. A história deixa de estar concentrada apenas na identidade da entidade que ocupa o corpo de Hikaru e começa a abrir a porta para algo maior, mais estranho e perigoso.
O volume 6 funciona como uma peça de transição bem montada. Tanaka regressa ao centro da narrativa e traz consigo informações importantes sobre os chamados “buracos”, estruturas que parecem ligar o nosso mundo a uma realidade sobrenatural. A partir daqui, o manga amplia o seu worldbuilding sem abandonar aquilo que sempre funcionou melhor, a relação desconfortável entre Yoshiki e a criatura que insiste em chamar-se Hikaru.
É também um volume que dá mais espaço a personagens secundárias. Maki ganha importância e as manifestações que o envolvem ajudam a explicar melhor como Hikaru perceciona almas, impurezas e emoções humanas. Esta dimensão é particularmente interessante porque mostra que Hikaru consegue compreender conceitos humanos sem necessariamente os experienciar da mesma forma.
Asako também começa a sair da posição de simples observadora. A sua sensibilidade para o sobrenatural passa a ter um peso real na narrativa, enquanto a investigação sobre o Festival de Houko e as tradições locais acrescenta uma camada quase folclórica ao horror. A série continua a pegar em elementos simples, como um santuário, uma tradição comunitária ou uma casa abandonada, e a transformá-los em fontes genuínas de desconforto.
Se o sexto volume constrói a tensão, o sétimo decide libertá-la. As regras relacionadas com os buracos ganham uma dimensão concreta e obrigam as personagens a agir, em vez de continuarem apenas a tentar compreender o que está a acontecer. A narrativa divide-se entre diferentes frentes, mantendo Yoshiki e Hikaru no centro, mas permitindo que Asako e Tanaka tenham também um papel decisivo.
Sem entrar em spoilers pesados, a passagem para o outro lado é um dos momentos mais fortes desta fase. A realidade sobrenatural não é apresentada como um simples “mundo paralelo”, mas como um espaço deformado. Visualmente, é o tipo de material que confirma porque é que este manga funciona tão bem enquanto horror.
O grande mérito do volume 7 está na escala. O problema já não parece pertencer apenas a Yoshiki e Hikaru, e as consequências começam a tocar outras personagens e a própria comunidade. Ainda assim, o manga nunca perde o foco emocional. No meio de toda a mitologia e das regras sobrenaturais, continua a existir uma pergunta muito humana: até onde estamos dispostos a ir para manter alguém ao nosso lado, mesmo quando sabemos que essa pessoa já não é a mesma?
Esta dupla de volumes também mostra a segurança narrativa de Mokumokuren. Há exposição, mas raramente parece um manual; há horror, mas o suspense nasce tanto do ambiente como daquilo que fica por dizer. O ritmo é paciente, embora não parado, e as histórias extra funcionam como complemento, oferecendo alguma leveza depois de capítulos bastante pesados.
A edição da Presença Comics continua a acompanhar esta evolução com a qualidade que a obra pede, mantendo um cuidado consistente tanto na apresentação como na tradução e adaptação do texto. A leitura mantém-se fluida e confortável, permitindo que o impacto das ilustrações e o ambiente inquietante da história continuem a sobressair.
No conjunto, os volumes 6 e 7 representam uma evolução importante para O Verão em Que Hikaru Morreu. O sexto destaca-se pela construção e pelo aprofundamento da mitologia, enquanto o sétimo aposta mais no confronto e nas consequências. Nem todos os mistérios recebem respostas imediatas, e ainda bem. Parte do fascínio desta obra está em nunca nos deixar completamente confortáveis com aquilo que pensamos ter percebido.
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.





